Sanfona invade a cena musical carioca dos palcos aos eventos de samba e jazz
Presença forte em shows como o de Martinho da Vila e Mart’nália e no projeto Dominguinho, o instrumento se firma na programação além do São João
A turnê Martinho da Vila e Mart’nália — Pai e Filha reúne uma banda de respeito. Na estreia, em maio, no Vivo Rio, a dupla enfileirou sucessos como Disritmia e Ex-Amor, e o público não conseguiu ficar sentado, apesar dos lugares marcados. Nem mesmo Martinho, no auge de seus 88 anos, que insinuou se acomodar numa poltrona, ficou parado. Com um repertório farto de sambas animados, os dois abriram a roda e saíram de cena para dar vez ao músico José Maurício Horta, mais conhecido como Kiko Horta, que arrebatou o público com um solo instrumental de sanfona. “Martinho me convidou para fazer uma homenagem à música do Nordeste”, explicou no microfone antes de embalar clássicos como Asa Branca, de Luiz Gonzaga (1912- 1989), e Eu Só Quero um Xodó, de Dominguinhos (1941-2013). O sambista, aliás, foi quem deu régua e compasso a Horta, provando que a sanfona vai muito além do forró. “Comecei a entender como era fazer um show grande com ele. Martinho fala pouco, mas tem um magnetismo fantástico”, observa Horta, que completa 50 anos nesta sexta (7), trinta dedicados ao acordeon.
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Passada a temporada junina — a despeito de alguns arraiás que teimam em adentrar o calendário de agosto —, é possível notar a onipresença do instrumento composto por um fole e dois teclados em diversos eventos musicais pela cidade. Seja na rua, no bar ou no baile. “No forró, a sanfona aparece o tempo todo, é da linguagem do gênero. Mas existe um jeito carioca para esse som, que alterna pelo samba, gafieira, bossa nova, jazz, choro e jongo”, observa Horta, que é diretor do bloco de Carnaval Cordão do Boitatá e já gravou participações em discos de Zeca Pagodinho, Baco Exu do Blues e Edu Lobo. No último ano, ele lançou seu primeiro álbum, Sanfona Carioca. Vencedor de dois Grammy Latinos e dois Prêmios da Música Brasileira ao lado de João Gomes e Jota.pê com o projeto Dominguinho, o sergipano Mestrinho, 38, é um dos responsáveis por espalhar o som característico em palcos cariocas mais robustos. “Tem muito sanfoneiro no Rio. É um instrumento universal, com grande sutileza e capacidade de transitar em qualquer gênero”, observa o músico, que também já excursionou com Gilberto Gil.
Endereços ligados tradicionalmente ao samba, como a Pedra do Sal, o Jurema Brasa e o Capiberibe 27 no Morro do Pinto, também têm revezado a batucada com a melódica batida do instrumento. O carioca David Rosenblit, 38, se juntou a uma vocalista e um percussionista para criar o Trio Salamandra há seis meses. A brincadeira é tocar músicas populares em ritmo de forró, como Sujeito de Sorte, de Belchior (1946-2017), e Uma Noite e Meia, de Marina Lima. “A sanfona é muito versátil. Posso tocar de Beatles a Pabllo Vittar”, atesta Rosenblit, que faz musculação quatro vezes por semana para aguentar firme os 10 quilos do acordeon. Ele também bate ponto numa roda de música latina no Bip Bip, em Copacabana, onde costuma tocar bolero. Os ritmos das Américas também permeiam o repertório da Tocaia, banda formada por quatro mulheres. “O instrumento era predominantemente masculino, mas isso vem mudando e estamos ganhando visibilidade. Faço parte de um processo de transformação para as próximas gerações”, acredita Paloma Ronai, 32, da Tocaia.
O coro anda tão forte que o instrumentista Marcelo Caldi formou um conjunto musical só de sanfoneiros: a Orquestra Sanfônica. Composta por 22 acordeonistas de todas as idades — a maioria, mulheres —, além de trazer outros instrumentos como rabeca, viola e itens de percussão, a trupe é resumida pelo fundador como “a cara do Brasil”. O grupo já se apresentou em forma de concerto de música clássica na Sala Cecília Meireles e na escadaria do Theatro Municipal, com repertório que passeia de Mozart a Pixinguinha. “É inédito reunir vários acordeões numa única formação em terras cariocas”, afirma o músico de 46 anos. “Nossa missão é tocar em lugares tradicionais, como feiras, praças e festas, respeitando a origem desse gênero musical, que nasceu para ir onde o povo está. Ver o instrumento brilhando é, sem dúvida, uma novidade a ser comemorada”, celebra Caldi. O Rio descobriu que a sanfona cabe em qualquer palco — e em quase todo ritmo.
Muito além do forró
História e curiosidades sobre o instrumento
Sons Milenares. A primeira versão surgiu na China, em 2700 a.C., combinando um órgão portátil de boca com palhetas de bambu.
Patente Europeia. No início do século XIX, o alemão Christoph Ludwig Buschmann criou um modelo com fole, adaptado e patenteado como acordeon pelo austríaco Cyrillus Demian, em 1829.
É coisa nossa. A sanfona foi trazida ao Brasil por imigrantes alemães e italianos em meados do século XIX.
Anatomia Melódica. Comparado a um pulmão, o fole no centro produz o som, e há dois teclados nas extremidades. Numa lateral se dão a melodia e o timbre. Na outra, está um teclado com até 120 botões, de onde saem as notas e os acordes.
Em cada lugar, um nome. O instrumento é o mesmo, e a diferença de nomenclatura é regional e cultural. No Nordeste, é sanfona. No Sudeste, atende também por acordeon. Já no sul, chama-se gaita





