Aumento de roubos de carro deixa seguros 60% mais caros em 2 anos

Gol, HB20 e outros modelos populares são os mais visados pelos bandidos

 (Genilson Araújo/Veja Rio)

Juliana* seguia com a família pela Avenida Radial Oeste, no Maracanã, quando o sinal fechou. De uma moto parada três carros à frente, um homem armado desceu e rendeu o pai da médica, que estava ao volante do Honda CR-V, modelo que chega a custar 180 000 reais. Além do veículo, o bandido levou documentos e celulares, e, por sorte, ninguém se feriu. O crime aconteceu com o dia ainda claro, na tarde de 21 de abril, um sábado. “Minha impressão é que a cidade está entregue e não há mais lugar tranquilo”, comenta a jovem de 23 anos, vítima de uma situação cada vez mais comum. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública, nos últimos três anos o número de casos de roubo de automóvel no estado saltou de 31 035 para 54 366, um aumento de 75%. Com a violência em alta, não teve jeito: o preço dos seguros de carro no estado subiu em média 60% desde 2016 e virou uma dor de cabeça a mais para muitos motoristas.

Gol, Hyundai HB20 e outros modelos populares são os mais visados pelos bandidos. Em geral, o destino dos carros roubados é a revenda ou o desmonte, com as peças abastecendo uma rede de mais de 500 ferros-velhos espalhados pela cidade. Entre as áreas mais perigosas do estado, destacam-­se São Gonçalo e bairros da Zona Norte, como Pavuna, Vila da Penha e Honório Gurgel. Nos municípios da Baixada, principalmente Belford Roxo e São João de Meriti, a situação é ainda mais crítica. Tanto que nessas regiões a proteção de um automóvel de 50 000 reais pode custar hoje 12 000 reais, quase 25% do valor do veículo, o que acaba, muitas vezes, inviabilizando a compra da apólice. “Estou no ramo há 53 anos e nunca vi o Rio em um estado tão calamitoso. Uma das consequências é que ficou mais caro, para os dois lados, assegurar os bens”, afirma Henrique Brandão, presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros do Rio de Janeiro.

 (Arte/Veja Rio)

Outro fator que vem encarecendo as apólices é a dificuldade que as autoridades encontram para recuperar os automóveis. Por diversos motivos. Em março, a produtora de TV Luiza Drable teve o carro levado com celulares e equipamentos de filmagem em Madureira. Os policiais da 29ª DP, no entanto, negaram-se a incluir no registro da ocorrência uma informação decisiva: o GPS dos telefones roubados mostrava que os veículos estavam no Complexo do Chapadão, em Costa Barros. “Em países como a França, a taxa de recuperação chega a 90%, enquanto a nossa não passa dos 50%”, diz Ronaldo Vilela, diretor executivo do Sindicato das Seguradoras dos Estados do Rio e do Espírito Santo. Não à toa, o Rio foi apontado como a cidade com os seguros de carro mais caros do Brasil em um levantamento realizado pela Minuto Seguros. Em razão disso, a compra de apólices no estado diminuiu 15% na comparação de 2017 com 2016. “Isso é ruim para o setor como um todo, porque os corretores usam as apólices de carro como porta de entrada para outros produtos”, explica Brandão.

Por mais que a intervenção federal na área de segurança pública represente uma esperança nesse mercado, as estatísticas ainda não reagiram. Entre janeiro e março deste ano, o número de roubos de automóveis no estado cresceu 14% em relação ao mesmo período de 2017. Em regiões como Niterói, o índice é até pior: o aumento foi quase duas vezes maior. “Dirigir no Rio hoje é uma loteria, na qual o motorista pode perder o carro na primeira esquina”, adverte Vilela. Entretanto, a expectativa de corretores e seguradoras é que o patrulhamento reforçado de tropas militares em pontos estratégicos e outras medidas melhorem as coisas a médio e longo prazos. Com mais segurança e menos roubos, o preço das apólices deve começar a cair a partir do segundo semestre e voltar a níveis normais durante o ano que vem. Por enquanto, não há muito o que fazer. Evitar áreas com muitos assaltos e trocar o carro pelo táxi nas saídas noturnas são alguns dos conselhos dos especialistas do setor a quem não quer entrar nas estatísticas. ß

* O nome da entrevistada foi alterado para preservar sua identidade (alteração feita às 17h50 de 08/05/2018)

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