Vorcaro e Martha: psi comenta sobre “espetáculo da intimidade”
"É o velho problema da repressão sexual, que está presente numa sociedade com traços profundamente conservadores e faz de conta que é liberal", diz psi
A coluna conversou com o psicanalista Arnaldo Chuster sobre o motivo de o “espetáculo da intimidade” interessar tanto — caso do vazamento das mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) com a então noiva Martha Graeff, que viraram uma espécie de Big Brother nas redes, com memes, piadas e violação da intimidade alheia.
Por que a sexualidade e a privacidade de uma mulher costumam ser transformadas em entretenimento coletivo com tanta facilidade?
“Aparentemente é o velho problema da repressão sexual, que está presente principalmente numa sociedade com traços profundamente conservadores e faz de conta que é liberal. A violência repressora contra a sexualidade — mais especificamente contra a sexualidade feminina — é tanto maior quanto mais fundamentalista é a sociedade. Veja o exemplo do Irã e de outros países islâmicos. Mas penso que pode haver algo mais complexo por trás disso tudo, pois o que parece dominar nossa época são traços de loucura e mentiras com expressões cruéis. São sinais de uma crise profunda, semelhante à doença mental psicótica, gerando atos inconsequentes e incoerentes a todo momento. As informações vão sendo jogadas para confundir, como num jogo infantil, inócuo, mas o jogo continua com apostas cada vez mais altas e perdas cada vez maiores. Um jogo perverso que prossegue”, diz o psi.
Nesta segunda (09/03), o ministro Gilmar Mendes criticou a exposição de diálogos íntimos sem relação com ilícitos. Para ele, trata-se de uma “barbárie institucional” que ultrapassa os limites impostos pela Constituição e pela legislação.
Ao jornalista Pedro Jordão, da Veja, a defesa de Graeff enviou nota afirmando que ela não mantém relacionamento com o banqueiro há meses e que “jamais esteve envolvida em qualquer tipo de ilicitude penal”. Os advogados disseram ainda que vão tomar as providências cabíveis — judiciais e extrajudiciais — para garantir seus direitos e impedir que sua privacidade ou integridade continuem sendo violadas.
Embora o material devesse estar sob sigilo, assim que chegou ao Congresso o controle sobre as informações simplesmente “vazou”. Assessores, parlamentares e jornalistas tiveram acesso a trechos que não tinham relação alguma com o suposto crime financeiro, mas eram conversas íntimas. Com isso, muita gente passou a se interessar menos pelas “emendas do Master” e muito mais pelos apelidos do casal ou pelas festas grandiosas que Vorcaro chamava de “business”. O ministro André Mendonça determinou que a Polícia Federal abra um inquérito específico para descobrir quem, dentro da cadeia de custódia — PF, Ministério Público ou Congresso — deixou esses arquivos “escaparem” para a imprensa.







