Onças-pardas resgatadas há três anos aguardam seu destino
À espera de liberdade: felinos retirados do comércio ilegal foram levados para Centro de Triagem do Ibama em Seropédica, onde permanecem sob cuidados
Em setembro de 2023, uma operação da Polícia Federal interrompeu o destino que parecia reservado a uma onça-parda ainda filhote: o mercado ilegal de animais silvestres. A espécie, é bom lembrar, enfrenta declínio populacional e é classificada como quase ameaçada (NT) no Brasil. O pequeno macho era mantido em uma casa no Morro Pavão-Pavãozinho, Zona Sul, e seria vendido por 20 000 reais quando foi localizado por agentes e encaminhado ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) em Seropédica, na Baixada Fluminense. Trata-se do único centro de reabilitação do órgão no Estado capacitado a devolver à natureza aves, mamíferos e répteis. Naquele mesmo ano, uma fêmea foi resgatada em Nova Friburgo, na Região Serrana. Desde então, as duas onças permanecem sob os cuidados das equipes do centro, enquanto veterinários avaliam se elas têm como voltar ao habitat natural. “A decisão sobre a soltura é baseada em protocolos técnicos, considerando as condições de sobrevivência e os possíveis riscos sanitários e ambientais”, afirma Rogério Rocco, superintendente do Ibama no Rio de Janeiro.
É aí que começa a parte mais delicada da história. Uma onça acostumada à presença humana pode perder justamente um dos instintos fundamentais para sobreviver: o de fugir. Também precisa ter saúde, mobilidade, capacidade de se alimentar e comportamentos compatíveis com a vida selvagem. E há ainda uma questão que não depende apenas do animal: encontrar território suficiente e seguro para recebê-lo. Uma pesquisa no Parque Nacional da Serra do Itajaí, em Santa Catarina, mostrou que dois machos monitorados por GPS vivem em 200 quilômetros quadrados, sendo que, em um dos casos, 40% do espaço utilizado pelo animal fica fora dos limites da unidade de conservação. “Atropelamentos, caça e conflitos com moradores e animais domésticos estão entre os riscos que precisam ser considerados”, relata a analista ambiental Bianca Laviski, bióloga do Cetas.
Enquanto a decisão sobre as onças fluminenses segue sem definição, manter os dois felinos sob cuidados humanos é uma operação permanente: para se ter uma ideia, cada um deles consome cerca de 6 quilos de carne por dia. Em julho de 2025, uma das onças passou por uma bateria de exames que mobilizou dezessete profissionais da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ). Ela recebeu um colar de monitoramento que poderá acompanhar seus deslocamentos caso seja liberada. “O equipamento é fundamental e permite verificar a adaptação ao novo território”, explica Rocco. Mesmo quando há condições para a soltura, a situação é desafiadora. O problema não termina no momento em que um animal atravessa os portões do Cetas. Uma onça acostumada a conviver com contato humano pode perder o comportamento de fuga e se aproximar de casas e estradas. Em 25 de julho de 2024, um acordo judicial firmado entre Inea e Ibama estabeleceu que o estado deveria, entre outras obrigações, fornecer ração, alimentos e medicamentos e contratar exames laboratoriais para os animais do Cetas-RJ, despesas estimadas em mais de 3 milhões de reais por ano. O documento também previa a busca de destinação para vinte macacos-prego, além das duas onças-pardas. “O Estado chegou a fechar um acordo com o novo zoo de Miguel Pereira, mas vetamos porque a prioridade ainda é a reabilitação e reintrodução na natureza. Depois, programas de conservação e santuários particulares, cadastrados como criadouros conservacionistas”, explica Rocco, acrescentando que cerca de 60% dos bichos recebidos nos 27 Cetas pelo Brasil são reinseridos.
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A situação ficou ainda mais incerta nos últimos meses. Desde abril, o Cetas-RJ está fechado em razão de um protocolo sanitário adotado após a identificação de um caso de tuberculose em primatas na unidade. Por medida de segurança, nenhuma transferência de animais pode ser realizada até a conclusão dos procedimentos previstos no protocolo e a comprovação das condições sanitárias. Isso significa que, por enquanto, as onças não têm sequer uma data prevista para deixar o centro. No fundo, a pergunta não é apenas onde colocar as duas onças-pardas, mas em que condições elas devem permanecer.
GIGANTE DAS AMÉRICAS
Os detalhes do felino ameaçado
NOME CIENTÍFICO: Puma concolor
TAMBÉM CONHECIDO COMO: suçuarana, puma, leão-baio e onça-vermelha
ONDE VIVE: é o mamífero terrestre de maior distribuição geográfica na região Neotropical, ocorrendo originalmente do sul do Canadá ao extremo sul da América do Sul. No Brasil, está presente em todos os biomas
JEITO DE SER: solitário e territorial, marca seu espaço com sinais de cheiro, como urina e fezes. É ágil e tem hábitos principalmente noturnos
O QUE COME: carnívoro, alimenta-se de uma grande variedade de animais, dos roedores aos tatus, passando por veados e porcos-do-mato
TAMANHO: é o segundo maior felino das Américas. Machos adultos podem pesar de 48 a 72 quilos; já as fêmeas, de 30 a 48 quilos







