Troca-troca nos consulados movimenta comunidade diplomática com alma carioca
Cidade segue como uma vitrine estratégica para países que buscam ampliar relações culturais, econômicas e institucionais
Capital do Império de 1822 a 1889 e da República até 1960, o Rio de Janeiro ocupa um lugar singular na história da diplomacia internacional. O primeiro consulado da América Latina foi instalado nestas terras, em julho de 1811, por decisão do imperador Alexandre I, da Rússia. A missão era estratégica: estimular o comércio, mapear oportunidades econômicas e consolidar uma relação que ainda engatinhava. Os irmãos Ksaveriy e Michael Labenskiy tornaram-se os primeiros representantes oficiais russos na cidade, inaugurando uma tradição que, mais de dois séculos depois, permanece viva e faz do Rio uma das capitais consulares mais relevantes do continente. Essa vocação internacional se traduz em números: um levantamento de VEJA RIO contabiliza 29 consulados-gerais e quinze honorários, formando uma das mais expressivas redes diplomáticas das Américas. “Ser cônsul no Rio de Janeiro é um sonho. Todos querem desfrutar das belezas da nossa cidade”, afirmou o prefeito Eduardo Cavaliere durante cerimônia recente realizada no Palácio da Cidade, em Botafogo.
Se chegar ao Rio costuma ser motivo de celebração, partir quase sempre se transforma em uma despedida difícil. Nas últimas semanas, a cidade assistiu à renovação de parte importante do seu corpo diplomático, com as saídas dos cônsules-gerais da Itália, Bélgica, Noruega e Reino Unido. O adeus ao britânico Anjoum Noorani, de malas prontas para Washington, nos Estados Unidos, sintetiza um sentimento compartilhado por muitos colegas. “Sinto uma alegria agridoce. Doce porque poucas cidades no mundo têm o espírito, a energia, a cultura e essa beleza. Deixo o Rio com a sensação de dever cumprido, após acompanhar visitas históricas, fortalecer parcerias e ajudar a ampliar a presença comercial britânica por aqui. Agora me considero um pouco carioca”, emociona-se Noorani, cuja permanência em solo brasileiro extrapolou os limites da diplomacia: ele fez uma ponta no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. O diretor e o protagonista, Wagner Moura, venceram a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
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Enquanto alguns encerram um ciclo, outros aprofundam uma trajetória construída ao longo de décadas. O Consulado-Geral do Peru, instalado no Flamengo, ocupa o edifício que abrigou a antiga embaixada do país vizinho quando o Rio ainda era capital federal. Essa continuidade ganha novo significado às vésperas do bicentenário das relações entre as duas nações, que será celebrado em 2027. “O Consulado atua como uma ponte, contribuindo para uma relação cada vez mais próxima entre as nossas sociedades”, explica o cônsul-geral, Carlos Garcia, destacando que a repartição atende, além do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e toda a Região Nordeste. Para Jan Freigang, cônsul-geral da Alemanha, a visibilidade internacional da capital fluminense e sua vocação para sediar grandes eventos transformam a cidade em ativo estratégico. “É possível conectar governos, empresas, universidades, centros de pesquisa e instituições da sociedade civil em temas como transformação digital, transição energética e inovação”, analisa. “A cooperação se manifesta da cultura à economia, mas o vínculo vai muito além. Como cantava Rita Lee, temos um ‘caso sérioí”, endossa, com bom humor, o cônsul francês Éric Tallon.
Diferentemente das embaixadas, responsáveis pela representação política de países perante o governo brasileiro e instaladas em Brasília, os consulados concentram-se na assistência aos cidadãos, na promoção comercial, cultural e turística, e na aproximação entre sociedades. Também há distinções entre os consulados-gerais, comandados por diplomatas de carreira com amplas atribuições administrativas e políticas, e aqueles honorários, geralmente dirigidos por representantes locais, que exercem funções mais restritas, de apoio institucional. Para o cônsul-geral uruguaio, Alejandro Mongrell, o fato de o posto estar sediado no Rio — e em plena Avenida Atlântica — amplia a interlocução cotidiana com autoridades, empresários e representantes da sociedade, permitindo fortalecer as relações bilaterais e desenvolver projetos de benefício mútuo. “É uma honra que exige responsabilidade, dedicação, compromisso, vocação de serviço e muito borogodó”, define Mongrell, que hoje vive em Ipanema e já já está por dentro das gírias locais.
Brasília passou a concentrar o poder político nacional na década de 1960, mas o Rio de Janeiro não deixou de ser a vitrine do país para o mundo. A antiga capital preservou esse protagonismo por meio de sua robusta rede consular, transformando a diplomacia em parte de sua identidade urbana. Entre prédios históricos, encontros internacionais, iniciativas econômicas, intercâmbios culturais e relações que atravessam gerações, os consulados provam sua relevância. Mais do que estruturas administrativas, tornaram-se espaços de aproximação entre o Brasil e diferentes povos. “Há mais de dois séculos, quando os primeiros imigrantes suíços chegaram ao Brasil, iniciou-se uma relação sólida. Manter esse elo vivo, aproximando pessoas e instituições, é um privilégio”, aponta Michael Schweizer, que comanda o Consulado-Geral do país europeu na Glória. Talvez seja justamente a combinação entre história, hospitalidade, diversidade e projeção global que explique por que tantos diplomatas chegam ao Rio como representantes de seus governos e partem levando, na bagagem, um pouco da alma carioca.
Tá na história
A diplomacia na cidade ao longo dos últimos séculos

1808
Devido às ameaças de Napoleão, a Corte transfere-se definitivamente para o Rio de Janeiro, que passa a ser o centro de decisões políticas do Império Luso-Brasileiro.

1811
Por determinação do czar Alexandre I, da Rússia, foi criado o primeiro consulado- -geral do país na cidade.
1815
Com a formação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, o Rio de Janeiro consolida-se formalmente como sede oficial do governo transcontinental, atraindo novas agências consulares europeias.
1824
Os Estados Unidos reconhecem formalmente a Independência do Brasil, estabelecendo laços diplomáticos diretos na cidade.
1920
É inaugurada festivamente a Embaixada da Itália no Rio de Janeiro, com uma célebre garden party oferecida pelo Conde Bosdari.
1937
O governo da Argentina adquire o icônico Palacete Guinle, situado na Praia de Botafogo, para estabelecer sua Embaixada

1944
É inaugurada formalmente no Palácio Monroe, na Cinelândia, a Embaixada dos Estados Unidos, servindo temporariamente como a principal chancelaria americana na capital antes de centralizarem as operações no icônico Consulado Geral da Avenida Presidente Wilson, na década de 1950.
1949
O imponente palacete neoclássico construído em Botafogo (atual Palácio da Cidade) é inaugurado para abrigar a Embaixada Britânica. O Reino Unido utilizou o edifício e seus suntuosos jardins como sede diplomática oficial até 1974, ano em que transferiu suas operações e vendeu o imóvel à prefeitura.

1960
A capital federal é transferida para Brasília e, pouco a pouco, o Rio passa a concentrar apenas consulados.





