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Julia Zardo Por Julia Zardo, professora de empreendedorismo e gerente de ambientes de inovação Inovação e Sociedade: uma conversa sobre desafios, oportunidades e impactos das práticas inovadoras na vida de todos nós

Universidade-empresa: Brasil pode ganhar com essa parceria. Saiba por quê

De um lado, a universidade consegue direcionar para o mercado seu conhecimento. De outro, a empresa pode melhorar seus processos e produtos

Por Julia Zardo Atualizado em 6 Maio 2022, 12h32 - Publicado em 2 Maio 2022, 13h30

Testemunhamos em nossa rotina a inovação todos os dias. Os caminhos possíveis de desenvolvimento que um produto ou serviço passa entre ser um projeto e entrar no mercado são muitos. E para que seja inovador, a relação universidade-empresa desempenha um papel importante. As universidades concentram conhecimento científico de ponta e, do outro lado, a empresa possui conhecimento prático e de mercado. A união destes universos é poderosa e pode se dar em diferentes momentos e formatos.

É importante entender que mesmo de fora deste circuito, todos somos afetados por esta interação. A entrada de novos serviços e produtos no mercado impacta diretamente a sociedade. Como teria sido o cotidiano de uma pessoa de classe média durante a pandemia sem streaming, aplicativos de entrega de comida e remédio? Seria viável? Sim, porém muito menos conveniente. Assim como fazer uma viagem de carro. Antigamente precisávamos levar mapas de papel que ficavam desatualizados e rasgavam (algo que a geração millenium não faz ideia). Hoje temos acesso às melhores rotas, localização de postos de gasolina, restaurantes e hospedagens, tudo enquanto estamos dentro do carro, com filtro por preço, opinião de usuários e o melhor: sempre atualizado.

A criação dessas inovações ocorre através de pesquisa e desenvolvimento (P&D), com equipes e laboratórios dedicados a estudar algo específico. Ela pode ocorrer dentro da universidade ou instituição de pesquisa, dentro de uma empresa, ou combinando interesse e competência em comum entre as partes. Nesse contexto, a cooperação universidade-empresa para P&D é um dos indicadores que compõe o Global Innovation Index (GII). Na edição de 2021, o Brasil melhorou no ranking geral, ficando na 57ª posição dentre 134 nações. Mesmo assim, está fora dos três primeiros lugares da América Latina e Caribe, que é liderado pelo Chile (53ª), seguido por México (55ª) e Costa Rica (56ª).

Na prática, o retorno dessa parceria

Para lembrar de que somos, sim, capazes de produzir muito conhecimento com aplicabilidade que gera retorno à sociedade, compilamos alguns casos de cooperação entre universidades e empresas.

A UNICAMP bateu recorde de convênios de P&D com o setor empresarial em 2021. Foram 86 assinaturas, representando R$ 72 milhões de recursos voltados à pesquisa (65% a mais do registrado em 2020). O valor, contudo, é inferior ao alcançado em 2018 e 2019, quando a universidade havia fechado mais de R$ 130 milhões, com menos empresas. Isso reflete a importância da cooperação universidade X empresa no país. Vivemos dois anos de pandemia nos quais a cadeia global de suprimentos se reestruturou. No Brasil, realizamos parcerias inusitadas e reconversões industriais para adaptar a planta industrial às necessidades da sociedade.

O momento atual pode ser propício para o fortalecimento da indústria nacional, com demonstração do benefício disto para o país. Larry Fink, CEO da gestora de ativos BlackRock, defendeu que a guerra na Ucrânia pode reforçar o estímulo dado pela COVID-19 de revisão por parte de empresas de terem operações ‘onshore’ (no próprio território) e ‘nearshore’ (países próximos). Para ele, países como Brasil, México, EUA e centros industriais no Sudeste Asiático podem se beneficiar deste novo posicionamento estratégico.

Entre as empresas que fecharam convênios de parceria com a UNICAMP está a Griaule, com tecnologia totalmente brasileira e que atua em mais de 70 países. Focada em biometria, a empresa já atuou junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela possui relação com a universidade há mais de 20 anos, tendo sido uma empresa incubada, e mantém este vínculo para manter sua tecnologia atualizada.

Criação de inovações inovações ocorre através de pesquisa e desenvolvimento (P&D), com equipes e laboratórios dedicados a estudar algo específico
Criação de inovações inovações ocorre através de pesquisa e desenvolvimento (P&D), com equipes e laboratórios dedicados a estudar algo específico Getty Images/Divulgação
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No Rio de Janeiro há Lemobs, uma GovTech nasceu no Parque Tecnológico da UFRJ. A empresa tem como missão tornar as cidades inteligentes através da tecnologia e foi uma das 5 startups a representarem o Brasil na COP26, ocorrida em 2021, no CivTech Alliance COP26 Global Scale-up Program. Dentre as soluções criadas, está o gerenciamento de alimentação nas escolas.

Outro exemplo é a ALTAVE, nascida em São José dos Campos, dentro do ambiente acadêmico. Credenciada como Empresa Estratégica de Defesa (EED), com tecnologia patenteada no Brasil e no exterior, a empresa obteve a marcação CE, indicando a aprovação da qualidade de seu produto para ser comercializado em toda União Europeia.

Um dos seus principais produtos são balões cativos para monitoramento inteligente de grandes áreas, que foram utilizados no Rio de Janeiro durante as Olimpíadas. A empresa possui parcerias com algumas das maiores instituições brasileiras, como o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e oferece oportunidades em forma de estágios e bolsas de pesquisa aos alunos.

No Rio, o Instituto SENAI de Inovação Química Verde firmou parceria com a empresa Scienco Biotech e, junto com a Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), ajudou a desenvolver um novo reagente que ajuda no diagnóstico de doenças como a Covid-19. Com esse novo item no portfólio, a empresa passa a atender o mercado nacional e substituir os reagentes importados, menor custo e melhores prazos de fornecimento em relação aos produtores internacionais.

Seria ótimo que fosse sempre assim; mas nem todas as trocas ocorrem tão fluidamente como nestes casos. O Diálogos da Inovação, uma iniciativa promovida pela Casa Firjan em parceria com a Faperj para discutir as mais importantes temáticas de inovação, mostrou em dezenas de encontros com especialistas e acadêmicos, como o tempo do mercado e da universidade podem ser diferentes com vocabulários distintos e percepções próprias de urgências.

Debateu, também, alguns estudos que assinalam que mesmo diante da dificuldade de coordenação entre as equipes e liberação de recursos, a cooperação universidade-empresa gera, sim, muitos frutos. De um lado, a universidade consegue direcionar para o mercado seu conhecimento. De outro, a empresa pode melhorar seus processos e produtos. Enquanto ainda não garantirmos cultura e ferramentas consolidadas que estimulem esta cooperação, ainda teremos alguns entraves a serem superados.

Pelos exemplos apresentados, entretanto, observamos que esse tipo de parceria pode não só trazer uma nova perspectiva de formação qualificada a milhares de profissionais, como promover novos (e criativos) olhares para empresas, além, é claro, de potencial para gerar um retorno direto e imediato para a sociedade.

Este artigo foi assinado com Carolina Jaguaribe, especialista em ambientes de inovação

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