Doces lembranças
Escrevi um texto para a revista Lola sobre a bela e querida Giovanna Antonelli, atriz a quem devo o sucesso da personagem Capitu, em Laços de Família, apresentada no ano 2000 pela Rede Globo. Depois de colocar um ponto final na tarefa, ainda fiquei por um bom tempo pensando na Giovanna e nos atores de […]
Escrevi um texto para a revista Lola sobre a bela e querida Giovanna Antonelli, atriz a quem devo o sucesso da personagem Capitu, em Laços de Família, apresentada no ano 2000 pela Rede Globo. Depois de colocar um ponto final na tarefa, ainda fiquei por um bom tempo pensando na Giovanna e nos atores de uma maneira geral, homens e mulheres que abraçam essa profissão mágica, que é a de perder-se para reencontrar-se, como escreveu — mais ou menos assim — o francês Albert Camus. E esse tempo de reflexão acabou por me levar de volta à vida que vivi na juventude, parte dela no teatro, ao lado de um grupo de jovens incríveis, amigos para sempre — e com quem compartilhei momentos inesquecíveis. Atores são seres especiais. Mais precisamente, as atrizes, capazes, muitas vezes, da proeza aparentemente irreconciliável de demonstrar coragem, generosidade e desprendimento, ao mesmo tempo em que cultivam o medo, a vaidade e o egoísmo. Sem jamais perder a doçura.
Em meio às lembranças que me alcançaram, algumas engraçadas, outras dramáticas, revivi festas de aniversário e de casamento, separações e reconciliações, nascimentos e funerais. Entre as mais agradáveis, guardada também na memória do paladar e do olfato, reina o espaguete que a Fernanda Montenegro fazia para todos nós, sempre famintos, no terraço do prédio em que ela e o Fernando Torres moravam, em São Paulo. Éramos muitos, em permanente alternância, mas eu estava entre os mais assíduos, ao lado de Flávio Rangel, Sérgio Britto e Fábio Sabag. À volta da saborosa macarronada, acompanhada de uma taça de vinho — não mais que isso, pois o dinheiro era curtíssimo —, fazíamos planos de vida e trabalho, além de discutir a salvação da arte no Brasil. Exatamente como se continua fazendo, e com o mesmo resultado: nenhum. Afinal, o teatro brasileiro sempre esteve à beira da extinção e aprendeu a sobreviver a qualquer custo, independente das nossas preces, indiferente à nossa vontade e ao abandono de qualquer poder público.
Fernanda já era, apesar de novinha, a mais sensata do grupo. Ela nos conduzia docemente, nos ajudava com seu bom-senso, nos encantava com sua simples presença. Tal como hoje, passados mais de cinquenta anos.
Naquela época trabalhávamos na Companhia Maria Della Costa, onde fizemos O Canto da Cotovia, de Anouilh, e Com a Pulga Atrás da Orelha, de Feydeau, ambos dirigidos por Gianni Ratto, que então estreava no Brasil como diretor e cenógrafo. E foi ainda nessa mesma companhia e nesse mesmo período que Fernanda fez A Moratória, de Jorge Andrade, espetáculo que deu início à sua consagração como atriz.
Lembrei-me também — e como esquecer? — de um aniversário de Maria Della Costa, comemorado no apartamento do Milton Moraes, a que a classe teatral compareceu em peso. E que lá, numa fanfarronada imprevista e inusitada, dei um soco num sujeito fortíssimo, lutador de judô, que só me poupou da morte por piedade. Tento lembrar a razão dessa bravata suicida e não consigo, ainda que possa rever a cena nos mínimos detalhes.
Revivi também algumas reuniões numa casa do bairro da Bela Vista, uma espécie de república de artistas, onde o ator Edmundo Lopes costumava dizer poemas para uma plateia em que estavam sempre presentes atores e atrizes como Elísio de Albuquerque, Córdula Reis, Luís Tito, Serafim Gonzalez, Eugênio Kusnet, Jayme Barcelos, Sylvia Orthof e Sadi Cabral, além dos quatro mais assíduos da turma do espaguete dos anos 50.
E, em meio a outras tantas lembranças, que o espaço da crônica não me permite contar, recordei-me — acima de tudo — do amor que desde então nutríamos uns pelos outros e dos nossos olhos e coração cheios de esperança, famintos de compreensão, que o tempo jamais conseguirá apagar.
Encerrando, volto à Giovanna para lhe desejar — assim como aos sobreviventes do meu grupo e aos possíveis leitores — um feliz ano que se inicia. E que ele seja verdadeiramente novo.








