Polícia de Portugal localiza em Lisboa objetos furtados em igrejas do Rio
Peças de arte sacra da Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores estavam à venda em antiquário da capital portuguesa
A Polícia Judiciária de Lisboa localizou e apreendeu em um antiquário da capital portuguesa quatro tocheiros monumentais e uma cruz de prata que haviam sido furtados do altar-mor da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no Centro do Rio, há mais de quatro décadas. Segundo informou o Jornal O Globo, as peças estavam à venda no estabelecimento e deverão ser repatriadas ao Brasil.
Entre os detalhes que contribuíram para a identificação dos objetos estão as iniciais JOC, gravadas pelo ourives e prateiro José de Oliveira Coutinho em centenas de peças produzidas para igrejas e particulares entre o fim do século XVIII e 1822. Ainda não existe uma data definida para o retorno dos objetos ao Brasil. Em nota, a Polícia Judiciária de Lisboa informou que as peças passarão por perícia e não estabeleceu prazo para a repatriação.
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Segundo Cláudio André Castro, provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, as peças possuem grande valor artístico e histórico. A cruz tem cerca de 2,10 metros, enquanto os tocheiros ultrapassam um metro de altura. A localização dos objetos começou a partir de uma denúncia anônima encaminhada ao Fala.Br, órgão da Controladoria-Geral da União (CGU) responsável por receber denúncias e sugestões. Com a informação, a Polícia Federal comunicou a suspeita à Interpol, que repassou o caso às autoridades portuguesas.
As peças estavam em uma loja que funcionava como antiquário e casa de leilões em Lisboa. A Polícia Judiciária portuguesa realizou a apreensão e concluiu que o vendedor não tinha conhecimento da procedência dos objetos. A administração da igreja encaminhou documentos para comprovar que as peças faziam parte do patrimônio da instituição.
De acordo com o delegado Marcos Nizio, da Superintendência de Brasília, entre os documentos pedidos pelas autoridades portuguesas estão o boletim de ocorrência e informações sobre dimensões, inscrições, monogramas e outras marcas que possam confirmar a identidade das peças desaparecidas.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também informou, por meio de nota, que tomou providências junto à Coordenação-Geral de Cooperação Policial Internacional e à Polícia Judiciária de Portugal e aguarda novas informações sobre as investigações. O processo de devolução envolve o Ministério das Relações Exteriores (MRE), a Polícia Federal e o Iphan.
Não é possível determinar exatamente quando os objetos foram retirados do altar. Segundo Cláudio Castro, o furto pode ter acontecido entre 1947 e meados dos anos 1980, período em que a guarda das peças teria sido menos rigorosa. Os objetos não podem ser comercializados, pois fazem parte do patrimônio de uma instituição tombada desde 1938.
A fiscalização dos acervos tombados pelo Iphan passou a ser mais rigorosa a partir de meados dos anos 1980, com a realização de inventários anuais. Atualmente, as peças mais valiosas da igreja são mantidas na Casa Forte e retiradas somente durante as cerimônias litúrgicas.
Esta não é a primeira recuperação de objetos sacros pertencentes à igreja em estabelecimentos especializados. Em 2024, dois tocheiros de prata menores e três sacras, suportes utilizados para leitura de orações e que também faziam parte do altar-mor, foram encontrados à venda por um leiloeiro do Rio por R$ 219 mil.
O mesmo vendedor mantinha sob sua guarda peças desaparecidas da Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo e um par de tocheiros com selos que indicavam serem propriedade da Catedral de Belém. Em abril deste ano, a Polícia Federal devolveu ainda um atril litúrgico, utilizado para apoiar livros religiosos, e um porta-paz, placa com imagens religiosas. Os dois objetos, também de prata, haviam sido localizados em um leiloeiro de Campinas, em São Paulo.
Uma das igrejas mais antigas da cidade, a Lapa dos Mercadores começou a ser construída em 1743 e foi concluída em 1750, em estilo barroco. O imóvel sobreviveu a um bombardeio durante a Segunda Revolta Armada, em 1893, quando militares contrários ao então presidente Floriano Peixoto reivindicavam novas eleições. Uma bala de canhão que atingiu o prédio está exposta na sacristia.
A igreja fica na esquina do Arco dos Telles com a Rua do Ouvidor, a aproximadamente 700 metros da Rua Miguel Couto, onde funcionavam as oficinas de José de Oliveira Coutinho. Na época, a via era conhecida como Rua do Ourives e reunia outros profissionais do setor.
Segundo o portal Brasiliana Fotográfica, um decreto do século XVIII, elaborado pelo governador Gomes Freire de Andrada, determinou que os ourives se instalassem na rua para facilitar a fiscalização dos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa.







