Regina Casé: “Ninguém deveria aprender pelo sofrimento”

Nos palcos com Viva! Vida!, atriz reflete sobre a emergência climática, as bolhas digitais e as experiências que transformaram sua forma de enxergar o mundo

Por Renata Magalhães 12 jun 2026, 10h22
Regina Casé - © Carlos Airó Nascimento 0944.jpeg
Regina Case: “A Benedita acreditava que nunca poderia ser atriz e eu naturalizava essa limitação, sem perceber que era capacitismo” (Carlos Airó Nascimento/Divulgação)
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Mesmo durante os vinte anos em que exercitou a faceta de apresentadora, Regina Casé sempre se considerou atriz. Cria do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, foi responsável — ao lado de nomes como Evandro Mesquita e Luiz Fernando Guimarães — por revolucionar a comédia nacional nos anos 1970. O nome da trupe, aliás, veio de uma piada interna que tinha com o pai, o pioneiro da TV Geraldo Casé: era um código para saírem de algum lugar quando alguém chato chegava.

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Exímia comunicadora, fez história nas novelas globais Cambalacho (1986) e Amor de Mãe (2019), e animou as tardes brasileiras entre 2011 e 2017 com o fenômeno de audiência Esquenta!. Outro programa de sucesso foi Um Pé de Quê? (2001-2017), cujos episódios estão disponíveis no Globoplay e em reprise no Canal Futura. Ali, mergulhou na questão ambiental, que também permeia a peça Viva! Vida!, com sessões lotadas no Sesc Ginástico.

Escrito pelo marido, Estêvão Ciavatta, e dirigido por ele em parceria com Daniela Thomas, o solo marca sua volta ao teatro, em uma divertida reflexão sobre o planeta em que vivemos. Em conversa com VEJA RIO, a artista fala sobre outras causas que lhe são caras e conta as lições aprendidas em situações trágicas.

Por que decidiu retornar aos palcos com essa temática? Grande parte dos meus trabalhos nasce de curiosidades, são assuntos que quero entender melhor e viver de perto. Foi assim com o programa Um Pé de Quê e agora, com o espetáculo, busco refletir sobre o mundo e as mudanças climáticas que muita gente parece não levar a sério. Mas não tem um caráter didático. É engraçado, porque a minha ignorância leva a perguntas absurdas, que a plateia deve compartilhar. 

Quando a questão ambiental despertou em você? Ela atravessa quase tudo o que eu faço, desde os anos 1990. As viagens pela Amazônia me fizeram entender a grandiosidade da natureza e o risco da destruição que estamos causando. Meu marido, Estêvão, vive isso de forma ainda mais intensa, trabalhando diretamente com povos indígenas — que são nossos zeladores e para quem deveríamos pagar uma fortuna por nossas florestas não terem acabado até hoje. 

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A peça também aborda a religiosidade. Como define a sua fé? Apesar do sincretismo ser fruto de uma história cruel de colonização, ele resultou num encontro de culturas que é valioso. Não jogo fora nada do que aprendi na escola católica; se conheço um pastor que prega o bem e não está ligado só em dinheiro, vou encantada ao culto; assim como tenho amigos judeus e estou sempre em sinagogas. O candomblé entrou na minha vida nos anos 1980, quando recebi o recado de que me queriam no terreiro. Fiquei morrendo de medo e, quando cheguei lá, a mãe de santo só queria conhecer a Tina Pepper (risos), de Cambalacho. É onde me sinto mais perto do céu. 

O texto de Viva! Vida! atravessa bilhões de anos até chegar ao momento hiperconectado de hoje. Tem uma relação saudável com o digital? Como a maioria, me sinto meio escravizada pelo celular. Fora que a comunicação ficou mais limitada com as bolhas criadas pelo algoritmo. Tenho vocação para falar com pessoas diferentes entre si e, na internet, precisamos escolher um nicho para crescer em seguidores e visualizações. Se quero trazer um assunto fora do esperado, logo avisam que “meu público” não vai gostar. Isso é empobrecedor. Mas continuo, porque a riqueza está justamente em circular entre mundos diferentes e fazer pontes entre eles. Esse é o sentido de liberdade.  

O que mais te emociona nos brasileiros? Sempre me intrigou ver indivíduos em situações duríssimas, às vezes miseráveis, e ainda assim conseguindo cantar, dançar, cozinhar e acolher os outros. Luiz Antonio Simas traduziu isso lindamente ao dizer que a festa não nasce da alegria, mas da necessidade de sobreviver à dor. É como se inventassem espaços onde todos podem ser reis e rainhas, felizes e livres. Isso me toca profundamente, porque o sofrimento faz parte da existência e não dá para fugir dele. 

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De que forma a deficiência da sua filha e o acidente do seu marido te moldaram? Fiquei bem cascuda, mas acho que ninguém deveria ter que aprender pelo sofrimento. A lição é duvidar da nossa mente catastrófica. A gente pensa que não tem mais como seguir depois de certa situação, mas é possível. O Estêvão só começou a melhorar quando mudou a pergunta de “Por que eu?” para “Por que não eu?” — ao conhecer pessoas no tratamento que obviamente também não mereciam passar por aquilo. Isso não nos livra da dor, mas muda o jeito de lidar com ela. 

Você foi pioneira em discursos sobre diversidade e representatividade. Como observa esses avanços? Ter uma filha surda e um filho preto transformaram minha percepção. A Benedita acreditava que nunca poderia ser atriz e eu naturalizava essa limitação, sem perceber que era capacitismo. Hoje, vê-la no cinema e no teatro, inspirando outras famílias, é uma das coisas mais bonitas. Com meu filho, a questão racial deixou de ser uma ideia abstrata. Percebo diariamente como ele é olhado e tratado de forma diferente. Mas os avanços são enormes. Cresci sem ver pretos ocupando espaços de destaque, e isso mudou nas universidades, na TV e na publicidade. 

Como criar um menino numa época de tanta misoginia declarada? Antigamente, as pessoas até podiam ser machistas e racistas, mas havia um constrangimento em assumir isso publicamente. Com o retrocesso conservador, muita gente ostenta esse comportamento sem vergonha. Por isso, converso e tento mostrar a ele que o problema não está só nas grandes violências, mas nas pequenas atitudes do dia a dia. Chamo a atenção para situações que são reproduzidas sem perceber e digo que não é algo natural, mas uma construção cultural e uma forma de dominação que precisa ser questionada.

 Ao se sentir assoberbada, qual o seu respiro? Quando preciso desligar da velocidade das coisas, da pressão e desse excesso de informação, procuro o mar. Gosto de ir para lugares mais tranquilos, em Mangaratiba ou Ilha Grande. A música também funciona como cura para mim. Às vezes estou exausta, mas basta aparecer um samba entre amigos que tudo muda. Já aconteceu de sair cansadíssima de um ensaio e acabar dançando a noite inteira. Isso me recarrega de verdade. 

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