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Julia Zardo

Por Julia Zardo, professora de empreendedorismo e gerente de ambientes de inovação
Inovação e Sociedade: uma conversa sobre desafios, oportunidades e impactos das práticas inovadoras na vida de todos nós
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Para que serve a ciência?

A CT&I precisa ser entendida como prioridade, afinal ela é a continuidade de uma educação que deu certo

Por Julia Zardo Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
5 fev 2024, 10h49

Você já se deu conta de que a sociedade em que vivemos depende fundamentalmente da ciência e tecnologia? Você sabia que no Rio de Janeiro temos diversas instituições de excelência que trabalham em várias áreas da ciência, tecnologia e inovação? Você sabia que diversos professores e cientistas do Rio de Janeiro estão entre os mais influentes do mundo? A ciência e tecnologia têm trazido bem-estar e riqueza para populações do mundo inteiro. Basta olhar para as áreas de saúde, educação, comunicação, transportes e entretenimento, para mencionar apenas alguns exemplos. No entanto, os desafios para o nosso futuro – e especialmente para o Brasil – são permanentes.

Mas por onde começar? Existem algumas rotas já entendidas como caminhos para o desenvolvimento desse setor no Brasil e uma delas, que aliás já foi pauta nesta coluna, é a maior integração entre universidade e empresa. Financiar e incentivar a união desses dois mundos é fundamental para garantirmos, de um lado, mais estrutura para realizar pesquisas, e, de outro, mais soluções aplicadas ao mercado.

Esse caminho só poderá ser trilhado com todo o seu potencial, porém, a partir do momento em que as empresas puderem superar deveres excessivamente burocráticos e estiverem mais dispostas a correr riscos. A cultura da inovação, aliás, exige essa predisposição: só inova quem está disposto a arriscar. E que boa ideia arriscar com o apoio de professores e pesquisadores, não é mesmo?

Mas apenas isso não basta. A ciência deve ser popularizada como um conhecimento útil e chegar em todos os lares brasileiros de forma mais próxima, fácil e atraente. A boa comunicação acerca do que é ciência, para que serve e aonde ela pode nos levar precisa ser colocada em prática a fim de que todos os cantos desse país a entendam como um conhecimento que nasce para resolver problemas reais e melhorar a vida em sociedade, especialmente de países subdesenvolvidos como é o nosso caso.

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Por meio de dois atributos fundamentais – a fácil linguagem e a proximidade – essa divulgação científica deve ser feita de forma institucionalizada em nível governamental, mas também disseminada (e valorizada) no dia a dia por todos nós. Tecnologia não é um bicho de sete cabeças.

Afinal, temos acesso a vacinas, tomamos remédio, assistimos televisão, utilizamos celular, usufruímos do conforto térmico gerado pelo ar-condicionado no verão, usamos shampoo, sabonete, nos deslocamos de carro, de metrô, de ônibus. De onde vem tudo isso se não da ciência, tecnologia e inovação? Trinca perfeita.

Ainda é pouco

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            O Rio de Janeiro concentra inúmeras instituições científicas e tem potencial para implementar políticas que revertam a arrastada crise do estado. Como encarar a perda de 40% de participação do PIB, taxa de desocupação de 11,6%,[1]  acima da média nacional e a presença de  seis municípios entre as cinquenta cidades mais violentas do país?[2]  Por óbvio com investimentos que gerem empregos qualificados. Saindo do abstrato e tentando pousar no solo: quem investe e no que investir?

Considerando dados para 2021, o Brasil tem baixo volume de gastos com CT&I (1,16% do PIB), enquanto países desenvolvidos investem na área entre 2,25% (França) e 3,4% (Japão). A par dos gastos insuficientes, o país apresenta um padrão de composição das fontes de financiamento igualmente preocupante. Os principais investidores em CT&I nas nações classificadas como de alta renda são empresas privadas (66% a 78%, França e Japão respectivamente)[3], enquanto no Brasil predominam fontes públicas (59% em 2020)[4].  No país, aliás, apenas 10% dos doutores trabalham em empresas, segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Imagina o quanto o setor privado poderia ganhar com o incremento desses pesquisadores no dia a dia das corporações?

Mas essa orquestra não toca sozinha. Além do esforço do setor privado, os governos, que são os maestros de uma nação, precisam, sim, de um plano para que esse tipo de investimento não seja descontinuado a cada nova troca de mandato. A CT&I precisa ser entendida como prioridade, afinal ela é a continuidade de uma educação que deu certo. 

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A boa notícia é que uma ponte para juntar as visões desse diálogo (e partir para a ação) está prestes a acontecer. O Rio de Janeiro vai discutir as prioridades e o seu plano para a Ciência, Tecnologia e Inovação em uma conferência estadual nos dias 26 e 27 de fevereiro. O evento será realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e contará com representantes de instituições de ensino e pesquisa públicas e privadas, sociedade civil, setor empresarial, comunidade acadêmica, organizações não governamentais, associações e entidades de classe, assim como do governo. Desse encontro sairão diretrizes para a formulação de um plano de CT&I no Estado do Rio de Janeiro, e potencialidades e desafios do Estado para serem discutidos na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI) que será realizada em junho de 2024, em Brasília.

 Temos um duplo desafio. Precisamos de instituições públicas bem desenhadas, que induzam os governos a se comprometerem acima de tudo com intervenções econômicas socialmente desejáveis e empresas que adentrem o gramado com disposição. Criar as pontes entre público e privado a fim de desenvolver pesquisas que gerem bem-estar e cidadania é ação fundamental para avançar. Vamos nessa?

 

Neste artigo, colaboraram pesquisadores que integram uma iniciativa voluntária pública/privada para a organização da Conferência Estadual de CT&I no Rio de Janeiro – Lígia Bahia, UFRJ; Angela Uller, Coppe/UFRJ e Márcio Portes de Albuquerque, CBPF/MCTI. 

 

[1] IBGE.  Pnad, terceiro trimestre de 2023. Taxa de desemprego Rio de Janeiro 10,9% e para o Brasil 7,7%.

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[2]  Anuário Brasileiro de Segurança Pública / Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2023.

[3] OECDStasts. Gross domestic expenditure on R&D by sector of performance and field of R&D (FORD), 2024

[4] Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação 2022.

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