Quilombos urbanos cariocas ganham reconhecimento e visibilidade

Tombamento do Quilombo Ferreira Diniz e o calendário cultural em territórios semelhantes abrem caminhos para que cariocas conheçam a história da própria cidade

Por Camila Guanabara 16 out 2026, 07h00
Num bairro movimentado da Zona Central fica o Quilombo Ferreira Diniz: “Nossos saberes ajudam a proteger a história do B
Resistência urbana: quilombo Ferreira Diniz foi o primeiro no Rio a ser tombado pelo Iphan (Dani Dacorso/Divulgação)
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Ao subir uma escadaria em plena Rua Candido Mendes, na Glória, Zona Central, o cheiro de feijão no fogo guia o visitante até um quintal onde natureza, risadas de crianças brincando e conversas animadas se misturam ao samba que ecoa de um casarão antigo. Trata-se do Quilombo Ferreira Diniz, que em setembro se tornou o primeiro espaço de resistência negra no Rio de Janeiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. A comunidade reúne cerca de setenta remanescentes das famílias Ferreira e Diniz, cujas trajetórias remontam aos anos 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados em Minas Gerais, passou a viver no local com Antônio Dias Pessanha, seu marido. Olívia Carvalho Diniz chegou por lá mais ou menos na mesma época e, dali em diante, sucederam-se gerações que preservam memórias, tradições e vínculos numa das áreas mais movimentadas do Rio. “O tombamento estabelece um compromisso do Estado de reconhecer que a Constituição protege comunidades quilombolas. Territórios como esse têm direito de ter paz”, afirma a presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Ferreira Diniz, Érida Ferreira. “Nossos saberes ajudam a proteger a história do Brasil.”

Mulher negra de cabelos cacheados, com expressão séria, usando um colar colorido e blusa branca, braços cruzados, em frente a uma parede com marcas de mãos coloridas e uma janela verde de madeira. Há plantas e girassóis ao redor
Memória e ancestralidade: Érida Ferreira afirma que os quilombos protegem a história brasileira (./Divulgação)

O tombamento do Ferreira Diniz é resultado de uma mobilização que começou em 2020, quando a especulação imobiliária ameaçou ocupar o local histórico e a comunidade, então, se organizou para correr atrás dos próprios direitos. Toda sexta, acontece por lá a feijoada da Tia Cida, que atrai cariocas e turistas interessados numa história que pouca gente conhece. Rodas de capoeira complementam a programação do quilombo, que também promove palestras e visitação ao longo do ano.

Outros lugares semelhantes também capricham no calendário de atividades abertas ao público. O Quilombo do Camorim, em Jacarepaguá, tem oficinas de jongo e capoeira, trilhas e visitas educativas. Na Lagoa, o Quilombo Sacopã preserva sua história e cultura com o Samba do Sacopã, aos sábados, que une batucada e feijoada. Palestras e conversas com pensadores negros acontecem com frequência. A movimentada Pedra do Sal reúne rodas de samba e manifestações ligadas à cultura negra no coração da Pequena África, Zona Portuária. O point fica lotado nas noites de segunda e já recebeu visitantes ilustres como a cantora espanhola Rosalía e o ator da série da Netflix Sex Education Ncuti Gatwa. “É emocionante frequentar um lugar pulsante de vivência negra do passado e do presente”, avalia a estudante de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Camille Dantas, que conheceu o Ferreira Diniz através de amigos e está sempre por lá.

Homem negro sorridente, de barba e bigode, usando boina preta, terno preto com lapela de cetim, camisa branca de bolinhas pretas e lenço branco no bolso, em pé contra fundo cinza escuro
Visita internacional: Ncuti Gatwa,da série Sex Education, já foi à pedra do Sal (Getty Images)
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A cantora Rosalía (acima) e ncuti Gatwa (à esq.), da série Sex Education, já foram à pedra do Sal: a pequena África é um
Point de sucesso: Rosalía curtiu um samba na Pedra do Sal em dezembro do ano passado (Getty Images)

O Rio de Janeiro foi o maior porto de entrada de pessoas escravizadas das Américas e a maior metrópole escravista da história moderna. Preservar quilombos significa ir além da proteção de edificações ou limites territoriais, como aponta, em nota, o Iphan. “No caso do Quilombo Ferreira Diniz, o Iphan reconhece a identidade, a trajetória e os modos de organização da comunidade, preservando a relação entre o espaço e sua história, marcada por vínculos familiares e comunitários, práticas religiosas e manifestações culturais. O reconhecimento também contribui para ampliar a compreensão sobre a diversidade das trajetórias quilombolas.” O órgão acrescenta que pedidos de outros cinco quilombos fluminenses estão sendo analisados pela equipe técnica e há a perspectiva de que, progressivamente, mais territórios de relevância histórica e cultural também recebam a proteção adequada. A equação, portanto, é conciliar a manutenção das tradições e da história com a dinâmica de concentração populacional e as constantes demandas por infraestrutura.

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Visitar para preservar

A rota dos quilombos urbanos do Rio

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Ferreira Diniz. Primeira iniciativa tombada pelo Iphan, o local promove feijoada e roda de samba nas tardes de sexta. Há também capoeira, palestras e visitação ao longo do ano. Rua Candido Mendes, 320, Glória.  @quilomboferreiradiniz.

Sacopã. A comunidade está encravada desde 1929 em uma das áreas mais valorizadas da Zona Sul. Aos sábados, rola roda de samba com feijoada e transmissões de jogos de futebol. Rua Sacopã, 250, Lagoa. @quilombosacopa.

Camorim. Em meio à Mata Atlântica, o espaço organiza oficinas de jongo e capoeira, além de trilhas e tours educativos. Estrada Camorim, 922, Jacarepaguá. @quilombocamorim.

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Pedra do Sal. O território da Pequena África está associado ao surgimento do samba e ao florescimento da cultura negra na cidade. As rodas de batucada ficam especialmente lotadas nas noites de segunda, mas também tem fervo às sextas e sábados. Rua Tia Ciata, s/n, Saúde. @pedradosaloficial

Multidão de pessoas diversas em uma rua iluminada por luzes quentes, com um muro grafitado e escadas ao fundo, em um evento noturno
Pedra do Sal: localizado na Pequena África é o point ideal para uma boa caipirinha e samba (Alexandre Macieira/Riotur)
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Multidão em protesto na rua, com pessoas de costas e braços erguidos, e capas da revista Veja com manchetes sobre política e notícias, promovendo jornalismo de qualidadeMultidão de pessoas de costas, com braços erguidos, em uma rua urbana com prédios altos e árvores. À direita, várias capas da revista Veja sobrepostas, com títulos como Furo Cruzado e Vale-Tudo
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