Em meio a polêmica, novo livro de Tamara Klink dispara nas vendas
Após velejadora afirmar que as pessoas não deveriam comprar seu último lançamento e sim doar, cariocas defendem Bom Dia, Inverno
A Festa Literária Internacional de Paraty anunciou os livros mais vendidos em sua livraria durante a última edição, em julho, e Bom Dia, Inverno, de Tamara Klink, estava lá, em sexto lugar. Àquela altura, a velejadora publicou em suas redes sociais um apelo para que as pessoas parassem de comprar o livro.
Afinal, já havia muitos circulando e, seguindo uma filosofia sustentável, ela acreditava que os exemplares deveriam ser emprestados ou doados. A jovem de 29 anos nem tinha participado do festival, mas conseguiu ofuscar sucessos como o da brasiliense Paulliny Tort, autora de Os Imortais, até então a ficção mais comentada nas ruas de pedra da cidade da Costa Verde, e Socorro Acioli, autora de Amar É Inadiável, o mais vendido da Flip.
E o pior: o pedido da filha de Amyr Klink foi em vão. O livro editado pela Companhia das Letras teve 5 467 unidades comercializadas na semana da polêmica, em comparação com 3 739 arrematados nos sete dias anteriores. “Errei em não ver outros pontos de vista.
Precisamos da leitura. Precisamos de autores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, publicou Tamara em seu perfil do Instagram no início de agosto.
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Bom Dia, Inverno é como um diário de bordo em que a velejadora descreve sentimentos e desafios de viver oito meses isolada em um fiorde na Groenlândia. As 256 páginas trazem reflexões um tanto instagramáveis, como “já não sei mais como era a vida antes de a saudade sumir.”
O produtor de cinema Enzo Celulari chegou a postar um trecho em suas redes. “Lógico que sabia do talento da Tamara como autora, e os livros dela estavam na minha fila”, contou o produtor de cinema a VEJA RIO diretamente de Gramado, onde ganhou um Kikito com o curta Shibal.
“Eu comecei a me aproximar da história dela a partir do livro Cem Dias Entre Céu e o Mar, escrito pelo Amyr (Klink) e agora adaptado para o cinema”, explicou, acrescentando que Bom Dia, Inverno tem o poder de encantar quem não tem o hábito de ler. “É uma história facilmente digerida, ao mesmo tempo com muitas nuances, camadas e muita verdade”, opina Celulari.
“Adoro autobiografia, já tinha lido os livros do pai dela, e me interessei pela jornada solitária”, diz Juliana Calcena, da agência de marketing Bossa, que acaba de lançar um clube do livro com a sócia Bebel Sader. “O que me tocou foram os trechos sobre as urgências banais da vida cotidiana, as nossas escolhas diárias, o medo, a solidão e, acima de tudo, as dificuldades e batalhas que as mulheres enfrentam”, resume.
Uma das livrarias mais tradicionais da cidade, com 74 anos de história, a Leonardo da Vinci tratou com humor o quiprocó e viralizou com um post em que sugeria vários títulos que não deveriam ser comprados.
“Nossas postagens costumam ter cerca de cem curtidas. Essa publicação alcançou mais de 15.000 likes e 337.000 visualizações”, conta Daniel Louzada, dono da loja. Ele pondera que, em tempos de algoritmo, existe uma “tara por opinião”, mas a questão é mais complexa.
“Nosso problema não é ter muito livro, mas livro de menos. As bibliotecas estão sucateadas. A fala da Tamara me parece bem intencionada, mas revela um profundo desconhecimento do país”, considera. A humorista Dadá Coelho lembra que a velejadora não é “inimiga”.
“Ela errou, pediu desculpas. Virginia Woolf usou a imagem de um gato sem rabo para ilustrar o estranhamento que uma mulher causa num ambiente intelectual. Mesmo do alto de um privilégio, Tamara anda pelo mundo cortando os rabos”, avalia.
A aventureira não tem nem 30 anos e já atravessou o Atlântico sozinha, foi a pessoa mais jovem da América Latina a cruzar a Passagem do Noroeste — uma série de canais no Ártico ligando o Atlântico ao Pacífico — em travessia solo e tem seis livros escritos. Sem dúvida, muita água ainda vai rolar.
Mais telas, menos páginas
Os tristes números do mercado no Brasil
Há 8,4 milhões de analfabetos com mais de 15 anos.
Em 2024, 47% dos brasileiros afirmaram ter lido ao menos um livro nos três meses anteriores. Em 2007, o índice era de 55%.
40% da população alega falta de paciência ou foco para ler. Em 2007, o número foi 18%.
A parcela dos que “gostam muito” de ler caiu de 31% em 2019 para 26% em 2024.
O gênero mais lido no país em 2024 foi o religioso, com a Bíblia em primeiro lugar, seguido por contos e romances.
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