Rio tem apenas dois sanitários públicos para cada 100 000 habitantes
Cidade deixa moradores e turistas na mão na hora de uma necessidade básica
No filme Dias Perfeitos (2023), de Wim Wenders, Hirayama, papel de Kôji Yakusho, trabalha limpando os banheiros do Tokyo Toilet Project, no Japão. Moderníssimas, algumas instalações têm paredes de vidro inteligente que ficam opacas quando trancadas, para dar privacidade ao usuário, e outras dispõem de cadeirinhas infantis para pais e mães terem mais tranquilidade e segurança na hora do aperto. Encontrar no caminho um desses equipamentos — ou mesmo um simples e limpo sanitário — é pura ficção no Rio. O que (não) se vê no dia a dia por aqui foi exposto numa pesquisa realizada pela empresa britânica QS Supplies: a capital fluminense conta com apenas dois toaletes públicos disponíveis nas ruas para cada 100 000 habitantes, o que deixa a cidade na sexta posição entre as metrópoles turísticas onde é mais difícil encontrar essa “facilidade” em todo o mundo. Ainda piores são as situações de Cairo, no Egito, Buenos Aires, na Argentina, Ho Chi Minh, no Vietnã, Cidade do México e Joanesburgo, na África do Sul. Na outra ponta, Zurique, na Suíça, Lisboa, em Portugal, e Sidney, na Austrália, são os locais mais amigáveis a quem busca aquele alívio.
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Nas nossas praias, a situação muda um pouco de figura, mas é preciso pagar 3,80 reais para usar um dos 145 sanitários espalhados por quiosques e postos de salvamento administrados pela concessionária Orla Rio. Uma salvação, já que, como frisa a prefeitura, banheiros não são uma política pública, restando aos cidadãos e visitantes pedir favor em restaurantes ou postos de gasolina. Apesar disso, o município cuida da manutenção e limpeza das casas de banho de grandes parques, como Catacumba, na Lagoa, Madureira, Deodoro e Rita Lee, na Barra Olímpica. A última tentativa de espalhar mictórios a céu aberto foi o programa de Unidades de Fornecimento de Alívio (UFA), lançado em 2013 e “descontinuado” logo depois. O modelo não garantia muita privacidade e enfrentou forte resistência, porque concentrava um forte odor, era alvo de vandalismo e não tinha o cuidado adequado. “Iniciativas desse tipo não vingam”, atesta o profissional de marketing Thiago Maia, especialista no assunto. Em 2018, ele criou um perfil no Instagram de nome pouco polido, embora objetivo: Onde Cagar no Rio. “Paguei um motoboy e saí pela cidade fotografando as opções que encontrei”, relembra ele, que mapeou 428 endereços, entre hospitais, igrejas, supermercados e shoppings. “Até a Xuxa comentou na página”, orgulha-se Maia, que em outubro lança um app colaborativo com a mesma finalidade. A ideia é avaliar os locais seguindo critérios como ter papel higiênico, descarga funcionando e sabonete. “Agora que serei pai, vou passar a rastrear fraldários também”, planeja.
Crianças, idosos e quem trabalha nas ruas, como entregadores, são os principais reféns da embaraçosa circunstância, que ganha proporção ainda maior em eventos de grande porte. No Carnaval, os banheiros químicos obrigatórios pela legislação estadual não dão vazão a tanto sufoco. Não por acaso, desde 2001 urinar nas ruas é proibido por lei municipal, sob pena de multa, hoje de 844,94 reais. No entanto, a prefeitura não informa quantas pessoas já foram penalizadas. A situação também pega de calças curtas os visitantes. Só em 2025, 12,5 milhões de turistas passaram por aqui, sendo 2,1 milhões estrangeiros. “Banheiro público faz, sim, parte da estrutura de uma cidade turística. É importante que esse item esteja entre as prioridades do poder público, porque impacta diretamente a experiência das pessoas”, observa Luiz Strauss, presidente-executivo do Visit Rio, lembrando que o serviço beneficia os moradores por consequência.
A questão chegou à academia. No artigo O Banheiro Como Microcosmo, a historiadora Miriam Giberti Páttaro parte do case de Tóquio para destacar o que chama de microinfraestruturas urbanas. “Ao transformar um equipamento banal em experiência significativa, o projeto afirma o potencial da arquitetura, mesmo em pequena escala, de traduzir valores urbanos essenciais e fortalecer a relação entre indivíduo e cidade”, analisa ela, chamando a atenção para o papel ativo na promoção de dignidade e acolhimento em espaços coletivos. “Ficamos orgulhosos ao ver que quase não há registros de vandalismo ou depredação nas nossas estruturas. Isso demonstra que, quando entregamos um serviço de excelência, a população abraça e cuida junto”, afirma João Marcello Barreto, presidente da Orla Rio. Se organizar direitinho, todo mundo se alivia sem sufoco.
Ninguém passa vontade
Exemplos de estruturas internacionais
Japão. Na capital do país, o Tokyo Toilet é um projeto de requalificação urbana assinado por dezesseis arquitetos e designers de renome mundial, como Tadao Ando, Toyo Ito e Kengo Kuma. Todos contam com assentos tecnológicos com bidê e aquecimento, além de adaptações para PCD.
França. Conhecidas como sanisettes, as mais de quatrocentas cabines automáticas de Paris são gratuitas. Elas têm um sistema de autolimpeza que entra em ação após cada uso. Para entrar, basta apertar um botão ao lado da porta. Em pontos turísticos como a Avenida Champs Elysées há também unidades “de luxo”, custando cerca de 1,50 euros.
Holanda. Em Amsterdã, homens podem usar mictórios disponíveis nas calçadas. Gratuitos, os equipamentos são alvo de críticas pela falta de privacidade e por atenderem exclusivamente ao público masculino.







