Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês

Um assassino à solta em Botafogo

Desnível no asfalto que provocou a morte da ciclista Julia Resende continua no mesmo lugar há quase seis meses

Por Pedro Tinoco Atualizado em 4 abr 2017, 16h05 - Publicado em 4 abr 2017, 13h53

Segundo um clichê da literatura policial, o criminoso sempre volta à cena do crime. Na Rua São Clemente, em Botafogo, temos o caso curioso de um assassino que permanece no lugar onde perpetrou morte trágica. Segue lá, impávido, há quase seis meses. Explica-se: na tarde de 11 de outubro de 2016, Julia Resende de Moura, 19 anos, pilotava uma bicicleta a cerca de um quarteirão de sua casa, no Morro Dona Marta, quando se desequilibrou, caiu, foi atropelada por um ônibus e morreu na hora. Julia estudou como bolsista no Colégio Santo Inácio, estava avançando no vestibular para Medicina na Uerj e sonhava em trabalhar no grupo humanitário Médicos sem Fronteiras. Sobre um modelo laranja do projeto Bike Rio, trafegava no trecho da pista dedicado aos ciclistas. Fazia tudo certo, mas não foi o suficiente. O ônibus envolvido no acidente mantinha imprudente distância da jovem, sem respeitar a distância mínima de 1,5 metro em relação a ciclistas prevista no código de trânsito. Fundamental para a tragédia, um desnivelamento grosseiro no asfalto, um monte preto que evolui perto da calçada ao longo de boa parte da Rua São Clemente, provocou o tombo responsável pela morte estúpida. Esse defeito grosseiro na cobertura da pista, já tantas vezes refeita, pode levar a tropeços de pedestres e, em situações extremas, produz desastres como o de Julia. Naquela triste semana de outubro de 2016, palavras de protesto foram pintadas sobre o asfalto e flores homenagearam a vítima. A prefeitura informou que mandaria uma equipe para vistoriar o local. E o consórcio Intersul, ao qual pertencia o ônibus, lamentou a morte. Quase seis meses depois, as flores murcharam e a pintura está sumindo. Consultada sobre providências a ser tomadas, a assessoria de comunicação da secretaria municipal responsável, a Seconserma, respondeu com um e-mail curto: “A Secretaria de Conservação e Meio Ambiente informa que a nova gestão fará um levantamento sobre os serviços necessários para a Rua São Clemente e o orçamento para a execução. Os demais serviços de asfaltamento para outros pontos da cidade ainda estão em fase de planejamento.” Enquanto isso o assassino continua lá, na cena do crime.

Hugo Ferreira/Divulgação
  • Publicidade