Séries de TV sobre a criminalidade carioca dominam o streaming
Produções que têm a violência na cidade como pano de fundo engatam novas temporadas, ampliam o alcance e consolidam seu sucesso
Em fevereiro de 2026, o Rio de Janeiro registrou o menor número de mortes decorrentes da violência para o mês em 25 anos. Os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), no entanto, são motivo de espanto e não de celebração: foram 303 vítimas — ou seja, mais de dez pessoas mortas diariamente.
Entre o encanto do pôr do sol no Arpoador e as 121 vidas perdidas na megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, o purgatório da beleza e do caos encaixa o horror na rotina.
Tamanha dualidade vira matéria-prima para roteiristas. Nas plataformas de streaming, pipocam séries sobre diversas camadas e vieses da criminalidade carioca – da milícia às disputas do jogo do bicho, e o ranking das mais assistidas não nega o apelo dessas narrativas.
A chegada da sexta temporada de Impuros ao Disney+, agora com Bruno Gagliasso no elenco, é prova do sucesso. Ambientada na década de 1990, a história retrata a ascensão de um traficante poderoso e é livremente inspirada em casos que estampavam manchetes naquela época.
Testada com sucesso no cinema no início dos anos 2000 ó caso de Tropa de Elite, a fórmula floresce no streaming pela possibilidade de aprofundar tramas.
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Um exemplo é Cidade de Deus: A Luta Não Para, da HBO Max, continuação do filme de Fernando Meirelles lançado em 2002. A série dirigida por Aly Muritiba já tem segunda temporada confirmada. “Trouxemos para o primeiro plano as consequências da violência na vida dos moradores daquela comunidade. Vinte anos depois dos acontecimentos do longa, as pessoas se unem para cobrar o Estado e os traficantes”, resume Muritiba.
A parceria da ONG Afroreggae com o Globoplay rendeu três produções na última década: A Divisão, com três temporadas sobre a onda de sequestros que abalou o Rio em 1990; O Jogo que Mudou a História, sobre a ascensão do jogo do bicho, com segunda leva de episódios confirmada; e Arcanjo Renegado, que acompanha um sargento incorruptível do Bope. O quinto volume estreia no segundo semestre.
“Não há projeto do Afroreggae que não dialogue com a política, a polícia, o tráfico ou a milicia”, explicita o showrunner José Junior, já em fase de produção de Delegacia de Homicídios para o Disney+.
A Netflix também investiu no tema com Os Donos do Jogo, retrato ficcional da rede de traições e luxúria da cúpula da contravenção, que alcançou o posto de quarta série mais vista globalmente em novembro do ano passado.
O filão de mazelas cariocas transportadas para as telas é relativamente recente. Até o início da década de 1970, quase não se falava em violência urbana. O cenário se transforma nas duas décadas seguintes, impactando a imagem da cidade.
“A mudança nos padrões de criminalidade, sobretudo a partir dos anos 1990, alterou os destaques das páginas de jornais. Não por acaso, o interesse da população pela violência ganhou fôlego”, explica Luana Martins, professora do departamento de sociologia da UFRJ.
Outro ponto nevrálgico é que, no Rio, os criminosos estão em todas as classes sociais. “É curioso como ao mesmo tempo em que o bicheiro está profundamente conectado com a comunidade, ele transita na alta sociedade com uma facilidade muito distante da ideia do crime”, define Manoel Rangel, produtor de Os Donos do Jogo.
“A violência transita no imaginário das pessoas. O Rio é a caixa de ressonância do Brasil, o que acontece aqui gera interesse para o bem e para o mal”, reforça José Junior, destacando que as produções do gênero também são cariocas.
Entre roteiro e vida real, o Rio segue sendo ao mesmo tempo cenário, personagem e origem dessas histórias.
Barbárie sob demanda
Filmes sobre o crime no Rio disponíveis nas plataformas
CIDADE DE DEUS (2002). O icônico longa acumulou quatro indicações ao Oscar e alçou o cineasta Fernando Meirelles a Hollywood ao retratar o tráfico na cidade. HBO Max, Netflix, Globoplay, Paramount+.
TROPA DE ELITE (2007). Vencedora do Leão de Ouro no Festival de Berlim, a divisiva obra de Afonso Padilha narra a brutalidade da guerra entre polícia e tráfico, com uma interpretação inesquecível de Wagner Moura. Prime Video, HBO Max e Telecine.
OS ENFORCADOS (2025). Inspirada em MacBeth, de Shakespeare, a obra de Fernando Coimbra traz Leandra Leal e Irandhir Santos como um ambicioso casal de herdeiros do bicho afundando num buraco do qual esperavam escapar. Telecine.
LÚCIO FLÁVIO: O PASSAGEIRO DA AGONIA (1978). O clássico de Hector Babenco narra a trajetória de um bandido conhecido nacionalmente pelos roubos a banco e fugas espetaculares. Netflix, Mubi.







