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Fabiano Serfaty

Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc e PhD. Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Saúde, Prevenção, Tratamento, Qualidade de vida, Bem-estar, Tecnologia, Inovação médica e inteligência artificial com base em evidências científicas.

FDA libera primeiro sensor que mede simultaneamente glicose e cetonas

Novo sensor autorizado nos Estados Unidos pode permitir a identificação mais precoce de alterações metabólicas que precedem a cetoacidose diabética.

Por Fabiano Serfaty Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 ago 2026, 22h02 | Atualizado em 26 ago 2026, 10h17
Elementos médicos sobre uma mesa e o símbolo do diabetes.
Ao longo dos anos, o diabetes se tornou um sério problema de saúde pública em todo o mundo e as previsões de incidência vêm sendo superadas a cada nova triagem.  (Shutterstock/Reprodução)
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O monitoramento contínuo da glicose mudou profundamente o tratamento do diabetes. Em vez de algumas medidas isoladas ao longo do dia, passamos a acompanhar a dinâmica da glicemia, identificando padrões, tendências e alterações que muitas vezes passariam despercebidas em uma medida convencional. Agora, a medicina pode estar dando um passo adiante: acompanhar continuamente outro componente importante do metabolismo, os corpos cetônicos.

O Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, autorizou hoje o Libre Duo 10 Day, um sistema vestível de monitoramento contínuo de glicose e cetonas destinado a pessoas com diabetes a partir dos 2 anos de idade. É o primeiro dispositivo autorizado nos Estados Unidos capaz de monitorar simultaneamente e de forma contínua glicose e cetonas em um único sensor. A tecnologia mede esses parâmetros no líquido intersticial, localizado logo abaixo da pele, aproximadamente a cada minuto, durante o dia e a noite. Os dados podem ser acompanhados em um smartphone compatível, permitindo observar não apenas os valores, mas também sua evolução ao longo do tempo. Mais importante do que a novidade tecnológica, porém, é a pergunta clínica que ela procura responder: será possível identificar mais cedo um paciente que está caminhando para uma cetoacidose diabética?

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A cetoacidose diabética continua sendo uma das principais emergências metabólicas relacionadas ao diabetes. É mais frequente no diabetes tipo 1, mas também pode ocorrer no diabetes tipo 2, especialmente durante infecções, doenças agudas, desidratação, jejum prolongado ou interrupção inadequada da insulinoterapia.A fisiopatologia é relativamente conhecida. A deficiência de insulina aumenta a lipólise e a produção hepática de corpos cetônicos, principalmente beta hidroxibutirato e acetoacetato. Quando essa produção supera a capacidade de utilização e eliminação pelo organismo, ocorre acúmulo de ácidos e desenvolvimento de acidose metabólica.O quadro pode evoluir com poliúria, polidipsia, náuseas, vômitos, dor abdominal, desidratação e alteração do nível de consciência. Nos casos mais graves, pode levar ao coma e à morte.

É justamente aí que o monitoramento contínuo das cetonas pode ter relevância. Até agora, quem precisava acompanhar cetonas fazia isso de maneira pontual, por meio de testes sanguíneos ou urinários. Esses exames informam a concentração naquele momento, mas não mostram com facilidade se os níveis estão subindo, caindo ou permanecendo estáveis.O Libre Duo 10 Day procura preencher essa lacuna. Além de acompanhar continuamente glicose e cetonas, o dispositivo pode emitir alertas quando os níveis de cetonas atingem uma faixa considerada preocupante. A ideia é permitir que pacientes e cuidadores reconheçam uma alteração metabólica potencialmente perigosa antes que ela evolua para uma emergência.

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Isso não significa, evidentemente, que um alerta substitua a avaliação médica. Os níveis de cetonas precisam ser interpretados em conjunto com a glicemia, os sintomas, a ingestão alimentar, o uso de medicamentos e o contexto clínico. Um ponto particularmente importante é que a cetoacidose diabética não depende necessariamente de uma hiperglicemia acentuada. Existe a chamada cetoacidose euglicêmica, na qual a glicemia pode estar abaixo de 200 mg/dL. Essa apresentação ganhou importância com o uso dos inibidores de SGLT2, medicamentos amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e reconhecidos também por seus benefícios cardiovasculares e renais. Jejum prolongado, redução importante da ingestão de carboidratos, consumo excessivo de álcool, doenças agudas e deficiência de insulina também podem contribuir para o desenvolvimento desse quadro.Nesse contexto, a avaliação das cetonas ganha importância diagnóstica. Na prática clínica, o beta hidroxibutirato sanguíneo é o principal corpo cetônico utilizado na avaliação da cetose relacionada à cetoacidose. Valores a partir de 3,0 mmol/L apresentam forte associação com cetoacidose quando analisados dentro do contexto clínico adequado.

A autorização da FDA foi baseada na análise dos dados clínicos e de desempenho apresentados à agência. O programa clínico reuniu seis estudos, envolvendo mais de 600 participantes com 2 anos de idade ou mais, para avaliar a precisão do monitoramento de glicose e cetonas em diferentes concentrações. Segundo os dados analisados pela agência, o sistema foi capaz de acompanhar diferenças clinicamente relevantes nos níveis de cetonas durante os 10 dias de uso, incluindo elevações observadas antes do desenvolvimento de cetoacidose diabética.É importante, entretanto, separar precisão tecnológica de benefício clínico. A autorização do dispositivo demonstra que os dados apresentados foram considerados suficientes para sua utilização dentro da indicação aprovada. Isso não significa que já esteja demonstrado que o monitoramento contínuo de cetonas reduz hospitalizações, complicações ou mortalidade. Esses são desfechos que ainda precisam ser estudados.A relevância dessa tecnologia, portanto, não está apenas em criar mais um número para o paciente acompanhar.Está na possibilidade de tornar visível uma dimensão do metabolismo que, até recentemente, permanecia praticamente invisível fora do ambiente hospitalar.

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A glicose conta uma parte da história. As cetonas contam outra.E talvez o aspecto mais interessante seja justamente a combinação dessas informações. Uma determinada glicemia pode ter interpretações completamente diferentes dependendo da presença, da concentração e da tendência dos corpos cetônicos. Estamos diante de um movimento maior da medicina: deixar progressivamente para trás a lógica das medidas isoladas e incorporar informações contínuas sobre a fisiologia. Ainda não sabemos se o monitoramento contínuo de cetonas será capaz de modificar desfechos clínicos relevantes. Mas a pergunta científica é boa e merece ser estudada. Porque, em medicina, identificar uma alteração antes que ela se transforme em uma complicação pode ser muito mais importante do que simplesmente medir com mais precisão aquilo que já aconteceu.

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