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Cristiana Beltrão

Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

A verdade é que os índios do Rio nunca foram bons influencers

conservas de peixe no Rio de Janeiro

Por Cristiana Beltrão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 jul 2026, 09h58 | Atualizado em 7 jul 2026, 12h53
robalos, dispostos lado a lado em uma panela preta de ferro, com uma pimenta vermelha brilhante no centro, sobre um fundo escuro
peixes em panela de ferro (Rogério Resende/Arquivo pessoal)
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A verdade é que índios nunca foram bons influencers.

Vibro com o sucesso das conservas de peixe espalhadas pelo Rio de Janeiro, mas me entristece notar que as únicas técnicas de conservação citadas, tanto por parte dos jornalistas quanto dos próprios chefs, têm inspiração japonesa ou nórdica. Quem sabe, depois da derrota do Brasil na Copa, citem só as japonesas…

Grande parte dos jovens chefs sonha em ir para Tóquio para entender de abate, sangria, limpeza, maturação e preservação de peixes.  Juro que dá para ser mais barato.

Sou filha de uma antropóloga que escreveu mais de 30 trabalhos sobre nosso homem pré-histórico e teve um de seus livros prefaciado pelo grande Claude Lévi-Strauss. Muito graças a ela, passei a vida analisando a literatura que apagou o que é nosso. Além dos dela, colecionei os meus.

As palavras foram muito bem escolhidas, desde a expressão Novo Mundo. E o que é novo? É o imaturo, que precisa aprender, está sendo formado. Ou seja, parece que o homem que ocupa as Américas há pelo menos 20 mil anos não aprendeu nada, não contribuiu com coisa alguma e sobreviveu por sorte.

Me lembro nos tempos de escola em que NOS ENSINAVAM (vejam bem… não foi algo que ouvi dizer… eu estava lá) que índios só não foram escravizados porque eram muito preguiçosos. Vejam só.

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Hans Staden, um dos primeiros cronistas de alimentação do Brasil “mui sem querer”, aprendeu rapidinho que não era bem assim. O soldado alemão capturado pelos tupinambás – uma tribo antropofágica – quase virou almoço, coitado.

O ano era 1554. Foi naquele primeiro registro escrito que aprendemos que curar carnes e peixes sobre varas verdes apoiadas sobre troncos de madeira, acima do fogo lento, tinha o nome de MOQUÉM.

Nosso nativo não fazia livrinho de receitas, mas a prática passada por tradição oral já era milenar. E até hoje, o moquém é um dos nossos métodos de conservação mais autorais.

Foi nosso clima úmido que nos obrigou à secagem.

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Se amamos farofa – a raiz seca da mandioca – e carne seca em paçoca, agradeçamos aos trópicos e às técnicas indígenas de conservação. Afinal, todo alimento que sobrava da caça ou pesca aqui no Rio, era assado e defumado no moquém. Alguns se comia inteiros e outros eram desfiados e torrados novamente, triturado em pilões de madeira, reduzidos a pó e guardados em potes bem secos e vedados com folhas. Muitos eram socados com farinha de mandioca ou milho. Podiam durar um ano, sem estragar.

Sonho com um imaginário “menu-degustation à la tamoio” no Rio de 1618, feito de moquém de pacas, capivaras, veados, tamanduás, antas, macacos e porcos-do-mato, além de polvos, lagostins, dourados, meros, moreias, pescadas, tainhas, cações, albacoras, bonitos, lavradores, peixe-espada, peixe-agulha, xaréus, salmonetes, sardinhas e jacarés. Tudo acompanhado por farofa de milho ou mandioca. Nem a ostra escapava!

No século XVII, nosso paladar seguia mais seco que o europeu, obviamente, já que eles precisavam da gordura para lidar com o frio.

Por aqui, que frio?

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E a trend “nativa” obviamente não parou, nem nos 1800…

Luís Edmundo, em seu livro “O Rio de Janeiro dos Vice-Reis (1763 a 1808)” conta que a grande massa que não pertencia à nobreza, mantinha-se fiel “à alimentação do avô-índio”. Não ligávamos para a carne de boi, carneiro, porco ou cabra. Era peixe e cachaça a forração do carioca médio, mesmo com a abundância das outras carnes, que aliás eram baratíssimas.

E o moquém segue sendo citado por Debret, no século XIX, ou ainda no livro Sertão Carioca, de 1936, que falava do “pombeiro de peixe” comerciante que ia a cavalo da Barra até o Irajá “pombeando” traíras, acarás e bagres secos à freguesia. “Tudo por ali é um vasto mundo ainda virgem, com um homem ainda meio primitivo, vivendo da caça, da pesca, do fruto silvestre, em rancho á beira do brejo ou na matta, solitário com os seus cães, a sua quasi piroga (canoa), o seu páo de fogo irmão do bacamarte, a sua rêde, a sua tarrafa, o seu isqueiro, o seu facão, a sua panella de barro, o seu moquém”.

O mais curioso é saber que o hábito indígena de amassar a farinha de mandioca seca com as mãos e atirar um montinho apertado na boca, ainda está “vivo e passa bem” na Laguna de Araruama. Quando estive com os pescadores da região no ano passado, comendo tainha assada na areia, vi prepararem uma deliciosa farofa com vinagrete. Juntei com a mão e pimba! Acertei o olho…, mas passemos.

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Sou encantada com as voltas que a gastronomia dá, com a influência de cada país exerce na nossa gastronomia. Não se força a identidade gastronômica de um povo. Ela “acontece” e se desdobra como a nossa, dependendo do que é a moda, da influência econômica e política dos países, de barreiras alfandegárias, tanta coisa. Mas convém não esquecer o que é nosso, há milhares de anos.

Com tanto Josper pela cidade, vai que agora alguém se anima a moquear alguma coisa?

Aliás, e por falar em moda, sabe o katsuobushi, aquelas lascas de peixe seco-seco-seco que importamos do Japão para colocar em todo os cardápios moderninhos do país que usam ponzu, dashi…? Pois é. Moquém.

E sabe de que peixe ele é feito? De bonito-listrado, dos peixes mais abundantes da costa fluminense.

Índios… pffff!… Péssimos influencers!

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