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Daniel Sampaio

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Baianas além do Acarajé: Casa da Tia Ciata celebra ancestralidade feminina

Do acarajé ao maracatu: na Pequena África especialistas comentam a presença das baianas na história do Rio de Janeiro

Por Daniel Sampaio Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 nov 2025, 17h53
Baiana do Acarajé
Baiana do Acarajé (Casa da Tia Ciata/Divulgação)
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Rio de Janeiro – No dia 25 de novembro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Baiana de Acarajé ( Lei nº 12.206, de 2010), uma das figuras mais emblemáticas da tradição afro-brasileira. Mas, apesar do imaginário popular associá-las principalmente ao tabuleiro de acarajé, as baianas são muito mais diversas e plurais. Há baianas de acarajé, de terreiro, de maracatu, de samba e cada uma com funções, simbologias e histórias próprias. Todas, porém, compartilham o mesmo alicerce. São guardiãs de saberes ancestrais e responsáveis por manter viva a memória cultural e religiosa da diáspora africana no Brasil.

A origem dessas figuras está profundamente ligada às mulheres negras que, desde o século XIX, circulavam pelas ruas das cidades brasileiras vendendo comidas, conduzindo rituais, preservando tradições e organizando redes de cuidado e resistência em meio à violência da escravidão e do pós-abolição. Na região que hoje conhecemos como Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro, essas mulheres desempenharam papel central na formação cultural da cidade. O samba, as religiões de matriz africana, os rituais festivos, os mercados de rua e parte significativa da vida comunitária carioca foram articulados por elas.

É justamente nesse território que fica a Casa da Tia Ciata, referência nacional e símbolo maior da força dessas mulheres. No dia 25, a instituição convida para uma missa na Igreja de Santa Rita (Largo de Santa Rita, Centro), às 10h, em homenagem às baianas e à ancestralidade feminina negra. A matriarca Hilária Batista de Almeida (a lendária Tia Ciata) foi baiana de acarajé, sacerdotisa e articuladora cultural. Seu quintal foi berço do samba carioca, mas também um centro de acolhimento e poder.

“Tia Ciata deixa esse legado que nós compreendemos em forma de aprendizado e educação para o nosso futuro. É o Sankofa. Olhando para o passado, vendo o nosso presente para construir o nosso futuro. Um futuro que reverbera com a potência e a valorização da nossa cultura transmitida por ela”, afirma Gracy Mary Moreira, gestora da Organização dos Remanescentes da Tia Ciata (ORTC) e espaço cultural. Bisneta da matriarca

Baiana de Acarajé há 46 anos, Cecília de Jesus Nascimento (68), ou melhor, a Ciça do Acarajé, criou os 7 filhos com a profissão. E há 25 anos tem ponto fixo (acaraje_dacica) na Praça XV, sendo a mais antiga baiana de acarajé da Pequena África. “Eu consegui aquele ponto e hoje não me vejo mais em outro local. Há 25 anos eu fico na esquina da Praça XV, das 16h às 22h”, explica.

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A presença das baianas na história do Rio, porém, vai muito além do acarajé. De acordo com pesquisadoras do território da Pequena África, as baianas de terreiro carregam a liturgia e a força espiritual das casas tradicionais; as baianas de samba marcam presença nas escolas, mantendo a memória das tias e matriarcas; e, ainda menos conhecida, existe a tradição das baianas ligadas ao maracatu, que integram grupos, nações e cortejos de matriz africana que seguem vivos em diversas regiões do país, inclusive no Sudeste.

“Se tratando de cultura e tradição na Pequena África, precisamos pontuar que “baianas”  foram  as matriarcas afro-brasileiras. Além de lideranças religiosas, como Tia Ciata,  elas atuaram, especialmente entre 1850 e 1920, na região portuária do Rio de Janeiro como as grandes difusoras de uma ” África” marginalizada e silenciada pelas histórias tradicionais.  Além de construir redes de resistência e sobrevivências e laços de solidariedade, a “baianas” são a materialização das resistências cotidianas de quem trás em seu corpo as marcas da cultura e do sagrado”, explica Mariana Gino, historiadora, coordenadora de pesquisa do Viva Pequena África e diretora adjunta do CEAP.

No estado do Rio, o Gomeia Galpão Criativo, em Duque de Caxias, também guarda essa memória de forma ativa. A instituição que homenageia no nome o legado do babalorixá Joãozinho da Gomeia, é referência em cultura afro-brasileira e abriga grupos que dialogam com a tradição das baianas de maracatu, que são símbolos de realeza, espiritualidade e musicalidade. Essas baianas carregam estandartes, equilibram flores, conduzem cortejos e expressam, no corpo, a força de nações religiosas e culturais.

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“Para nós do Gomeia Galpão Criativo enquanto ponto de cultura, ter o maracatu dentro do Galpão é mais do que uma atividade artística. É uma atividade artística, cultural e educacional que reforça as tradições populares. É também um gesto de memória e continuidade, porque Caixas é uma cidade nordestina e negra e o maracatu reúne as duas coisas”, destaca Clara de Deus, diretora do Gomeia Galpão Criativo.

O lugar da baiana é de comando e guarda da ancestralidade. É o que nos mostra Ary Poscalli, Produtor e Musa da Nação de Maracatu Estrela Brilhante do Recife

“O maracatu foi fundado há mais de 200 anos e a tradição se mantém até hoje. Um dos personagens inseridos é a baiana rica de maracatu que se diferencia das baianas de escola de samba. É um  personagem de exuberância que atravessa décadas e usa penas, plumas, paetês,  pedrarias, e incorpora o travessismo, que significa incorporar o personagem feminino de dentro do maracatu e afirma o legado da beleza, do glamour LGBT.”

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Ao revelar a pluralidade das “baianas”, o 25 de novembro se transforma em convite à descoberta. Para além do tabuleiro, está um conjunto de personagens que moldou e seguem moldando a identidade cultural brasileira. 

Serviço

Casa da Tia Ciata convida para Missa em homenagem ao dia das Baianas

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Data e horário : 25 de novembro às 10:00h

Onde: Igreja de Santa Rita , Largo de Santa Rita, Centro

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