Península: o condomínio de luxo da Barra que vive na mira de operações policiais
Planejado para oferecer exclusividade e tranquilidade aos moradores, o complexo residencial hoje é cenário recorrente de ações contra figuras influentes do Rio
Cercado pelas águas da Lagoa de Jacarepaguá – apenas uma via liga o empreendimento ao continente, o Península, na Barra, foi idealizado para ser uma ilha de prosperidade numa região já privilegiada da cidade. Lançado em 2002, o espaço se apresenta como um bairro planejado, mas é definido pelo Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura, como um condomínio. Na verdade, são 32 deles, num total de setenta edifícios onde vivem 25 000 abastados habitantes. O paraíso exclusivo com 463 000 metros quadrados de verde, salpicado de obras assinadas por artistas como Carlos Vergara e Ascânio MMM nas áreas comuns, já despertou o interesse de famosos do porte de Anitta e de anônimos em busca de segurança e tranquilidade, dispostos a pagar entre 15 000 e 17 000 reais pelo metro quadrado. O enclave de luxo da Zona Sudoeste também virou o CEP preferido de políticos fluminenses, que acabaram atraindo para lá indesejadas atenções e operações policiais, não necessariamente nessa ordem. Nessa esteira, curiosos, repórteres, drones, helicópteros e tornozeleiras eletrônicas passaram a invadir o idílico cenário, incomodando a vizinhança.
Só em maio deste ano, policiais federais amanheceram duas vezes no local, visitando o ex-governador Cláudio Castro munidos de mandados de busca e apreensão. Na primeira incursão, no dia 15, os agentes bateram à porta do apartamento do 12º andar do edifício Atmosfera, onde o político vivia com a família nos últimos anos, e o foco era a suposta ligação dele com fraudes fiscais envolvendo a Refit. Um celular e um tablet foram apreendidos. Onze dias depois, os aportes do Rioprevidência no Banco Master fizeram os policiais subirem à cobertura de mais de 300 metros quadrados no mesmo prédio, comprada em 2023 por 3,5 milhões de reais e totalmente reformada — que Castro estaria alugando de uma empresa ligada a um ex-secretário de sua administração. “Ele não perdeu as regalias. Há muitos seguranças espalhados pelo condomínio, principalmente na garagem. Desagradável essa movimentação”, incomoda-se um morador, que não quer ser identificado.
A mudança na plácida rotina deixa a vizinhança dividida. Em outubro do ano passado, para expressar apoio ao então governador diante das críticas à operação que deixou mais de 130 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, houve até uma mobilização do grupo de WhatsApp do edifício para enviar flores ao mandatário. “Nesse momento, acho importante ele ver que não está sozinho e que a população está do lado dele”, escreveu a autora da ideia, recebendo oito curtidas e coraçõezinhos. “Eu topo. Acho um privilégio morar no mesmo condomínio que ele! Sempre educado, simpático e cordial”, concordou uma vizinha. “O prédio é dividido, assim como o Brasil”, conforma-se outra moradora. O clima se assemelha, guardadas as devidas proporções, a comunidades assoladas pelo chamado crime organizado, onde impera uma espécie de lei do silêncio. Quanto mais discrição, menor a chance de arranjar problemas. Faz no mínimo doze anos que os agentes da lei aprenderam o caminho até o Península, que além de habitações também reúne salas comerciais, paróquia, supermercados, escolas, hospitais e até um shopping.
O próprio Castro já havia sido procurado por lá, em 2021, por suspeita de participar de um grupo criminoso que desviava e lavava recursos durante a pandemia. Em 2014, policiais federais cumpriram busca e apreensão no Península Office, onde Paulo Roberto Costa (1954- 2022), ex-diretor da Petrobras conhecido como o delator-bomba da Operação Lava-Jato, mantinha quatro salas. De lá para cá, pelo menos dez operações das polícias Civil e Federal movimentaram o endereço luxuoso. Entre elas a que levou à prisão o ex-prefeito Marcelo Crivella, em 2020, por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo os investigadores, ele e o vizinho e financiador de sua campanha eleitoral, Rafael Alves, também preso na mesma ação, tratavam de negócios ilegais em caminhadas pelo condomínio. “Respeitamos as ações conduzidas pelas autoridades competentes no âmbito da segurança pública e do cumprimento de decisões judiciais”, pontua, em nota, a Associação Amigos da Península (Assape), frisando que segue pautada na defesa da qualidade de vida de quem mora ali. A paisagem pode ser idílica, mas a realidade se impõe.
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O poder no alvo
Alguns episódios de prisões e operações policiais no condomínio da Barra
Paulo Roberto Costa. O engenheiro da Petrobras mantinha escritórios por lá e foi alvo de busca e apreensão em 2014. O ex-executivo falecido em 2022 delatou Antonio Palocci e Sérgio Cabral.
Marcelo Crivella. Também em 2020, o então prefeito foi preso durante operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil, dez dias antes de deixar o cargo. Ele foi acusado de integrar organização criminosa voltada para corrupção, peculato, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro. Mas Crivella já havia recebido a visita de policiais em outras duas ocasiões.
Tania Maria Aragao de Souza Fonseca. A gerente do Bradesco foi presa em casa, também num desdobramento da Lava Jato no Rio, em 2019. Segundo o Ministério Público Federal, ela ajudou a lavar 989,6 milhões de reais por meio do sistema bancário.
Pedro Fernandes. O então secretário de Educação de Wilson Witzel foi surpreendido em 2020 com a chegada de agentes da Polícia Civil e de representantes do MP para o cumprimento do mandado de prisão. Ele foi alvo de operação que investigava desvios de recursos públicos em contratos de assistência social no governo e na prefeitura.
Rafael Ferreira Alves e Marcelo Ferreira Alves. Assim como Crivella, o financiador da campanha eleitoral do então prefeito e seu irmão, ex-presidente da Riotur, foram alvo de busca e apreensão em 2020. A ação investigava o QG da Propina, que teria a Riotur como balcão de negócios.
Rodrigo Bethlem. Coordenador da campanha de Crivella, o ex-deputado recebeu agentes da Polícia Federal em 2017, numa das etapas da Lava Jato no Rio. Bethlem também foi secretário de governo e de Assistência Social na gestão de Paes.
Fernando Trabach Gomes Filho. O empresário foi denunciado por promover festas com som alto e aglomeração durante a emergência sanitária. Ele foi acusado de agredir um casal vizinho com socos e já havia sido preso duas vezes em 2017, por falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Fábio Dutra. Considerado um dos líderes de uma quadrilha que promovia corridas de rachas no estado, o empresário foi preso na Operação Party is Over, deflagrada pelas polícias Rodoviária Federal e Civil. Dutra já tinha sido preso por suspeita de participar de uma quadrilha de mafiosos israelenses que atuava em lavagem de dinheiro, contrabando e comércio ilegal de pedras preciosas e exploração de caça-níqueis.
Luiz Cláudio Babo Torres. Ligado à empresa Revolux Rio, investigada por desvios de recursos destinados a combater o coronavírus, em 2020 ele foi alvo de busca e apreensão na Operação Falso Negativo, que investiga o superfaturamento de mais de 30 milhões de reais na compra de testes rápidos para a covid-19 pelo Governo de Brasília.





