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Fernanda Torres

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Blog da atriz Fernanda Torres

Tamagoshi

Eu estava no meio de um texto quando o computador congelou. Tentei rodar a setinha com o mouse, mas ela não deu sinal de vida, desliguei o aparelho, religuei, uma pasta começou a piscar na tela com um ponto de interrogação. O ícone me causou um sentimento de desterro intraduzível, uma impotência aterradora; voltei a […]

Por Daniela Pessoa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 nov 2013, 22h20 • Atualizado em 25 fev 2017, 18h51
  • Eu estava no meio de um texto quando o computador congelou. Tentei rodar a setinha com o mouse, mas ela não deu sinal de vida, desliguei o aparelho, religuei, uma pasta começou a piscar na tela com um ponto de interrogação. O ícone me causou um sentimento de desterro intraduzível, uma impotência aterradora; voltei a ligar e desligar o laptop, mas a imagem continuou a exigir resposta para uma pergunta que nem sequer conseguia formular.

    Ando muito cansada, na reta final das gravações de Tapas e Beijos, trabalhando no lançamento do livro, indo e vindo de São Paulo. A remada forte talvez explique o choro.

    Meu computador havia me abandonado.

    Liguei para meu cônjuge. Bom homem que é, e conhecedor dos melindres da tecnologia, mandou que eu executasse alguns procedimentos para reavivar o doente, mas a esfinge continuava a pulsar a interrogação. Decifra-me ou devoro-te. Nada. Só um doutor especializado conheceria a cura.

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    E ele veio, em pleno sábado. Depois de vê-lo acionar uma dezena de comandos, depois de presenciar as sucessivas tentativas de resgate da saudosa memória RAM, ouvi o que jamais esperava escutar:

    — O seu computador fundiu, igual a um carro.

    A carcaça está boa, mas não tem mais nada aí dentro.

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    Foi como ouvir da morte de um parente.

    Eu estava de partida para São Paulo, tinha de escrever esta crônica, preparar o texto da leitura da noite de autógrafos do Fim, eu não existiria conectada apenas com o celular.

    Fui traída, pensei. Me deu vontade de nunca mais abri-lo, de devolver com a mesma moeda a desfeita.

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    Retomo de onde parei, logo antes da inesperada tragédia, quando eu me ocupava, mais uma vez, de Jorge Dória.

    Depois de ler meu artigo em memória do genial ator, Kiko Mascarenhas, outra fera da ribalta, me contou que trabalhou com ele no início da carreira. A história é tão boa que lamentei não tê-la incluído aqui no artigo anterior, por isso volto ao assunto agora.

    Kiko teve o privilégio de ser o filho de Dória. Em dada cena, o pai mostrava à cria o álbum de fotografias da família e tecia comentários sobre cada imagem.

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    — Esta é mamãe no alpendre com tio José e as meninas — dizia ele, apontando para uma fotografia —, e esta é vovó, a cavalo, na casa de tia Juquinha…

    O detalhe extraordinário é que o próprio Dória havia recortado imagens pesadíssimas de orgias e bacanais, de troca-trocas e felações, de sodomias e taras que fariam corar o mais liberal dos homens, e grudado no álbum de família. Kiko era o único que via as safadezas que Dória mostrava, dizendo ser mamãe, titia e vovó e vovô na fazenda, na praia, no alpendre…

    Kiko desenvolveu uma técnica extraordinária para não rir em cena, olhava impávido para as imagens e continuava com a cara de paisagem, fingindo emoção com as lembranças de família.

    Quanto menos Kiko ria, mais Dória baixava o nível da colagem. Um dia, decepcionado com o autocontrole do colega, disse a Kiko que ele não podia ser humano.

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