Dez perguntas para Antonio Neves da Rocha: “Desde quando ser rico é qualidade?”
"É quase impossível fazer grandes festas sustentáveis — é tudo conversa. Tudo vai para o lixo depois", diz o decorador de festas
Antonio Neves da Rocha é considerado o maior decorador de festas do Rio. De família tradicional carioca, entrou nesse mercado quase por acidente, depois de decorar a casa da amiga Maria Helena Chermont de Britto. Até então, trabalhava em sua fazenda, em Cordeiro. O Rio é principal território do autor dos livros As cores da festa e À mesa, com elegância, mas seu talento já o levou a outros estados e até à Europa.
Vale lembrar: grande parte de seus clientes não aparece em estatísticas — se é que você me entende. Antonio até faz eventos beneficentes, sem cobrar nada. Mas, fora isso, sabe muito bem quanto vale seu trabalho: o cachê de uma daquelas festas? Ele não revela nem sob ameaça. Evita falar publicamente sobre valores de qualquer forma.
1 — Em festas de fim de ano, todo mundo acha que pisca-pisca e dourado resolvem. Na sua opinião — que não costuma ser filtrada — qual é o erro de decoração que deveria ser crime estético?
Sou muito aberto, mas tudo em excesso é uma merda. Tem que criar algo diferente. Por exemplo, aquela pisca miudinha é linda, mas está em todo lugar — ninguém aguenta mais. Natal, por si só, já é cafona; o que vale é o sentimento, mas pode ser caprichadíssimo. Estou fazendo vários este ano, como nunca. Um deles, por exemplo, é inspirado em arte contemporânea. Está ficando incrível!
2 — Agora todo mundo descobriu que ama a natureza. Quantos dizem “quero algo sustentável”, mas no fundo é só consciência ecológica pra foto? Como lida com essa “sustentabilidade performática”?
Entro na dança dessa mentira. É quase impossível fazer grandes festas sustentáveis — é tudo conversa. Tudo vai para o lixo depois. A única que realmente considero sustentável foi em Trancoso, embaixo dos pés de cacau, com toldos de nove metros, acima das árvores. No dia seguinte, desmontamos tudo e deixamos o lugar exatamente como estava.
3 — Com o boom do setor, como é ver o mercado lotado de gente que aprendeu decoração em um Reels de 30 segundos? Diverte ou desespera?
Por motivos óbvios, não vou falar. Ou você tem talento, ou não tem — mas se existe quem pague…
4 — Você já criou festas nababescas, mas existe algo, mesmo com orçamento infinito, que não dá para comprar numa decoração?
Tudo na vida pode ser comprado. Talvez amigos bacanas, mas até isso, hoje em dia, se compra. Você não precisa jurar fidelidade, vai à festa e pronto. Cada vez mais tenho certeza de que nada está fora do mercado. É romantismo acreditar que existe o que não se vende.
5 — Como você enxerga ostentação e sofisticação?
Quem vai defender ostentação? Gastar não é qualidade. Sofisticação é obrigação. O belo e o sofisticado não têm custo. É mais fácil errar com sobra de dinheiro do que com pouco. Desde quando ser rico é qualidade?
6 — Qual tendência atual de decoração você acha que vai durar — e qual deseja que morra em 2026? Pode ser sincero, pelo bem comum.
O excesso na decoração. É como uma mulher com orçamento ilimitado que mistura todas as joias espetaculares — fica horrível. Isso é erro pelo excesso. Eu não quero que nada morra. Se todo mundo acertar, eu estou fudido. Deixa errar! (risos) E que tudo exista para criar contraste. Além disso, senso estético é relativo.
7 — Você já recusou algum pedido?
Nunca recusei. Já tive vontade, mas não coragem. Sou supersticioso — acho que não daria boa sorte. Como diz o Jorge Paulo Lemann, sou muito otimista; se existem pessimistas bem-sucedidos, eu desconheço.
8 — Em festas como casamentos, como você ajusta valores quando o cliente se preocupa com isso? Existe o famoso “jeitinho”?
Claro que existe. Caro é relativo. Não são as coisas que são caras, são as escolhas. Uma massinha tem um valor; uma massinha com trufas brancas do Piemonte, outro. Mas, como já te disse: quando alguém quer uma festa “de cair duro” com pouca grana, fica difícil. Elegância com pouco dinheiro, no entanto, acho possível.
9 — Além das lembranças e da ressaca, o que fica dessas festas incríveis?
Além das contas, fica a certeza de que momentos de felicidade são para sempre.
10 — O fim do ano aumenta muito o número de festas?
Aumenta muito — de todos os tamanhos: despedidas, confraternizações, amigos, famílias.





