“Precisamos nos preparar”, diz o filósofo Nilton Bonder
Atração do Rio Innovation Week, rabino defende que a inteligência artificial inaugura uma transformação comparável aos grandes marcos da história da humanidade
Um físico e um rabino sobem ao palco para discutir se Deus realmente existe. Pode parecer o começo de uma piada, mas trata-se de uma das palestras mais aguardadas do Rio Innovation Week. Na sexta (7), Marcelo Gleiser e Nilton Bonder se reúnem no Píer Mauá para participar da série Diálogos Inspiradores.
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Enquanto Gleiser ganhou o Prêmio Templeton por explorar os limites entre ciência e espiritualidade, Bonder tem mais de vinte livros traduzidos em doze países, entre eles, A Alma Imoral (1998) — que foi adaptado para o teatro e tornou-se uma das peças mais longevas do circuito.
Agora, inspirado pelo momento de profunda transformação vivido pela humanidade com o advento das tecnologias digitais, o porto-alegrense radicado no Rio lançará em outubro Segunda Mordida — Eros Artificial (EA) e o Fim da Morte. O ensaio aponta os caminhos para um futuro mais potente e os efeitos colaterais que serão vividos pela sociedade, como conta na entrevista, na qual também falou sobre ética, religiosidade e antissemitismo.
Como a tecnologia está mudando a forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo? Ela está alterando a nossa experiência de vida. Traço um paralelo disso no livro Segunda Mordida, que faz referência ao momento vivido por Adão e Eva, no qual despertamos para uma consciência que moldou a realidade nos últimos 6000 anos. Agora, estamos prestes a dar outro salto evolutivo que vai mudar a natureza humana.
Vê a IA como uma ferramenta ou um desafio? Explorar um território completamente novo sempre traz grandes riscos, mas o artificial não me assusta. Ele faz fazer parte da nossa experiência desde que passamos a interferir na natureza e no nosso destino. Criar algo maior do que nós mesmos é incrível, uma expressão da potência humana.
Qual a sua expectativa para o futuro? Aquela primeira transformação relatada na Bíblia foi marcada por uma enorme instabilidade. Durante um longo período, só trouxe coisas ruins: violência, inveja, assassinatos e a sensação de perda de controle. Depois, aprendemos a usar essa potência para construir a civilização. Acho que seguiremos um caminho parecido. É o fim do mundo, pelo menos como nós o conhecemos. Por isso, precisamos nos preparar para essa transição
O que, de fato, irá mudar? Nossa existência estará cada vez menos ancorada no material. Ainda precisaremos fazer a gestão de saúde do corpo para sobreviver, mas passaremos a viver muito mais no universo da informação.
Seremos avatares de nós mesmos? A identidade já passou a pesar mais do que o corpo. Isso aparece nas discussões sobre gênero, por exemplo, mas também na forma como moldamos a nossa aparência para que ela corresponda à imagem que temos de nós mesmos. Ao mesmo tempo, migramos cada vez mais para o ambiente digital, e não será possível frear esses avanços — que serão positivos a longo prazo, mas não sem perdas.
Quais serão elas? Um dos lugares onde a artificialidade é mais concreta é no aumento da longevidade. Biologicamente, existimos para reproduzir — o que já vem sendo questionado por mulheres que não sentem isso como vocação. Na hora em que a função reprodutiva acaba, desse ponto de vista, não temos mais o que fazer. Se vivermos até os 150 anos, o que faremos com as décadas que sobram?
A espiritualidade pode ajudar a lidar com tudo isso? Sim, e ao contrário do que todos pensavam, a ciência não eliminou a fé. Ela passou por uma migração. As pessoas podem frequentar menos igrejas, sinagogas ou mesquitas, mas continuam buscando sentido na meditação, na ioga, na cabala e em outras tradições orientais que cresceram muito nos últimos sessenta anos.
Ficou mais difícil falar sobre judaísmo sem que ele seja confundido com política? Confundir o judaísmo com decisões políticas é o mesmo que responsabilizar um cristão pela Inquisição ou um muçulmano por episódios ligados à escravidão. Nenhuma tradição pode ser reduzida aos erros ou acertos de instituições e governos. Isso se chama preconceito. As narrativas circulam como fofocas nas redes sociais, sem responsabilidade com a verdade. Ficou muito fácil repetir informações sem medir as consequências do que se diz.
Como rabino, sente-se pressionado em ter um posicionamento político? Sim. Se não começo dizendo de que lado estou, perco legitimidade. Isso é muito grave, porque cria uma cultura de cancelamento. Posso formar minhas impressões, mas não transformá-las em condição para acolher ou rejeitar. Quando alguém estabelece pré-requisitos ideológicos para reconhecer a legitimidade do outro, pratica uma forma de exclusão.
A polarização revela algo mais profundo sobre a natureza humana? As pessoas sempre brigaram. A diferença é que hoje qualquer um aperta um botão e alcança milhões. O problema não é a informação, mas sim a forma como usá-la. Muita gente prefere compartilhar o que confirma suas crenças, sem checar se é verdade. Acredito que vamos desenvolver filtros e senso crítico para lidar melhor com isso. A educação é o que pode nos livrar de ditadores, populistas e daqueles que querem nos manipular.
A Alma Imoral continua fazendo apresentações vinte anos após a estreia. Mudaria alguma coisa no texto? Mudaria a forma de transmitir algumas ideias, não os conceitos. A peça é uma tradução do livro — e toda tradução tem ganhos e perdas. Alguns anos depois escrevi Segundas Intenções, que funciona como uma desconstrução de A Alma Imoral. Não porque ele estivesse errado, mas para apresentar o contraditório, que, quando é usado para o bem, serve como ampliação do pensamento. É o oposto da polarização: em vez de transformar o outro em adversário, ele me ajuda a sair de mim mesmo e a compreender melhor a realidade.





