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Lu Lacerda

Por Lu Lacerda Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Jornalista apaixonada pelo Rio

Antonio Bernardo (joalheiro): “Sou aquilo que o tempo construiu em mim”

Somos feitos de tudo aquilo que vivemos. Os encontros, as perdas, os amores, as escolhas, os erros e até aquilo que tentamos esquecer

Por Daniela 29 ago 2026, 07h00
Homem idoso de cabelos brancos, vestindo camisa clara, com as mãos entrelaçadas cobrindo a boca e o nariz, olhando diretamente para frente. Ele usa um anel grande no dedo anelar esquerdo e uma pulseira no pulso direito. A imagem é em preto e branco, com fundo escuro
 (./Divulgação)
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Antonio Bernardo (joalheiro): “Sou aquilo que o tempo construiu em mim” Priorizar nos meus resultados Google

Sou daqueles que guardam textos. Não por mania de reler, mas por instinto de preservar o que me toca. Não os releio o tempo todo, ficam ali, guardados, como sementes em repouso. Um deles me voltou à memória agora, um velho recorte de jornal, amarelado pelo tempo, que falava sobre o significado da pedra.

“Os Inuit, povos indígenas que habitam há milhares de anos as regiões árticas, (norte do Canadá, Alasca, Groenlândia e Sibéria ), acreditam que existe uma história dentro de cada pedra. Antes de esculpi-la, dormem com ela, como se fosse preciso conhecê-la em silêncio antes de revelar sua forma.”

Eu gosto profundamente dessa ideia. Ela me faz pensar que talvez criar não seja inventar, mas descobrir. Que aquilo que procuramos já esteja ali, escondido, esperando apenas que alguém consiga revelá-lo.

Uma pedra pode atravessar séculos, até  milhões de anos. Ela passa pelo frio, pelo calor, pela água, pelo vento, pela pressão. E tudo isso deixa marcas. Cada fissura, cada alteração na superfície e cada irregularidade é uma espécie de memória. Para mim, essas marcas não desvalorizam a pedra, ao contrário, são elas que contam sua história.

Às vezes penso que fazemos exatamente o oposto com a vida. Procuramos apagar suas marcas.

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Valorizamos aquilo que parece novo, liso, intacto, perfeito. Queremos uma pele sem sinais do tempo, uma trajetória sem erros, relações sem conflitos, uma existência sem cicatrizes, como se a ausência de marcas fosse sinônimo de beleza.

Eu não acredito nisso.

Para mim, uma pedra perfeitamente lisa pode até ser muito bonita, mas uma pedra marcada pelo tempo me diz muito. Ela carrega uma história. E justamente isso que consideramos imperfeito é o que lhe dá identidade. O tempo não passa simplesmente por ela, fica inscrito nela.

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Quando penso em mim, sinto a mesma coisa. Eu sou resultado de tudo aquilo que vivi. Dos encontros e das perdas, dos acertos e dos erros, das alegrias e das decepções. Até aquilo que tentei esquecer deixou alguma marca. Não consigo imaginar uma vida verdadeiramente pura, porque a própria existência é uma mistura, nós somos feitos de contradições e é exatamente isso que nos torna únicos.

Tenho cada vez mais dificuldade de acreditar nessa ideia de perfeição como um estado absoluto. A vida não é perfeita porque a vida não é estática. Ela acontece. Ela muda. Ela nos transforma o tempo inteiro.

Uma cicatriz, por exemplo, pode ser vista como uma imperfeição. Eu prefiro vê-la como uma prova de que alguma coisa aconteceu e foi superada. Uma ruga pode ser entendida como uma perda de juventude, mas prefiro enxergá-la como um registro do tempo vivido. Uma pedra rachada pode parecer defeituosa, no entanto, aquela rachadura pode ser justamente o lugar onde sua história se torna visível.

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É por isso que a imagem do Inuit dormindo com a pedra me parece tão poderosa e me toca tanto. Antes de transformá-la, ele procura conhecê-la.

Eu acho que existe aí uma lição que vai muito além da escultura. Talvez  também devesse aprender a fazer isso com a vida, antes de tentar corrigir, esconder ou apagar o que me incomoda, tentar entender o que aquilo tem para me dizer. Porque talvez eu não seja apenas o que escolhi construir. Sou também aquilo que o tempo construiu em mim.

Quanto mais penso nisso, mais acredito que a beleza não está na ausência de marcas. Está na história que elas contam. Antes de transformar, é preciso escutar.

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Viver é aprender a reconhecer o belo não apesar das nossas marcas, mas por causa delas. Aprender a ouvir aquilo que, em silêncio, já existe dentro de nós.

Antonio Bernardo Herrmann chegou à joalheria de forma quase acidental: depois de estudos em relojoaria na Suíça e um curso de engenharia, foi um anel de prata criado por impulso que revelou sua verdadeira vocação. Em 1981, abriu a primeira loja no Shopping da Gávea; dois anos depois, instalou o ateliê no Jardim Botânico, até hoje o coração criativo da marca. Com uma linguagem autoral que equilibra forma, movimento e poesia, Antonio Bernardo conquistou reconhecimento nacional e internacional, com prêmios como o Red Dot Design Award, o IF Product Design Award e o IDEA Brasil, além de parcerias com marcas como Lumini e Portobello e a criação do troféu do Rio Open de Tênis, afirmando a joalheria brasileira no cenário global.

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