Com obras mais acessíveis e novos compradores, ArtRio chega à 16ª edição

Feira de arte dá o primeiro passo para dissolver o tabu em torno dos preços praticados no mercado e incentiva visitantes a transformarem admiração em aquisição

Por Carolina Ribeiro 11 set 2026, 08h00
Jogo da arte: carioca Marcela Cantuária em seu refúgio criativo no Grajaú
Jogo da arte: carioca Marcela Cantuária em seu refúgio criativo no Grajaú (Dani Dacorso/Veja Rio)
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Com obras mais acessíveis e novos compradores, ArtRio chega à 16ª edição Priorizar nos meus resultados Google

No final de agosto, Maxwell Alexandre, 35 anos, um dos nomes de maior projeção da atualidade na arte contemporânea brasileira, colocou à venda a gravura em papel pardo Homem Branco. Preço: 1 500 reais. Quem passou pelo festival de cultura urbana Arte Core, no MAM Rio, levou um susto ao esbarrar com o carioca da Rocinha vendendo ele próprio a obra, além de prints e outras séries, por 300 a 3.000 reais. “Artista tem que passar vergonha. A reação mais curiosa foi de outros criadores, que não esperavam me ver ali”, diz. Se tivesse colocado os valores à mostra, acredita, teria vendido até mais. “O público tem uma relação de contemplação com o meu trabalho, e não de aquisição. O cubo branco da galeria é um ambiente intimidador”, avalia. No ano passado, Maxwell deixou o métier das artes em polvorosa com uma misteriosa e sintética postagem. “Um milhão num quadro”, escreveu. Por nada ele revela qual tela foi arrematada pela quantia de sete dígitos. A galeria que o representa, Almeida & Dale, de São Paulo, tampouco dá pistas. “Não comentamos publicamente informações confidenciais sobre transações ou identidade de colecionadores”, afirma a sócia-diretora Hena Lee. Do preço mais baixo ao quadro milionário, a pergunta é a mesma: afinal, como se determina o valor de uma obra?

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Vida real: um dos principais nome da produção atual, Maxwell Alexandre está vendendo gravuras e prints fora do circuito da galeria
Vida real: um dos principais nome da produção atual, Maxwell Alexandre está vendendo gravuras e prints fora do circuito da galeria (Dani Dacorso/Veja Rio)

É justamente esse universo que a ArtRio, na Marina da Glória, ajuda a decifrar. Entre quarta (16) e domingo (20), Maxwell e outros artistas poderão ser apreciados — e comprados — na 16ª edição da feira, que reúne 95 galerias e instituições. O evento funciona como um termômetro das artes plásticas nacionais, apontando tendências e os nomes mais valorizados da cena atual. Ponto de encontro de curadores, galeristas, colecionadores e, sim, de quem quer ver e ser visto, a ArtRio chega à nova edição com uma novidade que traduz bem a transformação desse mercado: um selo para identificar obras que custam mais de 20 000 reais. A iniciativa surgiu a partir de um mapeamento feito pela gigante Dream Factory, parceira na organização, que avaliou em 25 000 reais o tíquete médio das aquisições em 2025. “A ArtRio é um ambiente para entender como caminha o mercado. Há quinze anos, as pessoas iam para conversar. Hoje, o perfil é outro”, observa a gerente de relacionamento da feira, Vivian Gandelsman. Mais do que dar uma noção sobre o preço, a iniciativa pode ajudar a aproximar o visitante da compra. Um estudo da plataforma internacional Artsy revela que as galerias que exibem os valores de seus quadros e esculturas têm 80% de conversão em vendas, confirmando a teoria de Maxwell Alexandre. “Somos pioneiros ao implementar esse selo de transparência”, aposta Vivian, esclarecendo que fica a critério de cada galeria aderir.

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Mercado aquecido: “Há quinze anos, as pessoas iam à ArtRio para conversar. Hoje, o perfil é outro, as pessoas vão comprar”, diz a gerente de relacionamento da feira, Vivian Gandelsman
Mercado aquecido: “Há quinze anos, as pessoas iam à ArtRio para conversar. Hoje, o perfil é outro, as pessoas vão comprar”, diz a gerente de relacionamento da feira, Vivian Gandelsman (ArtRio/Divulgação)

 

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Bruno Lyfe credito Dani Dacorso
Destaques de 2025: pinturas de Bruno Lyfe valorizaram 175% em dois anos (Dani Dacorso/Veja Rio)

E, se o mercado está mais aberto à compra, também há uma nova geração chegando para disputá-lo com talento e preços mais acessíveis. Entre os sucessos na última ArtRio, Bruno Lyfe, 35, participou do programa Solo com sete pinturas da série Ventar o Tempo, além de exibir obras no estande de Anita Schwartz, que representa seu acervo. Quem quis levar para casa um exemplar teve de enfrentar fila. A galerista estima que, em dois anos, as telas de Lyfe valorizaram 175%. O prestígio se consolidou quando o arquiteto responsável pela decoração da casa de Anitta pediu uma reprodução de um quadro em escala maior. O jovem criado em Ramos não faz trabalhos por encomenda, mas abriu ali uma exceção. E como valeu: “Choveram ligações para a galeria de gente querendo comprar uma obra minha, mas ninguém tinha ideia de quanto custava”, conta o artista. Sem uma base de comparação com as cifras praticadas por colegas de sua geração, Lyfe diz que o maior aprendizado foi dizer não em nome do que acredita. “Recebi convites tentadores para fazer parcerias com marcas, mas não quis”, afirma o pintor, que na ArtRio apresentará três desdobramentos da série que o consagrou, que mistura iconografia colonial com imagens cotidianas periféricas.

Artista de cabelos longos e escuros, vestindo camiseta branca e calça estampada, sorri em seu ateliê. Ao fundo, uma tela oval azul e um quadro colorido com figuras e elementos 3D, além de um vaso de flores sobre um banco de madeira
Obra inédita: carioca Marcela Cantuária produziu uma pintura-escultura para a ArtRio (Dani Dacorso/Veja Rio)
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Parte dessa turma que desponta enfrenta outro desafio: manter o interesse do mercado em alta. Carioca do Grajaú, Marcela Cantuária, 34, recorre ao ineditismo como ferramenta para se manter no mainstream. Para a feira, levará uma pintura-escultura —  a soma das técnicas, ela explica, valoriza o passe. “As pessoas anseiam por novidades. O colecionador não quer fazer álbum de figurinhas. Se não for inédito, a galeria nem mostra”, reconhece a pintora, representada pela A Gentil Carioca, um celeiro de artistas em rota ascendente. Avessa ao circuito no início da carreira, Marcela passou a frequentar a ArtRio nos últimos anos, incentivada por amigos. “Achava impuro ver minha obra sendo comercializada numa vitrine”, confessa ela, agora já mais à vontade com a ideia. A aproximação com o mercado, no entanto, não eliminou um velho tabu: quanto custa uma obra? Valores ainda são um assunto cercado de sigilo, com a própria organização do evento e as galerias contribuindo para uma espécie de blindagem em torno dos números e do resultado das vendas. Nos corredores, que tudo reverberam, porém, circula que, no ano passado, uma obra de Amilcar de Castro foi arrematada por 1,7 milhão de reais; outra, de Tunga, por 960 000 reais; e uma de Djanira (1914-1979), por 450 000 reais. Sinal de que o mercado também está para peixe grande.

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Recorde histórico: seis galerias brasileiras participaram da última edição da Art Basel, principal feira de arte do mundo (./Divulgação)
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Essas cifras fazem parte de um negócio muito maior. Segundo o relatório O Tamanho do Mercado de Arte no Brasil, realizado pela plataforma Act em parceria com a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), nosso mercado movimentou 3,1 bilhões de reais no ano passado. O estudo mostra que, entre 2021 e 2025, houve crescimento médio de 8% ao ano. Parte dessa alta reflete os investimentos feitos pelas galerias, responsáveis pela precificação, comercialização e por alçar voos ainda mais elevados para os artistas que representam, com participação em exibições internacionais e presença em coleções renomadas. É também por essa engrenagem que um artista pode multiplicar seu valor em poucos anos. “Hoje, um artista promissor começa vendendo obras por 10 000 a 40 000 reais. Três anos depois, costuma chegar ao patamar de 100 000 a 150 000 reais”, estima o colecionador e colunista de VEJA RIO Fabio Szwarcwald. O gestor cultural integra uma turma que migrou do mercado financeiro para o colecionismo. “Comprar obra de arte é um ativo que se valoriza com o tempo, mas, diferente de uma ação, tem pouca liquidez. Se eu comprar uma Beatriz Milhazes e quiser vender amanhã, é claro que vou conseguir. Mas, a depender da velocidade que eu precisar do dinheiro, o deságio pode ser um pouco alto”, pondera Szwarcwald. O bom negócio, ele diz, é quando uma obra passa a valer dez vezes o preço pago — o que nem sempre acontece.

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Sistema tributário: Ricardo Sardenberg, presidente da Associação Brasileira de Arte Contemporânea, critica a burocracia para exportar obras de arte (Bruno Leão/Divulgação)
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O crescimento, porém, ainda coloca o Brasil em uma posição pequena no mercado internacional. No panorama global das artes, o país representa menos de 2% das transações. Em documento divulgado pela Art Basel, considerada a feira mais importante do mundo, na Suíça, a venda de pinturas, esculturas e gravuras totalizou 59,6 bilhões de dólares em 2025, um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. Na edição deste ano, que aconteceu em junho, o Brasil bateu recorde histórico de participação no evento, com seis galerias — entre elas, A Gentil Carioca, Fortes DíAloia & Gabriel, Mendes Wood DM e Almeida & Dale. O feito expôs, ao mesmo tempo, a força da produção nacional e as dificuldades para levá-la ao exterior. Junto à participação inédita, veio à tona o debate sobre o regime tributário brasileiro — segundo galeristas, desfavorável ao sistema da arte. “Chega a ser constrangedor quando a gente lida com países da Europa e os Estados Unidos. É um processo insano, incrivelmente burocrático para enviar uma obra de arte para fora do Brasil. Demanda uma pessoa dedicada a emitir dezenas de notas de circulação e não leva menos de trinta dias, sendo vinte só para sair daqui”, reclama Ricardo Sardenberg, presidente da Abact, lembrando: outros países fazem o mesmo em dois dias e sem taxação.

Mulher de cabelos cacheados castanhos sorri levemente, vestindo blusa preta, em frente a uma parede com pinturas de rostos femininos e círculos coloridos. À direita, uma escultura de cerâmica marrom em formato de coração com duas aberturas e uma serpente preta estilizada no centro
Promessa de estouro: Vaso-Plano Maria, de Adriana Varejão, é uma das apostas do estande da galeria Flexa na ArtRio (Vicente de Mello/Divulgação)

Apesar das barreiras, a arte brasileira já conquistou espaço — e diversidade — no circuito internacional. Artistas do porte de Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Vik Muniz, Cildo Meireles, Carlos Vergara e Anna Bella Geiger, com obras espalhadas por coleções mundo afora, são a prova viva de que a produção nacional ultrapassou fronteiras. Na vitrine, o país expõe ainda uma face mais plural, com artistas mulheres, indígenas, pretos, periféricos e LGBTQIA+ no radar. O fazer artesanal também desponta entre os destaques da ArtRio, que dedica o programa O Brasil Contemporâneo às manufaturas, com muito bordado, tecelagem, escultura de cerâmica, bronze e madeira. Nesta edição, a promessa de sucesso é o Vaso-Plano Maria, de Adriana Varejão, composta por duas pinturas inspiradas nas superfícies das cerâmicas esmaltadas da dinastia Song, da China, que será apresentada no estande da Flexa. Outro spoiler da galeria é uma obra do monumental Anish Kapoor. Ambas estarão à venda, mas os valores só in loco. Para quem não for até a Marina da Glória, o Circuito dos Ateliês do Centro, dentro da Semana de Arte do Rio, de quarta (16) a 27 de setembro, terá mais de 150 espaços de experimentação artística de portas abertas. É uma outra maneira de furar a bolha de um mercado que ainda preserva suas etiquetas. “A arte não é um espaço democrático. O processo é fechado. Você faz a obra, manda para a galeria e quem tiver os códigos que acesse. Para mim, é uma necessidade pisar fora do ateliê”, diz o disruptivo Maxwell Alexandre. É o que ele e outros de sua geração vêm fazendo. Que sejam bem apreciados.    

 

Made in Brazil 

Números que fazem o mercado das artes girar no país 

Teto de tecido em tons de marrom, laranja e branco, formando um mosaico geométrico sobre uma passarela. Abaixo, pessoas caminham em direção a um pavilhão iluminado com a inscrição Pavilhão Mar, ao entardecer. Uma mulher de blazer preto e calça escura caminha à esquerda. Ao fundo, tendas brancas e um banner verde com Feira de Arte do Rio de Janeiro.
Vai começar: 16ª edição da ArtRio vai de quarta (16) a domingo (20), na Marina da Glória (Bruno Ryfer/Divulgação)

95 galerias e instituições participam da ArtRio de 2026 

3,1 bilhões de reais é o valor movimentado pelo mercado de arte no Brasil em 2025 

8% é quanto o segmento cresceu por ano no país entre 2021 e 2025 

Homem idoso de cabelos brancos, com rugas no rosto, vestindo camisa xadrez clara, olhando para o lado esquerdo com expressão séria, em fundo preto
Rádio corredor: obra mais valiosa vendida na feira do último ano teria sido de Amilcar de Castro (./Divulgação)

1,7 milhão de reais teria custado uma obra de Amilcar de Castro na ArtRio do ano passado 

Homem de cabelo castanho encaracolado e barba rala, sorrindo, veste camisa branca e calça cáqui, apoiado em um corrimão preto. Ao fundo, um prédio de concreto com janelas escuras e céu azul
Arte de colecionar: o gestor cultural Fabio Szwarcwald aconselha novos compradores (./Divulgação)

Manual do Comprador 

Dicas do colecionador Fabio Szwarcwald para não cair em cilada 

Para começar. “Tenha boas referências da galeria que representa o artista.” 

Questão de gosto. “Curtir a obra é fundamental. Ela ficará, afinal, pendurada na parede de casa.” 

Bolso Preparado. “Com 10 000 reais é possível comprar uma obra de um artista promissor em uma feira.” 

Humildade, sempre. “Uma boa saída é perguntar para outros colecionadores se aquela tela que despertou interesse vale mesmo a pena.” 

Portfólio é tudo. “Antes da compra, é bom pesquisar se o artista já participou de exposições internacionais e se há publicações de artigos sobre o trabalho dele.” 

 

Olhar atento

Curadora do programa O Brasil Contemporâneo, da ArtRio, Paula Borghi aponta sete artistas promissores para ficar de olho na feira na Marina da Glória 

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1 Artista visual de Pernambuco dedicada a pintura e escultura, Fefa Lins investiga corpo e sexualidade em sua pesquisa autobiográfica, na qual representa os direitos das pessoas LGBTQIA+. @fefa.lins. 

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2 A relação da arte contemporânea com a natureza é o norte da produção das pinturas de Manuella Karmann, que vive e trabalha em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. @manuellakarmann. 

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3 Performer, pintora, escultora e travesti, Bárbara Banida, do Ceará, esculpe obras em cerâmica que refetem sobre o fim do mundo e a erotização do nascimento. Participou de uma residência e inaugurou a primeira individual em São Paulo. @barbarabanida. 

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4 Surrealismo e pinturas rupestres se encontram nas telas de Mônica Barbosa, artista do Piauí, que reside em São Paulo. Filha de uma bordadeira, adota como materiais de trabalho a tinta acrílica e o giz pastel. @_monica.barbosa. 

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5 O carioca Johny Alexandre Gomes, do Complexo do Chapadão, assina como Jota Explícito. Já passou por exibições em Milão, Lille e Amsterdã, foi selecionado para uma residência no Uruguai e é representado pela MT Projetos de Arte. @explicito___. 

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6 Escultor de Fortaleza radicado em Ipanema, no Rio, Julio Primeiro mistura materiais de origem natural com descartes da construção civil para criar peças orgânicas e geométricas. Participou da última SP-Arte, em abril, além de mostras de decoração. @julioprimeiro_. 

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7 O ambiente doméstico e o corpo feminino inspiram as composições da sergipana Tathyana Santiago, que participou de coletivas da Rotas, em agosto, e da SP-Arte, em abril, em São Paulo. @tathyana.art 

 

 

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