Clique e assine por apenas 4,90/mês

Relógio da Central do Brasil é pichado com frase de poeta russo

Festejado por pichadores como feito heroico, o emporcalhamento do bem tombado é crime passível de cadeia e multa — além de trazer um recado político indecifrável para o resto da sociedade

Por Pedro Tinoco - Atualizado em 5 dez 2016, 11h30 - Publicado em 13 fev 2016, 00h00

A ideia de jerico não era nova, segundo ele conta no vídeo espalhado pelas redes sociais, gravação com cenas pouco recomendadas para quem sofre de acrofobia. Também não era inédita. Vinga, apelido de uma lenda entre os pichadores cariocas nos anos 90, ganhou fama por emporcalhar duas vezes este mesmo marco da cidade. O protagonismo no terceiro atentado de spray ao relógio da Central do Brasil, realizado no último dia 5, coube a Kadu Ori. Esse o nome orgulhosa e repetidamente assinado em uma das quatro faces brancas do relógio e também em partes do alto da torre de 134 metros inaugurada em 1943. Completaram o serviço uns desenhos chinfrins e a frase “Nossa pátria está onde somos amados”, de Mikhail Lermontov (1814-1841), um dos maiores poetas russos do seu tempo. Talvez pelas graças frouxas do Carnaval — além da mesma inépcia que permitiu o avanço do rapaz, sem ser importunado, escada acima, por 28 andares do prédio histórico onde funcionam as repartições das secretarias de Administração Penitenciária e de Segurança Pública do Estado —, a pichação nas alturas ainda estava à vista na semana passada. Sua remoção deve ser concluída na segunda (15). Curiosamente, o jovem, que depois da escalada foi glorificado por seus pares, também aparece na internet como autor de obras de belo colorido nos morros da Providência e dos Prazeres. Em nome de princípios confusos, cometeu crime contra um bem tombado, passível de multa e cadeia, conforme determina a lei. Foi identificado pela polícia, mas os responsáveis pelo caso avaliaram que “o delito praticado é de menor potencial ofensivo e não cabe prisão ao infrator”. Para quem não consegue enxergar um ideal por trás do ato de vandalismo, ou mesmo o benefício possível da aventura para a causa da galera do xarpi (sim, eles se comunicam de trás para a frente), a sujeira no topo da Central parece algo tão estúpido quanto o duelo de pistolas em que o russo Lermontov se meteu — e do qual saiu morto, aos 26 anos.

Publicidade