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Disputa por bens marca a separação de empresário e advogada

Orlando Diniz, presidente da Fecomércio-RJ, e a advogada Daniele Paraíso de Andrade passaram oito anos casados

Por Thiago Prado Atualizado em 23 fev 2018, 10h16 - Publicado em 6 Maio 2016, 22h00

Foram oito anos de um aparente conto de fadas. O empresário Orlando Diniz, de 53 anos, presidente da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) e a advogada Daniele Paraíso de Andrade, 40, viveram em um apartamento de 400 metros quadrados decorado com requinte no Leblon, passaram os fins  de semana em uma bela casa de praia em Mangaratiba, nos arredores de Angra dos Reis, e viajaram pelas grandes metrópoles do mundo e por países exóticos. Um dos mais conhecidos líderes empresariais do Rio, que comanda o Sesc-Rio e o Senac-RJ, entidades cujo orçamento somado chega a 1 bilhão de reais por ano, Diniz adquiriu, junto com sua esposa, obras de artistas renomados, investiram em antiguidades e desenvolveram um gosto apurado por vinhos de safra rara. Tiveram uma filha, hoje com 5 anos, e, mesmo sem oficializarem o casamento em cartório, celebraram sua união em um ritual polinésio no Taiti, em 15 de janeiro de 2014. A cerimônia teve direito à chegada dos noivos em um catamarã, a coroas e colares de flores, danças típicas e certidão escrita em idioma nativo e enrolada em folha de bananeira. Para arrematar, champanhe, porque ninguém é de ferro.

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Apesar de todos os bons auspícios, a história de amor não teve um final feliz. Meses depois da celebração polinésia, a união de Diniz e Daniele começou a desandar a ponto de se transformar em uma virulenta disputa judicial, com acusações de ocultação de patrimônio, barracos públicos e a contratação de advogados de alto gabarito. A separação do casal tramita no Tribunal de Justiça do Rio desde 2015. O rompimento, porém, remonta a dezembro de 2014, quando Daniele deixou o apartamento do Leblon. O motivo da confusão, amigos comuns apontam, foi a suspeita de Diniz de que a advogada estaria mantendo um relacionamento extraconjugal. Em 9 de janeiro de 2015, o empresário chamou a atenção dos frequentadores do Esch Café, reduto de apreciadores de charutos no Leblon, ao partir para cima de um advogado, a quem acusava de manter um caso com sua mulher. No dia 22, em um gesto de vingança, destruiu com uma tesoura o equivalente a 71 000 reais de roupas de grife que Daniele havia deixado no apartamento. E deixou-lhe um recado: “Dia 28 vou para Mangaratiba e o que tiver lá seu vai para a calçada. Você na minha vida é uma nuvem negra. Uma âncora. É um pássaro preto. Sai, oferenda”, escreveu.

Em outro episódio, em junho, um bate-boca acalorado resultou na chegada da polícia para conter os ânimos. Na ocasião, o casal discutia a respeito da guarda da filha na porta do prédio onde Daniele passou a morar com a menina e outra filha, de 12 anos, de seu primeiro casamento, no bairro do Jardim Botânico. O bafafá acabou registrado em um termo de ocorrência, que os policiais qualificaram como “rixa de casal”. Segundo os agentes, a situação foi tão tensa que a criança chegou a chorar. O auge da disputa judicial deu‑se no mês seguinte, quando, a pedido dos advogados da ex-mulher, um oficial de Justiça bateu à porta do apartamento do Leblon com um mandado de arrolamento dos bens ali existentes. Na primeira tentativa, o oficial não conseguiu entrar. Na segunda, teve êxito, mas encontrou o imóvel sem objetos de valor: as peças e obras de arte relacionadas por Daniele não estavam nos locais indicados, a adega estava praticamente vazia, assim como o cofre instalado dentro de um armário.

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Muito da animosidade entre o empresário e a advogada decorre da acirrada disputa financeira travada entre eles. Daniele discute judicialmente a pensão para a filha do casal, que ela quer ver equiparada aos valores pagos aos três filhos do primeiro casamento de Diniz. Também exige a partilha integral dos bens que usufruíam no período em que estiveram juntos. O problema é que nenhum dos bens listados por Daniele está em nome do ex-marido. O apartamento localizado na Rua Aristides Espínola, avaliado em cerca de 12 milhões de reais, por exemplo, está em nome de uma empresa chamada Kaelin do Brasil Participações. A aquisição, feita pelo empresário em 2006, por 3,45 milhões de reais, nunca foi formalizada com uma escritura definitiva — a própria Kaelin chegou a cobrá-lo extrajudicialmente para que tomasse providências nesse sentido. Situação semelhante ocorre com a casa de veraneio situada no condomínio Portobello, em Mangaratiba, avaliada em 5 milhões de reais. O imóvel está em nome do engenheiro que desenvolveu o projeto. Na propriedade, Diniz mantém ainda seis cavalos, uma lancha e jet skis — também reivindicados pela ex-mulher. “Espero que a Justiça dê tratamento digno à nossa filha e reconheça o patrimônio comum a ser dividido. Não quero nada mais do que me é de direito”, informou Daniele por meio de seus advogados.

A estratégia adotada pelos advogados da ex-mulher para comprovar as posses de Diniz passa pela descrição detalhada de seus hábitos de consumo e padrão de gastos. Consta no processo, por exemplo, uma nota fiscal referente a uma compra realizada em Nova York, em agosto de 2014, na tradicional loja Sherry Lehmann, especializada em vinhos. O documento, com o nome e o endereço de Diniz, comprova a aquisição de três garrafas de champanhe Louis Roederer Cristal (549 doláres cada uma), três de Dom Pérignon (359 dólares), três do tinto espanhol Vega Sicilia (525 dólares), três de Château Cheval Blanc (795 dólares) e três de Château Margaux (685 dólares), entre outros itens. Total do gasto: 9 589 dólares. Apreciador das artes, o empresário possui quadros de pintores de renome como Cícero Dias e Carlito Carvalhosa que custam, em média, 100 000 reais cada um. “O patrimônio declarado à Receita Federal é absolutamente incompatível com o padrão de vida mantido por Orlando”, afirma a defesa de Daniele em uma petição à Justiça do Rio, calculando em pelo menos 200 000 reais as despesas mensais de Diniz.

Filho de imigrantes portugueses, Diniz iniciou-se nos negócios trabalhando no açougue que o pai, Enio Ormond Diniz, tinha no bairro da Urca. Nos anos 80, ainda estudante de direito na Universidade Candido Mendes, começou a atuar em entidades patronais — em 1989, viria a se tornar presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Carnes Frescas. Com isso, passou a frequentar a Federação do Comércio Varejista, entidade que deu origem à atual Fecomércio‑RJ, e a comandá-la, em 1997. Imediatamente, Diniz trouxe para sua esfera de influência outras duas federações, a do comércio atacadista e a do turismo e hospitalidade, unificando-as. Englobou ainda os sistemas Sesc-Rio e Senac-RJ, de cujos conselhos no estado é presidente.

Tamanha estatura aproximou Diniz de poderosos como o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, seu vizinho no edifício do Leblon. É justamente a esposa de Cabral, a advogada Adriana Ancelmo, quem o representa no processo judicial contra Daniele. Desde o ano passado, a Fecomércio-RJ também mantém um contrato com o escritório da ex-primeira-dama. VEJA RIO teve acesso a notas fiscais que comprovam o pagamento de pelo menos 5 milhões de reais a Adriana em 2015. “O escritório, juntamente com outros, atua em processos de significativa relevância perante as Justiças estadual, federal e do trabalho. No que se refere à mencionada ação de separação judicial, firmou contrato específico para a atuação em favor de Orlando Diniz, recebendo seus honorários do próprio contratante”, informou Adriana. Patrocinador de eventos culturais por meio das entidades que dirige, Diniz tem bom trânsito entre artistas e famosos — recentemente, teve um rápido namoro com a atriz Zulma Mercadante, que animou os sites de celebridades. Também encabeça iniciativas de impacto na cidade, como o programa de reforço no patrulhamento batizado de Segurança Presente, no qual a Fecomércio-RJ paga por profissionais que auxiliam no policiamento preventivo de três regiões da cidade.

Diniz e Daniele conheceram-se na própria Fecomércio-RJ, no início dos anos 2000. Na época, ela era advogada do departamento jurídico do Senac. Em sua carreira na entidade, chegou a ocupar a diretoria jurídica, num período em que ainda era casada com o empresário. Foi nesse posto que protagonizou um episódio polêmico, ao receber uma espécie de bonificação por desempenho de 9,6 salários em uma política de remuneração variável criada pelo próprio marido. Posteriormente, a prática foi questionada pelo Tribunal de Contas da União. Depois da separação, Daniele foi transferida para a Editora Senac, onde ganha um salário de cerca de 40 000 reais líquidos por mês. Ali, continua sem funções claras, enquanto trava sua guerra particular com o ex-marido. Procurado por VEJA RIO, o empresário pronunciou-se por meio de nota emitida por sua assessoria de imprensa: “Orlando Diniz passa por uma separação judicial litigiosa, que corre em segredo de Justiça. Infelizmente, dados distorcidos de sua vida privada são apresentados tentando influenciar o desfecho do processo. Diniz é comerciante atuante, tem gastos e patrimônio compatíveis com as suas atividades profissionais e os seus bens e propriedades são declarados anualmente.”

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