O que mudou no combate ao crime um ano após megaoperação na Penha e Alemão
Novo governador promete endurecer o enfrentamento às facções após intervenção que deixou 122 mortos e ficou conhecida como a mais letal do país
Em 28 de outubro de 2025, o Rio amanheceu contando cadáveres amontoados na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, Zona Norte. Ao todo, foram 122 mortos — 117 civis e cinco policiais — na Operação Contenção, que entrou para a história como a mais letal do país. Um ano depois da ação, que mobilizou cerca de 2 500 agentes de segurança, drones, dois helicópteros, 32 veículos blindados e doze de demolição, o saldo ainda impõe uma pergunta: que caminho o Rio vai seguir no combate ao crime organizado? Desde março, o governador interino Ricardo Couto apostou em outras frentes. O estado assinou com o Ministério da Justiça e Segurança Pública acordos de cooperação técnica, prevendo ações conjuntas para retomar territórios e proteger corredores estratégicos, como a Avenida Brasil e as linhas Vermelha e Amarela. E já recebeu quatro equipamentos antidrones para serem usados pelas polícias civil e militar. O pacote de medidas também incluiu maior cooperação entre os sistemas penitenciários federal e estadual, com o objetivo de interromper a comunicação entre presos e organizações criminosas, e o combate a atividades econômicas que financiam o crime organizado. “No dia seguinte dessas operações, há outros jovens prontos para substituir os líderes de cada facção. E há um custo financeiro muito alto para o estado. Atendimentos hospitalares e pensões entram nessa conta”, alerta o sociólogo Doriam Borges, professor da Uerj, defendendo os investimentos em prevenção.
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Os indicadores mais recentes oferecem um primeiro retrato do cenário sob gestão de Couto, embora não permitam atribuir eventuais mudanças a uma única estratégia. Só em agosto de 2026, foram registradas 537 apreensões de armas no estado, alta de 19,1% em relação ao mesmo mês de 2025, segundo o Instituto de Segurança Pública. Já a letalidade violenta, que inclui morte por intervenção de agentes do estado, além de homicídio doloso e feminicídio, fez 2 648 vítimas entre janeiro e setembro. Na comparação com o ano passado, houve redução de 6,9% no acumulado dos nove meses. Mas é preciso mais. Doriam Borges defende a ampliação do trabalho para além dos territórios dominados: “Intervenções policiais continuam sendo o que é chamado de segurança pública. Esse tipo de atuação não têm efeito nenhum na redução da criminalidade e acontece nas favelas, deixando outras questões extremamente relevantes de lado”, diz, apontando para a importância de uma Secretaria de Segurança forte, hierarquicamente acima das polícias Civil e Militar. “Todo mundo está comprometido em acabar com o crime organizado, mas não são esses bandidos que roubam celulares nas ruas”, frisa o coronel da reserva da PM de São Paulo Alfredo Deak Junior, especialista na aplicação da inteligência artificial em segurança, com passagem pela Microsoft.
A tecnologia e a integração de informações mostram caminhos para tornar a atuação policial mais eficiente. Um dos exemplos é o Domain Awareness System (DAS), plataforma centralizada de vigilância digital e monitoramento em tempo real desenvolvida originalmente pelo Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), em parceria com a Microsoft. Também há técnicas e metodologias nacionais que podem ser mais bem aproveitadas em solo fluminense. “A experiência de São Paulo no aspecto da pronta-resposta é a melhor que eu conheço no mundo”, exemplifica Deak Junior, defendendo o uso racional da força a partir de medidas como a centralização do serviço 190 e a integração de dados não só das polícias, mas do Detran e das guardas municipais. “Com base em informações sobre a população residente e a flutuante e no tipo de crime que mais acontece em cada região, um algoritmo pode ajudar a distribuir o efetivo para que o atendimento seja mais rápido”, explica. “O tiro tem que ser dado em defesa da vida, não para acabar com uma. Proteger o cidadão deve ser o foco das políticas de segurança”, diz, frisando que a prisão dos bandidos é consequência desse trabalho. “Quando se tem uma quantidade de mortos como vimos na operação da Penha, é porque a ação fracassou”, corrobora o coronel José Vicente da Silva Filho, especialista em segurança.
A tarefa de definir os próximos passos da política de segurança fluminense ficará com Douglas Ruas, recém-eleito governador. Inspetor da Polícia Civil, o gonçalense de 37 anos pertence ao PL, mesmo partido de Cláudio Castro, que estava à frente do governo na época da megaoperação no Complexo da Penha. Ruas já deu o tom dos rumos que pretende tomar. “Nós vamos declarar guerra ao crime organizado. Através de um plano muito bem elaborado, com o objetivo de proteger o cidadão do Rio de Janeiro. Pretendemos retomar os territórios e devolver as ruas do Rio para o nosso povo”, afirmou. A promessa de endurecimento coloca em evidência o desafio do novo governante: mostrar de que maneira o enfrentamento às facções poderá combinar presença policial, investigação, inteligência e prevenção. Um ano depois da Operação Contenção, a questão não é apenas como ocupar territórios, mas como garantir a segurança de toda a população sem repetir o custo humano de uma ação que deixou 122 mortos.
Menos tiro, mais inteligência
Sistemas internacionais usados no combate à criminalidade
SINGAPURA A R-Cop baseia-se em inteligência artificial para auxiliar os cidadãos a registrar ocorrências. Dessa forma, os boletins podem ser preenchidos mais rapidamente, limitando a necessidade de esclarecimentos posteriores.
NOVA YORK Além do Domain Awareness System (DAS), plataforma de vigilância digital e monitoramento em tempo real desenvolvida pelo Departamento de Polícia, o CompStat 2.0 disponibiliza mapas e estatísticas interativas para a população.
CHICAGO O Departamento de Polícia local trabalha com o Strategic Decision Support Systems, combinando dados de câmeras de vigilância, reconhecimento automático de placas e detecção de disparos.






