Vantagens e polêmicas dos óculos com softwares de inteligência artificial
O gadget ajuda atletas a monitorar e registrar os próprios treinos, mas também tem levantado debate sobre privacidade
Se a função básica de um par de óculos é corrigir e proteger a visão, a disseminação de lentes e armações integradas a softwares de inteligência artificial elevou-o a gadget. Interativos, esses acessórios filmam e fotografam discretamente e ainda trazem outros recursos na lente para os usuários.
A italiana EssilorLuxottica, responsável por fabricar os modelos das marcas mais conhecidas, Ray-Ban e Oakley, vendeu mais de 7 milhões de unidades equipadas com inteligência artificial em 2025 — e a turma do esporte já aderiu em massa. No ano passado, a Oakley e a Meta lançaram um modelo voltado a atletas de alto rendimento.
O surfista carioca Gabriel Pastori, 38 anos, que está passando uma temporada nas Maldivas, começou a usar para produzir conteúdo sobre os bastidores do seu trabalho. “Infelizmente não dá para usar no mar. Mas é ótimo para captar a vibe real do surfe, sem que as pessoas se sintam inibidas, o que aconteceria com uma câmera ligada”, avalia ele, que também consulta o apetrecho para ver a previsão do tempo e escolher o canto da praia em que vai pegar onda. “No Rio, a força e a direção dos ventos faz diferença. Enquanto me arrumo pela manhã, pergunto essas informações para os óculos”, conta.
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Aparelhos usados junto ao corpo, como relógios, anéis e pulseiras, que captam dados de saúde e desempenho em tempo real despontaram como principal tendência fitness global em 2026, segundo o American College of Sports Medicine (ACSM). “O relógio ainda é o mais utilizado. Os óculos são desejados, mas o tempo de duração da bateria ainda é um obstáculo”, observa Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS).
A atleta amadora Dani Germano, 34, moradora do Jardim Botânico, carrega no pulso um smartwatch para monitorar os treinos de corrida de rua. E, por isso, destina o seu smartglass, um Ray-Ban Meta adquirido no final de 2023, para capturar imagens para as redes sociais. “Penso em comprar outros óculos, desde que a câmera seja melhor e não precise parar toda hora para carregar”, afirma ela. O modelo mais recente do Ray-Ban tem bateria com autonomia de oito horas.
Preparador físico do time de futebol Al Wasl, nos Emirados Árabes, em Dubai, o tijucano Felipe Carvalho, 35, é adepto do relógio e do anel inteligente para controlar os dados de saúde e definir a carga dos treinos. Mas, na academia prefere o óculos, que, segundo ele, distraí menos que o celular. “Eu também gravo parte da minha série para ver como estou executando os exercícios de maior complexidade e, se necessário, poder corrigir a postura.”
No Brasil, os óculos rendem polêmicas, com a publicação de vídeos de “pegadinhas” nas redes sociais, sem que os envolvidos saibam que estão sendo filmados. Recentemente, o Instituto de Defesa de Consumidores e a organização Coding Rights pediram que a Agência Nacional de Proteção de Dados, a Secretaria Nacional do Consumidor e o Ministério Público Federal investiguem a comercialização do Ray-Ban Meta no Brasil, sob alegação de risco a privacidade e violação da Lei Geral de Proteção de Dados e do Código de Defesa do Consumidor.
Para Vinicius Padrão, professor e pesquisador do programa de pós-graduação em direito da Uerj, o problema não é o acessório, mas a utilização dele para fins ilícitos. “Aparecer de passagem numa filmagem é uma coisa, virar o foco do vídeo é outra. Publicar as imagens destacando uma pessoa ou ganhar dinheiro com figuras alheias, sem autorização, viola a vida privada”, explica. A captação em ambientes onde há expectativa de privacidade, como consultórios médicos, é crime, e o Código Penal pune tanto o registro não autorizado da intimidade quanto a divulgação do material.
A promessa é enxergar mais, registrar mais e até dispensar o celular em algumas situações. O desafio, agora, é descobrir até onde esse novo olhar pode chegar sem ultrapassar o espaço de quem está do outro lado da lente.
Além das lentes
Como funciona e quanto custa a tecnologia
▶ À primeira vista, são óculos de sol ou de grau comuns, mas internamente contam com pequenos alto-falantes, microfones, câmera compacta, que mostra o ponto de vista (conhecido como POV) e uma pequena tela posicionada no campo de visão.
▶ Possibilitam atender chamadas, verificar mensagens, escutar músicas e receber notificações em tempo real. O usuário dá instruções por comando de voz ao aparelho.
▶ Os óculos são configurados com o aplicativo da Meta AI nos smartphones da Apple ou Android.
▶ Os modelos custam de 3679 reais (segunda geração do Ray-Ban Meta Wayfarer, cuja bateria dura oito horas) a 4599 reais (Oakley Meta Vanguard, resistente a suor, água e poeira, e integrado a dispositivos como Garmin e Strava).







