Em meio a polêmica, novo livro de Tamara Klink dispara nas vendas

Após velejadora afirmar que as pessoas não deveriam comprar seu último lançamento e sim doar, cariocas defendem Bom Dia, Inverno

Por Carolina Isabel Novaes 4 set 2026, 09h00 | Atualizado em 4 set 2026, 09h39
Mea-culpa: “Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, escreveu a jovem nas redes após o quiprocó
Mea-culpa: “Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, escreveu a jovem nas redes após o quiprocó  (Instagram @tamaraklink/Reprodução)
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Em meio a polêmica, novo livro de Tamara Klink dispara nas vendas Priorizar nos meus resultados Google

A Festa Literária Internacional de Paraty anunciou os livros mais vendidos em sua livraria durante a última edição, em julho, e Bom Dia, Inverno, de Tamara Klink, estava lá, em sexto lugar. Àquela altura, a velejadora publicou em suas redes sociais um apelo para que as pessoas parassem de comprar o livro.

Afinal, já havia muitos circulando e, seguindo uma filosofia sustentável, ela acreditava que os exemplares deveriam ser emprestados ou doados. A jovem de 29 anos nem tinha participado do festival, mas conseguiu ofuscar sucessos como o da brasiliense Paulliny Tort, autora de Os Imortais, até então a ficção mais comentada nas ruas de pedra da cidade da Costa Verde, e Socorro Acioli, autora de Amar É Inadiável, o mais vendido da Flip.

E o pior: o pedido da filha de Amyr Klink foi em vão. O livro editado pela Companhia das Letras teve 5 467 unidades comercializadas na semana da polêmica, em comparação com 3 739 arrematados nos sete dias anteriores. “Errei em não ver outros pontos de vista.

Precisamos da leitura. Precisamos de autores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, publicou Tamara em seu perfil do Instagram no início de agosto.

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À esquerda, um homem de barba e bigode, vestindo blazer marrom e camiseta branca, com broches de barcos de madeira. À direita, uma mulher sorridente, sentada, com blazer e calça estampados em cores vibrantes como verde, amarelo, laranja e azul
Fã-clube: Enzo Celulari e Juliana Calcena são alguns dos admiradores do best-seller da velejadora (Instagram @Enzocelulari/Divulgação)

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Bom Dia, Inverno é como um diário de bordo em que a velejadora descreve sentimentos e desafios de viver oito meses isolada em um fiorde na Groenlândia. As 256 páginas trazem reflexões um tanto instagramáveis, como “já não sei mais como era a vida antes de a saudade sumir.”

O produtor de cinema Enzo Celulari chegou a postar um trecho em suas redes. “Lógico que sabia do talento da Tamara como autora, e os livros dela estavam na minha fila”, contou o produtor de cinema a VEJA RIO diretamente de Gramado, onde ganhou um Kikito com o curta Shibal.

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“Eu comecei a me aproximar da história dela a partir do livro Cem Dias Entre Céu e o Mar, escrito pelo Amyr (Klink) e agora adaptado para o cinema”, explicou, acrescentando que Bom Dia, Inverno tem o poder de encantar quem não tem o hábito de ler. “É uma história facilmente digerida, ao mesmo tempo com muitas nuances, camadas e muita verdade”, opina Celulari.

“Adoro autobiografia, já tinha lido os livros do pai dela, e me interessei pela jornada solitária”, diz Juliana Calcena, da agência de marketing Bossa, que acaba de lançar um clube do livro com a sócia Bebel Sader. “O que me tocou foram os trechos sobre as urgências banais da vida cotidiana, as nossas escolhas diárias, o medo, a solidão e, acima de tudo, as dificuldades e batalhas que as mulheres enfrentam”, resume.

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Diário de bordo: livro de Tamara Klink ficou em sexto lugar entre os mais vendidos da FLIP (./Divulgação)

 

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Uma das livrarias mais tradicionais da cidade, com 74 anos de história, a Leonardo da Vinci tratou com humor o quiprocó e viralizou com um post em que sugeria vários títulos que não deveriam ser comprados.

“Nossas postagens costumam ter cerca de cem curtidas. Essa publicação alcançou mais de 15.000 likes e 337.000 visualizações”, conta Daniel Louzada, dono da loja. Ele pondera que, em tempos de algoritmo, existe uma “tara por opinião”, mas a questão é mais complexa.

“Nosso problema não é ter muito livro, mas livro de menos. As bibliotecas estão sucateadas. A fala da Tamara me parece bem intencionada, mas revela um profundo desconhecimento do país”, considera. A humorista Dadá Coelho lembra que a velejadora não é “inimiga”.

“Ela errou, pediu desculpas. Virginia Woolf usou a imagem de um gato sem rabo para ilustrar o estranhamento que uma mulher causa num ambiente intelectual. Mesmo do alto de um privilégio, Tamara anda pelo mundo cortando os rabos”, avalia.

A aventureira não tem nem 30 anos e já atravessou o Atlântico sozinha, foi a pessoa mais jovem da América Latina a cruzar a Passagem do Noroeste — uma série de canais no Ártico ligando o Atlântico ao Pacífico — em travessia solo e tem seis livros escritos. Sem dúvida, muita água ainda vai rolar.  

Livro Flamengo Contra Todos de Alberto Mussa, com capa branca e silhuetas de jogadores de futebol em preto e laranja. Um post-it amarelo com MUITO URUBU está colado na capa. O livro está sobre uma pilha de três exemplares lacrados, em uma mesa de madeira, com estantes cheias de livros ao fundo
Anti-propaganda: livraria Leonardo Da Vinci embarcou na polêmica da autora e brincou com outros títulos (nstagram @livrarialeonardodavinci/Reprodução)

 

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Post viralizou: publicação com motivos para não comprar exemplares rendeu 15 000 curtidas (nstagram @livrarialeonardodavinci/Reprodução)

Mais telas, menos páginas 

Os tristes números do mercado no Brasil 

Há 8,4 milhões de analfabetos com mais de 15 anos. 

Em 2024, 47% dos brasileiros afirmaram ter lido ao menos um livro nos três meses anteriores. Em 2007, o índice era de 55%. 

40% da população alega falta de paciência ou foco para ler. Em 2007, o número foi 18%. 

A parcela dos que “gostam muito” de ler caiu de 31% em 2019 para 26% em 2024. 

O gênero mais lido no país em 2024 foi o religioso, com a Bíblia em primeiro lugar, seguido por contos e romances.

 

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