Rotina sem glamour da maternidade vira conteúdo nas redes

Vida exibida em tempo real mobiliza seguidores, abre portas para fontes de renda, mas alimenta debate sobre limites da exposição on-line da criançada

Por Renata Busch 8 Maio 2026, 06h02 | Atualizado em 8 Maio 2026, 11h45
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Barbara Bibelu: mãe de duas crianças, de 7 e 10 anos, duas adolescentes, de 13 e 17, e de um adulto, de 27 anos — todos morando sob o mesmo teto —, ela aposta no humor típico das situações cotidianas (Dani Dacorso/Veja Rio)
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A mãe liga a câmera do celular e, entre risos, conta à sua vultosa plateia de 1 milhão de seguidores o tropeço do dia: levou a filha errada a uma festa de aniversário infantil. O episódio, que poderia ter virado piada interna na família, viraliza.

São mais de 680 000 curtidas e 634 000 compartilhamentos só neste post do Instagram, em meio a outros que ajudam a traduzir a intensa rotina da empresária Renata Darzi, 38 anos, mãe de quatro meninas.

Moradora da Barra, ela nunca planejou ser influenciadora, mas tudo mudou após o nascimento de Maria Luísa, hoje com 5. Diagnosticada com paralisia cerebral, a garota passou 322 dias na UTI neonatal. Foi ao dividir nas redes tão árduo percurso que Renata encontrou solidariedade e um novo caminho.

“Ao colocar para fora a carga pesada, percebi que não era a única passando por aquilo. Agora, consigo mostrar que a Malu não se resume a um diagnóstico”, diz. Em 2024, a casa encheu com a adoção de três irmãs, e os depoimentos sobre a adaptação da vasta prole ampliaram o alcance do perfil. E o que começou como troca de experiências virou também negócio.

“Há uma urgência constante de campanhas, entregas e prazos, o que exige maturidade para estabelecer limites e fazer escolhas”, afirma a publicitária, que nos últimos meses estrelou ações para marcas como Americanas, Disney+ e Toddynho.

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Renata Darzi: influenciadora mostra uma rotina com programação intensa e viagens cheias de atividades para entreter Maria Luísa, 5, Maria Fernanda, 8, Maria Cecília, 6, e Maria Valentina, 5, as Marias (L.A. Foto Estúdio/Divulgação)

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A maternidade é hoje um profícuo território nas redes, embora sob uma lógica bem diferente da que dominava o ambiente digital nessa seara não tanto tempo atrás. Se antes prevaleciam recortes idealizados da labuta diária, a pandemia escancarou o avesso da moeda e mudou o jogo.

“Temas como sobrecarga doméstica, solidão, dupla jornada e falta de apoio apareceram. A partir daí, a perfeição começou a perder espaço, e o público passou a se identificar com quem fala sobre cansaço, culpa, puerpério, trabalho, dinheiro e casamento sem filtros”, avalia Fernanda Vicentini, especialista em redes da ESPM.

Foi sob essa moldura mais pé no chão que a publicitária Carol Peluffo, 44 anos, mãe de quatro meninos de 6 a 13 anos, viu seu perfil decolar. Ao listar em tom irônico os motivos pelos quais vai à academia (que tal alguns minutos de paz longe das demandas dos rebentos?), arregimentou 15 000 seguidores em dois dias.

Vieram então os convites, os primeiros cachês e a constatação de que o que soa banal pode conectar pessoas. “Uma cena simples, como a do filho que se recusa a colocar uma meia antes de calçar o tênis, gera identificação porque é o que todas nós estamos vivendo. As mães sentem aí que não estão sozinhas”, observa.

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Carol Peluffo: publicitária e mãe de quatro meninos agitados viu a vida mudar após desabafo bem-humorado sobre precisar de um tempo para ela (Mariposa Fotografia/Divulgação)
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Um levantamento da Associação Brasileira de Anunciantes calcula que, em 2024, quase a metade dos consumidores fez compras motivada por influenciadores, enquanto a plataforma Influency.me estima a existência de 2,1 milhões de páginas do gênero no Brasil, 255 815 falando sobre maternidade.

Antes dedicada exclusivamente às tarefas de casa, Bárbara Bibelu, 44 anos, mãe de cinco de idades variadas, de 7 a 27 anos, resolveu expor os agitados bastidores de sua frenética rotina.

Despenteada e com a unha descascada, ela deixa a câmera ligada no carro ao levar os filhos para a escola, flagrando, por exemplo, conversas sobre o significado das gírias adolescentes.

A primeira publicidade veio há dois anos, e ela cuidou sozinha das tratativas sobre valores, roteiros e edição.

Atualmente, conta com uma equipe de três pessoas com as quais participa de reuniões virtuais para checar métricas e planejar estratégias — só no Instagram, agrega 1 milhão de “belezuras”, como se refere aos seguidores.

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Para uma marca estar em sua vitrine virtual, o preço inicial é 25 000 reais. “Os vídeos nos stories são um celeiro de ideias de conteúdo, uma vez que as pessoas comentam e, dessas conversas, é possível criar novos enredos, que vão para o feed e ampliam o alcance”, ensina.

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Andressa Reis: criadora de conteúdo se destaca pelas publicações acerca da educação positiva, evitando punições e palavras duras (Carol Reis/Divulgação)

Pois o mesmo público que engaja também cobra e, muitas vezes, ataca.

Canais que crescem à base de identificação como esses acabam expostos à vigilância constante, tudo suscetível a acalorados debates.

Um dos vídeos de maior sucesso de Andressa Reis, 40 anos, moradora de Saquarema, na Região dos Lagos, apresenta a criadora de conteúdo toda prosa porque os filhos Maria, 8, e Caetano, 6, não conheciam o significado de expressões como “castigo” e “surra”.

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E não deu outra: após uma enxurrada de mensagens, algumas de teor ácido, precisou responder se em algum momento se arrependeu de empregar a chamada educação positiva.

“Já fui julgada por acharem que eu estava prolongando demais a adaptação escolar do caçula e que eu precisava ser mais firme, mas escolhi respeitar o tempo dele”, diz.

Até um corriqueiro conflito doméstico pode motivar críticas. “Reclamaram porque mostrei os irmãos brigando pelo controle remoto da TV”, diverte-se Bárbara.

Giovanna Ewbank  publica conteúdo com as crianças
Giovanna Ewbank  publica conteúdo com as crianças, sempre atenta aos comentários racistas (Instagram/Reprodução)
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Outros assuntos incendeiam as redes, às vezes de forma inesperada, como quando Carol Peluffo reivindicou um merecido tempo para se cuidar. “Achei que seria cancelada. Falavam que eu deveria ter pensado nisso antes de ter filhos, mas não liguei e segui em frente”, comenta.

Ocorre também de o tom escalar, ultrapassando a fronteira do razoável. Por mais de uma vez, a atriz Giovanna Ewbank, 39 anos, recebeu comentários de cunho racista nas fotos sobre os filhos Titi, de 12, e Bless, 11, mas avisa aos haters de plantão: seus advogados estão sempre de olho.

A exposição dos filhos é o ponto mais sensível nesse universo que tem de tudo um pouco. Entre preservar a intimidade e compartilhar a rotina, mães influenciadoras caminham sobre uma linha tênue que divide opiniões. Há quem prefira optar pela discrição absoluta quase como uma filosofia.

Exposição tem limite:  Mel Fronckowiak com uma de suas filhas
Exposição tem limite:  Mel Fronckowiak prefere não mostrar os rosto das filhas que tem com Rodrigo Santoro (Instagram/Reprodução)

A atriz Mel Fronckowiak, 38 anos, evita mostrar o rosto das filhas nas raras postagens, postura semelhante à da cantora Sandy, 43 anos, que há mais de uma década mantém o filho longe de holofotes. “A divulgação em detrimento da experiência pode esvaziar o valor dos momentos em família, que são únicos e fundamentais para o desenvolvimento infantil”, alerta a psicóloga Luciana Pessôa, da PUC- Rio.

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Fernanda Gentil gosta de compartilhar a faceta mãe com os seguidores (./Arquivo pessoal)

Mãe de Lucas, 18, e Gabriel, 10, a apresentadora Fernanda Gentil, 39 anos, entende que não postar nada dos filhos seria excluir justo a faceta da qual ela mais se orgulha — a maternidade. O jeito é buscar equilíbrio. “Tenho limite de assuntos e de frequência de conteúdo com os meninos”, diz, acrescentando que o primogênito não tem gostado de aparecer, e ela respeita. Termo novo na legislação, o oversharenting (excesso de posts dos pais) ainda não tem jurisprudência no Brasil.

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Cuidado com o oversharenting: “O excesso de exposição pode ser questionado, mas ainda não há jurisprudência no Brasil”, diz Joyce Lira, professora de direito da UVA (./Divulgação)

Mas, ao completar 18 anos, o jovem que foi sucessivamente exposto nas redes quando criança tem o direito de processar os responsáveis legais de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. “O excesso pode ser questionado ao cruzar a linha do razoável”, lembra Joyce Lira, professora de direito da Universidade Veiga de Almeida (UVA).

Camilla Porto e seu filho Luca, em casa, na Freguesia, em Jacarepaguá. Rio de Janeiro RJ. Foto de Daniela Dacorso.
Camilla Porto: “Prazer, sou a mãe que todos elogiam, mas ninguém quer ser”, essa é a apresentação do perfil da mãe de Luca, 7, que nasceu com paralisia cerebral (Daniela Dacorso/Veja Rio)

Sob o ângulo cheio do copo, saudáveis pontes são criadas no ambiente virtual. Para várias famílias, as redes se convertem em espaços de acolhimento, trocas e até da transformação da própria realidade, como aconteceu com Camilla Porto, 30 anos, moradora da Freguesia, que encontrou na internet um canal para falar dos desafios da maternidade atípica após o nascimento do filho Luca, 7, com paralisia cerebral.

À base de leveza e humor, seus relatos se tornaram referência para outras mulheres. “Tenho histórias de mães que saíram de quadros de depressão ajudadas por conversas que eu estimulo ali”, diz Camilla. “Vídeos do Luca interagindo através de um tablet mostram para outras famílias que há possibilidades para a criança com deficiência”, acrescenta.

Para dar uma força nas despesas do tratamento do menino, além das publis, Camilla aprendeu a preparar feijoada com um amigo e entrega o prato em regiões diversas da cidade. Seguidores de diferentes estados pagam pela refeição para destinar a moradores de rua cariocas. Há outros casos edificantes sobre os quais vale lançar luz.

“Já ouvi pessoas dizendo que tinham preconceito com adoção, mas passaram a encarar de outra forma ao ver nosso dia a dia com as meninas. Famílias com crianças com deficiência estão passeando mais”, comemora Renata Darzi, que em abril encarou uma tirolesa com Malu no colo. A menina adorou a aventura.

Em meio à delicadeza de exibir crianças em tão tenra idade, é para lá de recomendado atentar para o que elas sentem. “Já vi situações em que a criança vira o rosto ou empurra o celular. Ignorar esses sinais pode impactar negativamente a forma como ela se percebe e se relaciona”, alerta a psicóloga Luciana Pessôa.

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Filhos à vontade: a atriz Juliana Alves conta que a filha, Yolanda, 8, pede para gravar vídeos com ela (Mariana França/Divulgação)

O importante é manter o bom senso e redobrar os cuidados. No ar na novela global Três Graças, a atriz Juliana Alves, 44 anos, atendeu o pedido da filha, Yolanda, de 8, e, juntas, explodiram o “fofurômetro” dançando Viro Vira Virou, música que se tornou trend entre os pequenos.

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Camila Pitanga (à dir.): atriz fez sua primeira campanha de Dia das Mães, para a Riachuelo, com Antonia só agora (./Divulgação)

Tem gente que prefere esperar a prole ganhar asas. Apesar de sempre ter falado sobre maternidade, só agora Camila Pitanga, 48 anos, estreou uma campanha publicitária ao lado da filha, Antonia, de 17. Mãe e filha posaram para a Riachuelo. “O set de fotografia foi algo novo para a gente e possibilitou um registro afetivo muito divertido”, diz.

As experiências, quando contadas com franqueza e graça, costumam gerar imediata identificação, dada a universalidade do tema. “Não existe receita de bolo nem modelo de maternidade mais certo do que o outro”, pondera Fernanda Gentil. “Ninguém sabe o peso que a outra mãe carrega”, arremata Bárbara Bibelu.

Ser mãe, como é bem sabido, vai muito além de padecer no paraíso, mas é experiência intensa e única — e as câmeras do celular estão aí para provar.  

Fernanda Gentil e familia na neve credito arquivo pessoal
Fernanda Gentil: o filho mais velho, de 18 anos, está vivendo uma fase tímida, que ela respeita: restam as fotos com capacete de esqui (./Arquivo pessoal)

Mães s.a. 

  • A rotina com os filhos ganha escala, atrai marcas e movimenta cifras cada vez mais altas 
  • Mercado em expansão O Rio já soma cerca de 147642 influenciadores, segundo a Influency. me, e 21037 falam sobre maternidade. 
  • Consumo guiado pela rede Quase metade dos consumidores afirma já ter comprado por indicação de criadores de conteúdo. 
  • Publis valorizadas Campanhas com perfis consolidados partem de 25 000 reais e podem escalar conforme alcance e engajamento. 
  • Boom pós-pandemia O isolamento acelerou a migração para o digital e ampliou o interesse por narrativas reais. 
  • Marcas na disputa Alimentação, educação, streaming e varejo estão entre os setores que mais investem no segmento. 

 

Manual do caos 

Esqueça a perfeição milimetricamente editada — o improviso é o que faz viralizar nas redes 

  • Perrengue sem edição Birra no meio da rua, atraso crônico, noites maldormidas e exaustão acumulada. 
  • Rir de si mesma Humor e autoironia transformam o desgaste em narrativa leve e potente. 
  • Bastidores expostos Adaptação escolar, culpa e dilemas que raramente cabiam no feed idealizado. 
  • Vida como ela é Rotina crua, com erros, acertos e contradições — sem filtro nem roteiro.
  • Audiência que Participa Caixas de pergunta, comentários e desabafos viram pauta e alimentam novos conteúdos.  
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