Teatro (Claudia Chaves): “Insignificância” — a importância de ser o que é
Peça imagina um encontro entre Albert Einstein, Marilyn Monroe, Joe DiMaggio e o senador Joseph McCarthy

Somos bombardeados com figuras emblemáticas, como a língua de Mick Jagger e a imagem de Che Guevara com sua boina. Agora, quando vemos esses ícones transformados em personagens, em uma comédia meio amalucada, na qual nada parece fazer sentido, como a teoria da relatividade, esses símbolos tornam-se arquétipos dos mais importantes sentimentos humanos.

Situada num quarto de hotel na América dos anos 1950, “Insignificância” imagina um encontro entre quatro figuras icônicas: Albert Einstein, Marilyn Monroe, Joe DiMaggio e o senador Joseph McCarthy.
Com tradução de Gregório Duvivier, a carpintaria de diálogos afiados e interações surpreendentes serve ao grupo de artistas – Cássio Scapin, Amanda Acosta, Marcos Veras e Norival Rizzo (Einstein, Marilyn, Joe e o senador, respectivamente) – para construir, com precisão e cuidado, cada pedacinho de atuações de primeira, orquestradas pela direção de Victor Garcia Peralta, na narrativa que explora a interseção entre poder, fama e intelecto.

Ao mesmo tempo em que humaniza figuras lendárias enquanto brinca com a absurda possibilidade desse encontro, percebemos que Marilyn não é apenas uma loura estereotipada. O desempenho de Amanda Acosta cresce na emblemática cena em que desenvolve a teoria da relatividade com comboios de brinquedo e lanternas. O senador McCarthy, que Norival Rizzo encarna como uma representação da paranoia política e do autoritarismo, injeta tensão e conflito na história, enfatizando os perigos do poder baseado no medo.

Um Einstein memorável, na voz e no corpo de Cássio Scapin, é o núcleo que une a ação de todos. Joe DiMaggio é retratado como um homem que luta com suas próprias inseguranças, dividido entre o amor e um sentimento de inadequação. Marcos Veras se mostra um ator completo, transitando da comédia à inadequação, da violência à paixão, sem perder as palavras, os gestos e, sobretudo, comovendo a plateia.

O texto humorístico ressalta, de forma hábil, um equilíbrio entre debates além da vida cotidiana e lutas pessoais profundas. O conjunto nos mostra que temas aparentemente insignificantes podem ganhar significado e fazer com que a plateia perceba que tudo faz sentido – até mesmo as menores coisas.
Serviço:
Até este domingo (06/04), no Teatro Adolpho Bloch, Glória (Rua do Russel, 804)
Sextas e sábados às 20h; domingos, às 18h
