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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Edson Celulari (ator): “As pessoas estão cada vez mais surdas às outras”

O artista está em nova montagem de "O Beijo no Asfalto", de Nelson Rodrigues, depois de 65 anos de escrita, no Teatro Glaucio Gill

Por Daniela 19 jul 2026, 07h00
Homem de meia-idade com cabelo grisalho e barba rala, vestindo um suéter xadrez marrom e bege sobre uma camisa listrada, e um blazer cinza escuro. Ele está com as mãos na cintura, olhando para frente com uma expressão séria
Edson Celulari caracterizado de Aprígio, personagem de "O Beijo no Asfalto" (Lucio Luna/Divulgação)
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Edson Celulari (ator): “As pessoas estão cada vez mais surdas às outras” Priorizar nos meus resultados Google

Nelson Rodrigues costumava dizer que “o ser humano muda de penteado, muda de roupa, mas as suas misérias são rigorosamente as mesmas desde o Gênesis”.

“O Beijo no Asfalto” retorna aos palcos, 65 anos depois, validando exatamente essa frase. A nova montagem, com Edson Celulari, Luísa Arraes, Eduardo Sterblitch e cia, estreou nessa quinta (16/07), no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, sob direção de Marco André Nunes e produção de Rafael Raposo.

O figurino continua de época, mas o mecanismo retratado por Nelson permanece assustadoramente atual: manipulação da informação, linchamento moral, espetacularização da notícia e o poder devastador das narrativas fazem da peça um espelho do Brasil de 2026. Foram pouco mais de 30 dias de ensaio para uma temporada de apenas 20 apresentações.

A peça, de 1960, foi encomendada por Fernanda Montenegro para o histórico Teatro dos Sete e estreou no ano seguinte, tornando-se uma das obras fundamentais da dramaturgia brasileira.

Edson interpreta Aprígio, personagem central da engrenagem emocional criada por Nelson, com muitos ressentimentos, silêncios e desejos reprimidos que tornam ainda mais complexa a tragédia vivida pela família. O ator estava há 14 anos longe dos palcos e nunca tinha encenado um texto rodriguiano. “Nelson é Rio e é o nosso melhor dramaturgo. É uma tragédia carioca. Meu personagem é lindo e estou muito feliz com esse grupo incrível. Conheci o Rafael (Raposo) quando ele tinha uns 12 anos. Ele me ligou e convidou. Reli o texto e falei: ‘Tô dentro!’. O Nelson tem uma escrita mágica e, mais do que isso, criou uma linguagem própria. Continua extremamente atual.”

Embora paulistano, Edson chegou ao Rio no início da década de 1980 já vivendo um personagem da cidade, participando de “Ópera do Malandro”, dirigido por Ruy Guerra. Na TV, seu último trabalho foi em “Fuzuê” (2023), novela das sete da TV Globo, emissora da qual foi contratado por 42 anos. “Tenho certeza de que, quando aparecer um personagem interessante, volto a fazer TV. Mas também tenho feito cinema e estou desenvolvendo um projeto sobre a construção de Brasília do ponto de vista dos operários, que ainda não posso contar”.

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Enquanto isso, também produz audiovisual com o filho, o ator Enzo Celulari (do casamento com Claudia Raia, com quem também teve Sophia), e dedica boa parte do tempo à caçula Chiara, de 4 anos, com Karin Roepke. “Ela é uma explosão de alegria. Claro que a coluna reclama um pouco (risos), porque criança exige disposição. Mas ser pai nessa fase também tem vantagens. Você é mais maduro, trabalha num ritmo diferente, tem mais disponibilidade e consegue aproveitar muito mais.”

Ele é também muito ativo nas redes sociais e diz que “é minha própria emissora. Ali posso falar de poesia, brincar, conversar, fazer humor. Na pandemia, usei muito esse espaço para discutir convivência entre gerações. Recebia cartas de pessoas contando conflitos familiares. As redes também podem prestar esse serviço.”

Leia sua entrevista: Celulari, embora mais jovem que a peça, não deixa se ser um clássico das artes brasileiras, e sem precisar de manual.

UMA LOUCURA: Continuar acreditando na capacidade das pessoas de viverem harmonicamente em sociedade. A gente vive um momento em que parece impossível acreditar nisso. As pessoas estão cada vez mais surdas umas às outras. Mesmo assim, continuo otimista. Talvez isso não aconteça na nossa geração, nem na da minha filha, mas prefiro apostar no bem, na coragem, na conquista. Pode parecer ingenuidade, mas escolho continuar acreditando.

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UMA ROUBADA: Discutir no trânsito. Já fui esse personagem. Hoje não sou mais. Você nunca sabe quem está do outro lado do volante. Uma discussão banal pode terminar numa tragédia. Vale muito mais respirar fundo e seguir. Com o tempo você vai vendo que o mundo está se tornando algo diferente, a violência aumentando. Uma vez eu estava em Nápolis (Itália) num táxi e lá é uma loucura o trânsito e presenciei uma discussão, os dois se xingaram muito, depois subiram o vidro e foram embora. Tudo faz parte de uma cultura e aqui a coisa esquenta pro físico, já vai dar um tapa na orelha do outro, vai tirar uma arma, um pedaço de pau pra quebrar o vidro da lanterna. Nós somos latinos com o sangue mais quente do que os italianos.

UMA IDEIA FIXA: A cura do câncer e do preconceito. A ciência vem avançando muito. Eu mesmo fui beneficiado por um protocolo que já existia quando descobri meu linfoma não-Hodgkin (2016-2017). Já o preconceito continua sendo um câncer social e são muitos tipos. Basta olhar o espaço da mulher em muitas culturas e religiões.

UM PORRE: Conversar com pessoas que não escutam e não dizem nada. É muito cansativo. Pessoas que só falam delas mesmas, não ouvem ninguém e não acrescentam nada. Porque beber errado e tomar um porre faz parte da vida e é muito chato ver que a pessoa não controla aquilo que deveria dar prazer.

UMA FRUSTRAÇÃO: Esperar por Godot sem memória e sem convicções. A frustração nasce quando a gente perde a memória da própria história. Vale para um país, para uma família e até para o futebol. Sem memória fica difícil construir qualquer futuro. Por exemplo, pegamos um técnico tão elegante, italiano e bom pra caramba que não foi capaz de transformar o time. O que faltou foi garra e ninguém ensina isso. Você vê o time da Argentina, de uma garra tremenda. Uma frustração é você ter expectativa em cima de um negócio que não acontece.

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UM APAGÃO: Acreditar que a inteligência artificial substituirá o ser humano. Não sou contra a IA. Acho extraordinária para organizar informações. Mas ela nunca substituirá o brilho humano. O olhar de quem cria continua sendo insubstituível. Talvez estejamos vivendo um excesso de telas. Quem sabe um dia todo mundo enjoe disso? Talvez aconteça um movimento contrário e as pessoas voltem a querer olhar umas para as outras.

UMA SÍNDROME: Que o desconhecido nos impulsione mais do que nos assuste. Não penso em síndrome como doença. Penso no mistério, naquilo que ainda não conhecemos. Lembro de uma frase do Jorge Luis Borges: ‘Saio de casa todos os dias porque não sei o que vou encontrar na próxima esquina. Se soubesse, ficava em casa.’ A curiosidade precisa vencer o medo’.

UM MEDO: Termos que mudar de planeta e que a própria humanidade o destrua. Talvez esse seja o maior medo de todos. Não é que não tenhamos alimentos para matar a fome, temos é distribuição errada, os conceitos de qualidade de vida deturpados. Não adianta viver atrás de muros, cercas elétricas e carros blindados se não olhamos para quem está ao nosso lado. Precisamos rever nossos conceitos e agir de verdade.

UM DEFEITO: Duvidar se vale a pena continuar acreditando na delicadeza humana.

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UM DESPRAZER: Conviver diariamente com o desrespeito e a falta de compaixão.

UM INSUCESSO: Não aprender com os erros. A evolução acontece justamente nesse processo, de aprender com eles.

UM IMPULSO: Sair de casa todos os dias para voltar diferente. Talvez melhor. Essa ideia também dialoga com o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986). A curiosidade move a vida. É ela que faz a gente descobrir pessoas, histórias e também a nós mesmos. O impulso é continuar caminhando. Esse impulso é que deve nos levar para o túnel escuro, para o mistério da própria vida.

UMA PARANOIA: Lutar para que o artista mantenha seu lugar de relevância na evolução da espécie. A pandemia foi um momento muito particular e ajudou muita gente a atravessar aquele período. Foi um livro, uma música, um quadro, um filme, uma fotografia, uma peça de teatro… tudo isso tem capacidade de transformar pessoas. Às vezes um drama provoca reflexão. Outras vezes é o riso que ilumina uma questão importante. O artista passou por momentos difíceis, de descrédito e polarização que nem quero citar, mas acredito profundamente que a arte nunca deixará de ser essencial. Ela faz parte da evolução humana. Eu sou intérprete e alguém escreveu as palavras que vou dizer. Sempre me fascina pensar de onde nasceu aquela ideia, aquela frase, aquela emoção. O médico, o professor, o artista… quando trabalham por vocação, ajudam a transformar a vida das pessoas. Isso merece nosso aplauso eterno.

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