Símbolos da umbanda e candomblé estão na moda, mas até que ponto vai a homenagem?
Com Equlibrivm, Anitta inspira os fãs e reacende a discussão sobre a banalização do sagrado
Sucesso de crítica e público, os volumes I e II do projeto Equilibrivm, de Anitta — indicado ao Grammy Latino —, revelam uma nova fase da artista carioca de 33 anos, que rompeu as barreiras do funk e conquistou o mundo.
Agora, sua conexão com a religiosidade ocupa o centro do palco, numa bonita e respeitosa homenagem à fé, à ancestralidade e à cultura brasileira.
Praticante do candomblé, no qual ocupa a função de ekedi, a nova rainha de bateria da Grande Rio encomendou aos stylists André Philipe e Daniel Ueda figurinos que incorporam búzios, palha-da-costa, fios de contas e outros elementos ligados às religiões de matriz africana — e não demorou para essa estética saltar do palco para a a rua.
Nos shows da turnê que passou por Niterói, Porto Alegre, São Paulo, Fortaleza e Salvador, fãs usaram e abusaram das referências em seus looks.
Para quem conhece o significado religioso, porém, alguns usos fora de contexto causaram incômodo.
Candomblecista há nove anos e funcionária de uma loja de artigos religiosos, Dora Rodrigues, 20, já se acostumou a ver pessoas de fora da religião comprarem atraídas apenas pela aparência, mas se surpreendeu com o uso de paramentas — adereços e símbolos sagrados que integram a representação dos orixás — combinados a sungas e outros trajes diminutos na plateia de Equilibrivm.
“A diferença entre a homenagem e o desrespeito é saber o que você está fazendo. O Carnaval, por exemplo, faz muita pesquisa antes de levar representações para a Avenida”, compara.
Diante dessa realidade, surge a pergunta: onde termina o tributo e começa a banalização?
Em um vídeo bem-humorado publicado nas redes, o ator e cantor Pedro Blanc, frequentador do terreiro Ilê Axé Lójú Odô, em Vaz Lobo, Zona Norte, conta que, ao fazer compras numa loja de artigos religiosos, notou que a palha-da-costa, usada, entre outras funções, na confecção das vestimentas dos orixás Obaluaê e Omolu, estava mais cara.
O motivo, segundo a atendente, era “porque uma cantora muito famosa” faria um show e a procura pelo item tinha disparado. “O encarecimento deve ser passageiro, por isso eu relevo. Mas é preciso ter cuidado para não usar de forma leviana”, afirma Blanc.
O material aparece no clipe da música Desgraça, por exemplo, em que Anitta usa um contra-egum, cordão amarrado ao braço, como forma de proteção. As guias e os búzios também assumem funções ritualísticas (veja mais abaixo).
Samuel Abrantes, professor de indumentária da Escola de Belas Artes da UFRJ e pesquisador do candomblé, ressalta que é justamente ao retirar os itens de seu contexto que o cuidado deve ser redobrado. “Os objetos ritualísticos carregam muitos saberes e quizilas, ou seja, interdições. Não podem ser banalizados”, alerta.
A distinção entre o que é apenas adorno e o que pertence ao sagrado passa pelo contexto e pelos ritos que envolvem cada peça.
Criada no candomblé e iniciada há 56 anos, Mãe Nilce de Iansã, 75, do Ilê Omolu Oxum, tradicional terreiro em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, exemplifica: “Um colar de miçangas pode ser enfeite. Os nossos fios de contas são sagrados porque passaram por obrigações, são lavados e orados. Eu não vejo problema em se vestir de baiana, mas usar roupa de orixá é outra história”, posiciona-se.
“Por outro lado, acho bom que se fale do candomblé na música, no teatro, nas revistas e no Carnaval. É uma forma de tentar acabar com o racismo religioso, que nos mata.”
Só entre janeiro e julho deste ano, o estado do Rio registrou 228 denúncias de intolerância religiosa.
Para a antropóloga Joana Bahia, coordenadora do Núcleo de Estudos da Religião da Uerj, dar holofote a elementos ligados a ritos não significa, por si só, reduzir o preconceito, mas pode favorecer uma aproximação.
“Essa circulação cria uma certa empatia, porque a arte se comunica com muito mais gente”, reflete. O movimento é recorrente — Clara Nunes (1942-1983), Maria Bethânia e nomes mais recentes, como Luedji Luna e MC Tha, já reafirmaram suas crenças através de canções. Entre a tradição e a cultura pop, essas referências ganham novos públicos, mas não podem perder de vista os significados que carregam.
Por trás dos símbolos
Significados e usos podem variar entre as tradições
Búzios.
As conchas aparecem em diferentes objetos e acessórios, e podem assumir funções ritualísticas. No jogo de búzios, são instrumento de consulta ao sagrado e podem ainda integrar peças e paramentas ligadas aos orixás.
Palha-da-costa.
Fibra vegetal presente em diferentes objetos e vestimentas rituais, é especialmente associada à indumentária dos orixás Omolu e Obaluaiê. Também se usa na confecção de elementos de proteção, como o contra-egum.
Fios de contas ou guias.
Os colares podem indicar vínculos religiosos e com os orixás, além de proteção. Segundo Mãe Nilce, os fios usados religiosamente passam por ritos específicos no terreiro, diferentemente de um simples adorno.
Paramentas. São peças, vestimentas e insígnias que integram a representação dos orixás e ajudam a identificá-los, pois há peças associadas a cada divindade. Entre elas estão o abebé, leque ou espelho associado a Oxum e Iemanjá; o oxê, machado de duas lâminas ligado a Xangô; e o opaxorô, cajado ritualístico associado a Oxalá.
Chorão.
É o ornamento feito de miçangas ou contas, preso ao adê, a coroa de determinados orixás, formando uma franja que recobre e protege o rosto. Pode aparecer nas vestimentas de Oxum, Iemanjá e Iansã, entre outros.







