Grupos de patinadores revelam como viver a cidade após o pôr do sol
Coletivos transformam ruas, parques e ciclovias em pontos de encontro e impulsionam os números do mercado
A vida noturna no Rio se desenrola entre mesas de bar, rodas de samba, casas de show ou, simplesmente, na rua.
Para um número crescente de adeptos, a “night” também pode ser sobre rodinhas. Explica-se: em diferentes regiões da cidade, tem sido comum avistar grupos de patinadores ao anoitecer.
Esses rolés misturam esporte, lazer e convivência, e os participantes atravessam parques, ciclovias e até túneis. “Na pandemia houve um grande crescimento da comunidade. Recebemos muita gente de outros estados, de tão atraente que anda a cena”, afirma o influenciador digital e empresário Diego Luiz, de 39 anos, o @patinadorsincero no Instagram.
Se durante o dia as paisagens convidam a deslizar pela cidade, quando o sol se põe entram em cena o trânsito mais tranquilo, o clima ameno e uma sensação de liberdade compartilhada pelos praticantes.
“Nossas rodas iluminadas e as luzes dos capacetes parecem quebrar a escuridão, além de contribuírem para a nossa segurança”, conta Luiz, que começou a patinar ainda criança e voltou de vez em 2018, ao conhecer um grupo na Praça Mauá. Hoje, ele também utiliza os patins como meio de transporte, combinando-os com o carro e o transporte público.
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Embora seja uma atividade individual, a patinação ganha força no encontro. Com mais de 50 000 seguidores no Instagram, o barbeiro Raul Moraes da Fonseca, 43, compartilha na rede social seus passeios com a missão de conquistar adeptos.
“Participo de mais de vinte grupos de WhatsApp, e toda hora surge gente nova. Andar ao lado dos mais experientes ajuda a gente a evoluir”, afirma. Mensalmente, Fonseca organiza passeios. Em geral, os encontros acontecem durante o dia, por serem mais adequados para quem está começando, mas o barbeiro também não dispensa o programa noturno.
Toda quarta, a partir das 19h, são oferecidas aulas gratuitas em pontos como o Maracanã, a Praça XV e o Aterro do Flamengo.
A iniciativa da loja Rio Patins divide os interessados entre iniciantes, na primeira hora; intermediários, às 20h; e avançados, às 21h. É aí que Fonseca se junta à galera para aproveitar a sensação de liberdade que a patinação proporciona, mesmo que haja receio em relação à violência.
“A preocupação com assaltos faz parte, mas estar em grupo reduz a sensação de vulnerabilidade”, analisa ele, reforçando que trechos como o Aterro do Flamengo, túneis e áreas com pouca iluminação exigem atenção redobrada.
O crescimento da prática também impulsionou a criação de coletivos fora do eixo Centro-Zona Sul. Fundado durante a pandemia por Betho Nascimento, 39, morador de Santa Cruz, o Zona Oeste Patins nasceu para aproximar a modalidade de quem vivia longe dos principais pontos de encontro e precisava atravessar a cidade para participar das atividades.
“Cheguei a passar quase três horas no trem para poder patinar em grupo. Com a criação do Parque Oeste, percebi que daria para formar algo perto da nossa realidade”, lembra. Hoje, o coletivo reúne mais de quatrocentos integrantes no WhatsApp e costuma levar entre sessenta e cem pessoas para deslizar a cada saída. O grupo também oferece aulas gratuitas às quartas.
Voluntários conhecidos como “anjos” acompanham os iniciantes durante os trajetos, ajudando na evolução técnica e reforçando a segurança do grupo. “A vida adulta traz muitos desafios e, muitas vezes, solidão. Os encontros ajudam a cuidar da saúde física e mental, fazer novas amizades e fortalecer vínculos”, resume Nascimento.
Os números do mercado refletem o aumento do interesse pela patinação. “As vendas aumentaram muito na nossa loja, e a procura por aulas também. Basta ver os diferentes tipos de cursos oferecidos”, explica o empresário Marcos Nasser, da 46 Inline, loja especializada com unidades em Copacabana e Niterói.
O movimento visto nas ruas é conhecido como patinação urbana (ou urban), uma das vertentes da modalidade, que também reúne práticas como a patinação artística; o roller dance, que insere movimentos da dança; o freestyle, focado em manobras; o speed, voltado para velocidade; e o slalom, com obstáculos.
Para a instrutora de patins e bicicleta Patrícia Audi, um dos fatores que explicam o crescimento da prática é a inclusão de perfis diversos. “O esporte é para todas as idades. Recebemos crianças, jovens, adultos e até pessoas que realizaram o sonho de aprender depois dos 50 ou 60 anos. O importante é ter vontade”, assegura.
Apesar da expansão, os praticantes ainda apontam desafios para o avanço, como a falta de pistas adequadas, boa manutenção e pouco incentivo. “Temos uma cidade com clima, paisagens e espaços que favorecem a patinação. Com investimento em estrutura, o esporte pode alcançar ainda mais pessoas”, conclui Patrícia.
A patinação já encontrou seus caminhos e, agora, busca espaço para continuar crescendo.
Onde a cidade vira pista
Os lugares preferidos dos patinadores
Praça Mauá e Boulevard Olímpico. Ponto badalado, com espaço aberto e trajeto urbano
Aterro do Flamengo. Um dos cenários mais tradicionais entre os praticantes, com ciclovia espaçosa, piso plano e vista para a Baía de Guanabara.
Parque Madureira. É uma opção para quem quer treinar ou praticar em ritmo mais tranquilo.
Parque Rita Lee. Localizado no Parque Olímpico, reúne áreas de lazer e esporte, incluindo skate park e muito espaço aberto.
Encontros costumam ser divulgados em páginas do Instagram:
@rollertour_46
@jacaroller
@zonaoestepatins
@serpentesroller
@holidayonasphalt
@panteras_inline
@raposasdoasfaltorj





