Potência cultural, São Gonçalo luta para fugir do estigma de “cidade-dormitório”
Ao anunciar que não pretende despachar de sua cidade Natal, o governador eleito, Douglas Ruas (PL), joga os holofotes sobre o segundo maior município do estado
Assim que o resultado das eleições para o governo do estado foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 10 de outubro, o policial civil e ex-presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), 37 anos, anunciou que não se mudará para o Palácio das Laranjeiras, residência oficial do líder do executivo estadual. Ele prefere seguir em São Gonçalo, sua cidade natal, projetando um holofote inédito sobre o segundo município mais populoso do território fluminense — são quase 1 milhão de habitantes, segundo estimativa do IBGE, atrás apenas da capital, que está a 25 quilômetros de distância dali. “A gente faz parte do Rio real, não do Rio da novela”, declarou o político, aproveitando para criticar a negligência de outros alcaides com a Baixada e o Leste Metropolitano. Importante centro comercial, a localidade ainda carrega o estigma de “cidade-dormitório”. Para o historiador Rui Aniceto, professor da Uerj, o conceito não dá conta da vida que se desenvolve ali. “Comércio, praças, escolas e campos de futebol são exemplos de espaços que contribuem para o sentimento de pertencimento”, explica. Segundo ele, são esses lugares de convivência, que dão identidade e dinamismo à cidade, que ajudam a mostrar que São Gonçalo é muito mais do que um lugar de passagem entre casa e trabalho.
A decisão de Ruas reforça o orgulho gonçalense e chama atenção para o contraste entre a visibilidade da capital e a realidade de grandes centros periféricos, que ainda enfrentam problemas históricos de infraestrutura e serviços públicos. Prefeito desde 2021, Capitão Nelson (PL), pai de Ruas, elaborou, em parceria com a ONU-Habitat, o Plano Estratégico Novos Rumos, e defende os avanços que vêm sendo feitos. “A gestão é marcada por obras de drenagem, saneamento e pavimentação em bairros antes desassistidos. O planejamento e as alianças permitiram transformar a cidade, embora ainda haja muito a melhorar”, reconhece o governante. Em cinco anos, o número de exames agendados no Centro de Imagens e Especialidades (Ciesg) foi quadruplicado, enquanto o Hospital do Câncer e do Coração (HCCOR) realizou mais de 162 000 procedimentos de alta complexidade. Também estão entre as intervenções recentes a implantação do corredor Mobilidade Urbana Verde Integrada (Muvi), com 18 quilômetros. A experiência dos moradores, porém, revela a distância entre as obras e as necessidades que persistem. “O saneamento continua precário, o esgoto é despejado sem tratamento no rio e, em períodos de chuva intensa, os transbordamentos levam lama para dentro das casas”, lamenta o comerciante Wilson Vieira, morador do Barro Vermelho.
Enquanto enfrenta problemas estruturais, São Gonçalo consolida uma vocação artística, desafiando as narrativas tradicionais sobre as periferias. A economia criativa ganha força em iniciativas como a Fábrica de Artes e Cidadania (FAC), fundada pelo grafiteiro Fabio Ema parar formar jovens artistas; e o Cidade Ilustrada, que espalhou 97 painéis de grafite pelo perímetro urbano, celebrando a identidade negra. “Os alunos que mais se destacam nas oficinas do Cria SG, projeto da prefeitura, são contratados para desenvolver os murais, e semanalmente há visitas de estudantes aos corredores culturais”, diz Marcelo Eco, diretor e curador do Cidade Ilustrada. “São Gonçalo tem identidade cultural única, construída por diferentes gerações e expressa na musicalidade e nas formas de vivenciar a arte”, opina o cantor e compositor Dico, que idealizou o documentário São Gonçalo é Meu Ponto de Partida (2024), com depoimentos de artistas locais. A valorização da cultura contemporânea, porém, contrasta com as dificuldades para preservar o passado. O Palacete do Mimi, opulento casarão de 1917 que sediou salões modernistas, acabou em ruínas antes de ser demolido. “Essa perda não é um caso isolado. Outros imóveis históricos foram vítimas do descaso”, aponta Rafael Navarro, professor do departamento de ciências humanas da Uerj em São Gonçalo.
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As origens do município remontam ao século XVI, quando Gonçalo Gonçalves recebeu terras na região, estabeleceu uma fazenda e construiu uma capela dedicada ao santo que batizaria a cidade. A Igreja Matriz de São Gonçalo de Amarante é um dos marcos dessa ocupação. Outra relíquia é a Fazenda Colubandê, erguida no século XVII pelos jesuítas e hoje tombada. No século XIX, a região se destacou pela atividade agrícola e por seus numerosos engenhos. Já nas décadas de 1940 e 1950, viveu um surto industrial que lhe rendeu o apelido de Manchester Fluminense, cidade inglesa que foi o berço da Revolução Industrial. Hoje sob administração da Marinha, a Ilha das Flores, que pertence ao município, foi onde funcionou, entre 1883 e 1966, a primeira Hospedaria de Imigrantes do Brasil, por onde passaram mais de 1 milhão de estrangeiros. A região também ocupa lugar central na história da umbanda, que teria nascido ali. O declínio industrial, a partir dos anos 1970, no entanto, contribuiu para consolidar o estigma de cidade-dormitório e, hoje, o varejo e a prestação de serviços se destacam na geração de empregos.
Ex-Manchester fluminense
Números atuais da cidade, que já abrigou o parque industrial mais importante do estado
959 977 habitantes
248,2 km² extensão do território
25 700 reais PIB per capita registrado em 2023
Paralelamente aos desafios estruturais e econômicos, a segurança pública permanece no centro dos debates. Segundo dados do Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), São Gonçalo figura entre os municípios com elevados índices de violência letal na Região Metropolitana, com uma taxa aproximada de 41 homicídios por 100 000 habitantes, cenário associado a disputas territoriais e à atuação do crime organizado. Diante dessa situação, a gestão municipal tem adotado medidas voltadas à segurança, incluindo a instalação de câmeras com tecnologia de reconhecimento facial e a atuação da Ronda Ostensiva Municipal Urbana (Romu), além de estar revitalizando áreas como a Praia das Pedrinhas. A prefeitura criou ainda o Parque RJ Nosso Sonho, no antigo Piscinão do Boa Vista, com 35 000 metros quadrados. Estão nos planos também o Museu da Umbanda e um inventário dos patrimônios material, imaterial e natural do município. Superar a imagem negativa requer aliar a valorização da memória a investimentos em serviços públicos.
De SG para o mundo
Famosos nascidos no município
BLACK ALIEN Gustavo Ribeiro, lendário rapper e compositor, ex-integrante do Planet Hemp e ícone do hip-hop nacional.
VINI JR. Atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira, cria do bairro do Mutuá.
OS GAROTIN Grupo musical formado por Léo Guima (Leonardo Guimarães), Anchietx (Lucas Anchieta Gonzaga Ribeiro) e Cupertino (Victor Cupertino), vencedor do Grammy Latino de melhor álbum pop em língua portuguesa em 2024.
CARLOS FERREIRINHA empresário do mercado de luxo, foi o mais jovem presidente da Louis Vuitton Brasil, aos 30 anos.
OROCHI Flávio Cesar de Castro, rapper e empresário de sucesso, revelado nas batalhas de rima de São Gonçalo.
CLÁUDIO ZOLI cantor e compositor de soul e MPB, autor de hits como Noite do Prazer.
LUCAS BEBÊ Lucas Nogueira, jogador de basquete com passagem pela NBA e pela Seleção Brasileira.
BUCHECHA Estrela do funk e do pop que marcou os anos 1990 e 2000 no cenário nacional. Sua dupla, Claudinho (1975–2002), também era cria da cidade.
CLÁUDIA LEITTE Cantora de axé e pop.






