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Luisa Mascarenhas

Por Luisa Mascarenhas, psicóloga e escritora Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Autora do livro 'A Vida Virtual Como Ela é'
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Você quer um grande amor ou só precisa de sossego?

Tem muita gente por aí que só está querendo uma folga, um descanso das cobranças e expectativas

Por Luisa Mascarenhas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
14 fev 2022, 11h43

Nas minhas vivências de solteira, ando bastante observadora, e me dando conta de algumas coisas. Uma delas é que está cheio de gente por aí que na verdade não quer arranjar um relacionamento porque quer viver necessariamente um grande amor, porque tem ideais românticos, nem nada disso. Tem muita gente que só quer “sossego”. Descansar das cobranças, das expectativas, da busca a qual ela se vê atrelada.  Quer sentir que ninguém está esperando ela cumprir nenhuma meta social e amorosa, que ela já está com a “missão cumprida”. Check. O que a pessoa quer, mesmo de forma inconsciente, é se livrar da incompletude que ela sente por não ter alguém num contexto social em que todos, inclusive ela própria, acham que ela DEVERIA ter alguém.

Acho que estar sozinho acaba sendo uma “questão” muito mais pela expectativa de que não deveria ser assim do que pela necessidade real de estar com alguém. Como a gente supõe que o “padrão de qualidade” da vida é ter um parceiro amoroso, não tê-lo significa falta, fracasso, rejeição, desamparo, solidão. São essas associações que dão um peso enorme para estarmos sem “alguém”.

Outra coisa que leva a pessoa a achar que precisa de um par é o cansaço. A pessoa, além de ter que lidar com todas essas “faltas” que lhe são atribuídas, mesmo que hoje em dia de forma bem mais sutil, ela ainda se vê pressionada a se encaixar num clichê. A pessoa solteira (eu me refiro aqui a qualquer pessoa sem uma parceria amorosa) parece ter que cumprir um roteiro, que está voltado para a busca do tão sonhado compromisso. A pessoa supostamente precisa estar com mais ânimo para sair, ver gente, beber, interagir. Como a meta seria, em tese, um dia namorar ou casar, então a pessoa tem que estar “correndo atrás” da meta. Se ela não está, então talvez esteja fechada para o amor, com questões afetivas, meio deprimida, ou qualquer coisa do tipo.

Existe uma expectativa social de que a pessoa solteira esteja “produtiva”. Fazendo acontecer. E tem que estar animada, curtindo, porque esse é o estilo de vida esperado do solteiro que está feliz. Se a pessoa está muito quieta, é porque está com algum problema. É tida como alguém que jogou a toalha, desistiu de viver em sua plenitude.

O solteiro que está sem sexo também é malvisto. Era para estar aproveitando e tendo diversas experiências, já que a graça é poder fazer o que os casados, pelo menos em teoria, não podem.

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A pessoa solteira precisa estar “na pista”. Ela precisa querer se relacionar, mas ao mesmo tempo curtir intensamente enquanto isso não acontece. Não pode “entregar os pontos” e achar que está tudo certo estando sozinha, porque isso significaria que ela está negando seu sentimento, que seria, claro, o de querer estar com alguém. Então se a pessoa não quer estar com alguém, ela está fechada, ou em negação, tentando se fazer de forte, quando na verdade está contando os minutos para amar e ser amada…

A pessoa que está bem sozinha, parecendo realmente confortável nessa posição, deixa os outros desestabilizados. Como assim? O que tem de errado com ela? É quase impossível acreditar que uma mulher, principalmente, esteja bem não tendo uma relação.

Para completar o pacote, um paradoxo. O solteiro tem que estar bem e feliz sozinho, para conseguir estar com alguém de forma saudável. Ou seja, a pessoa tem que estar feliz e bem para conseguir encontrar alguém legal, ter uma relação funcional e ficar… feliz e bem. Então a pessoa solteira tem que ser feliz, sim, mas sabendo que está vivendo um momento, e que a meta ainda não foi cumprida. Ela pode e deve curtir esse processo, assim como curte sua época de faculdade, sabendo que o objetivo é se formar. O solteiro tem que ser feliz, mas sempre reassegurando a todos que a felicidade máxima seria ser feliz com “alguém”.

O resultado disso, obviamente, é que muita gente acaba se exaurindo e buscando qualquer urubu para chamar de “meu louro”. Porque mais importante do que viver um grande amor, é se libertar de toda essa carga.

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As pessoas ficam cansadas de sair demais, beber demais, dormir de menos, transar com pessoas diferentes o tempo todo, estar sempre “on”. Busca, então, sossego, estabilidade. Ela quer ter alguém para poder se permitir ficar em casa vendo um filme sem achar que deveria estar na rua vendo gente, conhecendo pessoas novas, curtindo e fazendo a roda girar… Pode até estar vendo o filme sozinha, seu “alguém” pode nem estar com ela em boa parte das situações. Pode ser até um “alguém” bem ausente.  Mas o fato de ela estar namorando ou casada muda tudo. É um passaporte de que está tudo certo, ela “chegou lá” e agora pode se permitir relaxar. Mesmo que a pessoa seja animada e “rueira” casada, existe um descanso emocional. Uma trégua das cobranças e expectativas. A grande vantagem de estar com alguém muitas vezes não é estar com alguém. Mas poder se sentir legitimamente bem, completo, seguro. Você tem permissão para descansar e se sentir realizado. Conquistou o que deveria conquistar, está onde deveria estar. Já chegou lá.

Seria tão bom se a gente conseguisse se livrar dessa falta construída… Se a gente começasse a liberar o solteiro dessa carga, certamente estaríamos libertando muita gente de relacionamentos infelizes, tóxicos, abusivos. Porque é o medo de ser solteiro e encarar novamente toda essa pressão que faz com que muita gente se mantenha em relações que lhe fazem mal. Então seria ótimo tirarmos os solteiros dessa caixinha do “incompleto”. É a qualidade da nossa “solteirice” que determina nossa qualidade de relacionamento.

A sua forma de enxergar a vida sem uma relação determina até onde você vai ser capaz de aturar o que não deveria quando está vivendo uma. Ninguém consegue se manter firme em seus princípios se está morrendo de medo de “ficar sozinho de novo”.

E ainda dizem que os solteiros são livres… Outro dia andando de táxi com o vidro aberto, me lembrei da frase que ouvi de uma amiga anos atrás. Ela, casada, e achando graças das situações que eu andava vivendo, disse que solteirice é “vento batendo nos cabelos”. De fato é, em vários sentidos e momentos. Mas o problema é a vontade que volta e meia dá, diante de tanta pressão interna e externa, e tanta euforia e insatisfação construída, de fechar o vidro e ligar o ar-condicionado. O solteiro muitas vezes só quer paz. Sem busca, sem culpa, sem cobranças, sem expectativas.

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