Quilombos urbanos cariocas ganham reconhecimento e visibilidade
Tombamento do Quilombo Ferreira Diniz e o calendário cultural em territórios semelhantes abrem caminhos para que cariocas conheçam a história da própria cidade
Ao subir uma escadaria em plena Rua Candido Mendes, na Glória, Zona Central, o cheiro de feijão no fogo guia o visitante até um quintal onde natureza, risadas de crianças brincando e conversas animadas se misturam ao samba que ecoa de um casarão antigo. Trata-se do Quilombo Ferreira Diniz, que em setembro se tornou o primeiro espaço de resistência negra no Rio de Janeiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. A comunidade reúne cerca de setenta remanescentes das famílias Ferreira e Diniz, cujas trajetórias remontam aos anos 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados em Minas Gerais, passou a viver no local com Antônio Dias Pessanha, seu marido. Olívia Carvalho Diniz chegou por lá mais ou menos na mesma época e, dali em diante, sucederam-se gerações que preservam memórias, tradições e vínculos numa das áreas mais movimentadas do Rio. “O tombamento estabelece um compromisso do Estado de reconhecer que a Constituição protege comunidades quilombolas. Territórios como esse têm direito de ter paz”, afirma a presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Ferreira Diniz, Érida Ferreira. “Nossos saberes ajudam a proteger a história do Brasil.”
O tombamento do Ferreira Diniz é resultado de uma mobilização que começou em 2020, quando a especulação imobiliária ameaçou ocupar o local histórico e a comunidade, então, se organizou para correr atrás dos próprios direitos. Toda sexta, acontece por lá a feijoada da Tia Cida, que atrai cariocas e turistas interessados numa história que pouca gente conhece. Rodas de capoeira complementam a programação do quilombo, que também promove palestras e visitação ao longo do ano.
Outros lugares semelhantes também capricham no calendário de atividades abertas ao público. O Quilombo do Camorim, em Jacarepaguá, tem oficinas de jongo e capoeira, trilhas e visitas educativas. Na Lagoa, o Quilombo Sacopã preserva sua história e cultura com o Samba do Sacopã, aos sábados, que une batucada e feijoada. Palestras e conversas com pensadores negros acontecem com frequência. A movimentada Pedra do Sal reúne rodas de samba e manifestações ligadas à cultura negra no coração da Pequena África, Zona Portuária. O point fica lotado nas noites de segunda e já recebeu visitantes ilustres como a cantora espanhola Rosalía e o ator da série da Netflix Sex Education Ncuti Gatwa. “É emocionante frequentar um lugar pulsante de vivência negra do passado e do presente”, avalia a estudante de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Camille Dantas, que conheceu o Ferreira Diniz através de amigos e está sempre por lá.
O Rio de Janeiro foi o maior porto de entrada de pessoas escravizadas das Américas e a maior metrópole escravista da história moderna. Preservar quilombos significa ir além da proteção de edificações ou limites territoriais, como aponta, em nota, o Iphan. “No caso do Quilombo Ferreira Diniz, o Iphan reconhece a identidade, a trajetória e os modos de organização da comunidade, preservando a relação entre o espaço e sua história, marcada por vínculos familiares e comunitários, práticas religiosas e manifestações culturais. O reconhecimento também contribui para ampliar a compreensão sobre a diversidade das trajetórias quilombolas.” O órgão acrescenta que pedidos de outros cinco quilombos fluminenses estão sendo analisados pela equipe técnica e há a perspectiva de que, progressivamente, mais territórios de relevância histórica e cultural também recebam a proteção adequada. A equação, portanto, é conciliar a manutenção das tradições e da história com a dinâmica de concentração populacional e as constantes demandas por infraestrutura.
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Visitar para preservar
A rota dos quilombos urbanos do Rio
Ferreira Diniz. Primeira iniciativa tombada pelo Iphan, o local promove feijoada e roda de samba nas tardes de sexta. Há também capoeira, palestras e visitação ao longo do ano. Rua Candido Mendes, 320, Glória. @quilomboferreiradiniz.
Sacopã. A comunidade está encravada desde 1929 em uma das áreas mais valorizadas da Zona Sul. Aos sábados, rola roda de samba com feijoada e transmissões de jogos de futebol. Rua Sacopã, 250, Lagoa. @quilombosacopa.
Camorim. Em meio à Mata Atlântica, o espaço organiza oficinas de jongo e capoeira, além de trilhas e tours educativos. Estrada Camorim, 922, Jacarepaguá. @quilombocamorim.
Pedra do Sal. O território da Pequena África está associado ao surgimento do samba e ao florescimento da cultura negra na cidade. As rodas de batucada ficam especialmente lotadas nas noites de segunda, mas também tem fervo às sextas e sábados. Rua Tia Ciata, s/n, Saúde. @pedradosaloficial







