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Daniel Sampaio

Por Daniel Sampaio: advogado, ativista do patrimônio, embaixador do turismo carioca e fundador do Instagram @RioAntigo
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Abram alas para Chiquinha Gonzaga

Um passeio histórico do Instituto Rio Antigo contará a história da nossa primeira maestrina, usando o cenário real de sua vida: o Centro da cidade

Por Daniel Sampaio Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 3 fev 2022, 14h37 - Publicado em 24 jan 2022, 23h04

Não é nenhuma efeméride específica, nem de nascimento, nem de falecimento, mas vamos celebrar, neste texto, as conquistas de Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935), às vésperas de um incrível passeio a pé que nos levará pelo Rio de Janeiro de Chiquinha Gonzaga em março deste ano (mais informações ao final).

Filha de um militar de alto escalão no Império com uma mulher negra alforriada, cuja mãe havia sido escravizada, Chiquinha Gonzaga foi uma das figuras mais importantes da nossa música, uma talentosa compositora, instrumentista e maestrina. Uma mulher livre e corajosa, que, em pleno século XIX, ousou ser mãe solteira e sustentar-se com seu próprio trabalho, algo impensável então. Mesmo com tantas dificuldades, Chiquinha não conseguia assistir impassível às injustiças de nossa sociedade. Por isso, dedicou-se, com valentia, às causas mais urgentes e necessárias de seu tempo.

Chiquinha foi de fato uma grande pioneira. Afinal, tocar piano, compor músicas e até publicá-las era comum às senhoras da época — desde que essas atividades ficassem restritas a suas vidas privadas. Porém, Chiquinha ousou profissionalizar-se. Tendo abandonado o primeiro marido aos 22 anos, seguiu seu caminho sozinha. Não lhe foi autorizado levar nenhum de seus filhos consigo. Vivia “em pecado”, como diziam à época. Mas Chiquinha não sucumbiu aos hipócritas. Passou a dar aulas de piano e a frequentar rodas de choro a fim de garantir seu sustento. Um verdadeiro escândalo nos idos de 1870.

Teve grande sucesso como compositora, estreando nos salões com a polca “Atraente”, que, apesar de alcançar enorme popularidade, afetou ainda mais sua reputação perante a sociedade tradicional, que considerava o título indecente. Chiquinha ia sozinha tocar essa e outras músicas de seu ousado repertório em estabelecimentos nem sempre considerados apropriados para senhoras ditas respeitáveis. E suas composições eram sempre polcas, tangos, maxixes — ritmos nada decorosos para a época.

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Em constante busca pelo aperfeiçoamento de suas técnicas musicais, conquistou espaço no teatro musicado no Brasil, com a composição da opereta “Corte na Roça”, a primeira de muitas peças de teatro que musicou. Em sua estreia, em 1885, Chiquinha causou alvoroço ao reger a orquestra. Nos jornais matutinos, a imprensa se atrapalhava para descrever a cena: não havia uma palavra feminina para “maestro”. Ela havia se tornado a primeira maestrina do Brasil, uma profissão inédita para uma mulher até então.

Capas de publicações reunindo partituras de Chiquinha Gonzaga
Capas de publicações reunindo partituras de Chiquinha Gonzaga – (Acervo/Instituto Moreira Salles)

A ousadia da maestrina não se limitava à música e à vida pessoal. Chiquinha era uma arrojada militante política, comprometida com as grandes causas políticas e sociais daquela época. Era, sobretudo, uma ardorosa abolicionista. Em uma exitosa campanha em parceria com a Confederação Libertadora, conseguiu comprar a alforria de José Flauta, um músico escravizado, batendo de porta em porta para vender partituras de suas composições.

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Ao final do século XIX, Chiquinha inovou, criando um gênero musical completamente inédito e extremamente carioca: a marchinha carnavalesca. Em 1899, com “Ô Abre Alas”, Chiquinha chega ao ápice de sua popularidade.

Em 26 de outubro de 1914, mais um escândalo. A primeira-dama Nair de Tefé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca, realizava muitos saraus musicais no Palácio do Catete. Chiquinha, que era sua amiga desde 1900, era frequentemente convidada, mesmo que muitos torcessem o nariz. Em uma dessas ocasiões, Chiquinha tocou ao piano uma música inédita, o maxixe “Corta Jaca”. A elite política e cafeeira presente ao evento ficou escandalizada. A situação se agravou quando a primeira-dama em pessoa resolveu juntar-se à maestrina, acompanhando-a com um violão, um instrumento considerado socialmente inferior.

A imprensa noticiou o caso no dia seguinte com estardalhaço e revolta. Chiquinha teria profanado o nobilíssimo “Palácio das Águias” e seu quase sagrado protocolo aristocrático. Com a permissividade do Presidente e de sua esposa, o Palácio Presidencial teria se tornado um antro de músicas com origem em danças vulgares e popularescas.

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No dia seguinte, Ruy Barbosa (que havia perdido as eleições presidenciais para Hermes da Fonseca em 1910) proferiu discurso azedo e inflamado na tribuna do Palácio Monroe:

“A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!” 

De nada adiantou o “piti” elitista do insuportável e preconceituoso  “Águia de Haia”. Nos dias que se passaram, o “Corta Jaca” virou “febre nacional”, alcançando consagração popular. O “tiro” de Ruy acabou saindo pela culatra.

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Chiquinha Gonzaga ao piano, em 1932, aos 85 anos - Chiquinha Gonzaga ao piano, em 1932, aos 85 anos -
Chiquinha Gonzaga ao piano, em 1932, aos 85 anos – (Anônimo/Instituto Moreira Salles)

Alguns anos depois, em 1917, determinada a combater a exploração abusiva do trabalho de compositores como ela, engajou-se na luta pelos direitos autorais, fundando a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a primeira de seu tipo no Brasil.

Chiquinha faleceu em 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos de idade. Viveu intensa e corajosamente; enfrentou os preconceitos e a hipocrisia da Belle Époque sem esmorecer; dedicou-se a consolidar uma música verdadeiramente brasileira e, principalmente, foi um ser humano desses que descem à Terra para mudar os paradigmas e para nos ajudar em nossa evolução. Essa sim, um grande herói nacional, que merecia enormes estátuas nas mais importantes praças públicas. 

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Que sua história de vida nos encha de orgulho. Somos cariocas e brasileiros assim como ela.

*Daniel Sampaio é advogado, memorialista e ativista do patrimônio cultural. Fundou o Instagram @RioAntigo e é presidente do Instituto Rio Antigo.

**Texto feito em parceria com Adriana Jackson, guia de turismo, dona da empresa Tour Delas e parceira do projeto RIO ANTIGO A PÉ.

O Instituto Rio Antigo convida vocês a participarem de uma experiência inesquecível pelo Centro do Rio: conhecer a história de Chiquinha Gonzaga com ainda mais profundidade, com a ajuda de uma especialista, a guia de turismo Adriana Jackson.

RIO ANTIGO A PÉ apresenta “Abram Alas para Chiquinha Gonzaga” – data e horário a serem confirmados (previsão para março).

Pontos de interesse: Passeio Público, Theatro Municipal, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, Praça Tiradentes, Edifício Gaetano Segreto entre outros.

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