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Obesidade e coronavírus: como um IMC maior aumenta seu risco?

Estudos mostram que obesos estão mais vulneráveis à doença, inclusive jovens. Clínico-geral e mestre em endocrinologia, Fabiano Serfaty explica o porquê

Por Carolina Barbosa - Atualizado em 4 jun 2020, 15h33 - Publicado em 4 jun 2020, 15h31

Cerca de um ano atrás, o primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, foi taxativo ao dizer a um grupo de liderança em Exeter que desejava ver mais trabalhos com crianças para que elas se exercitassem mais em vez de introduzir impostos sobre o açúcar para itens calóricos como milk-shakes. Segundo seu pensamento, à época, apenas a mudança de comportamento já seria a mola propulsora para um novo estilo de vida.

Em abril deste ano, no entanto, diante da pandemia do novo coronavírus, o político foi atingido pela doença, tendo sido internado por uma semana, com direito a três dias de UTI. Aos 55 anos, seu IMC (índice de massa corpórea obtido pela divisão do peso pela altura ao quadrado) é 36 kg/m² (o normal, como se sabe, é entre 18 e 25, sendo acima de 30 já considerado obesidade). Diante do susto e do agravamento da pandemia no Reino Unido, reverteu o discurso num encontro com a alta cúpula do governo: “Eu mudei de ideia. Precisamos ser muito mais intervencionistas”, cravou.

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Não por acaso, o que levou o premier britânico à reflexão foi uma razão já sabida, porém menosprezada por muitas autoridades: a obesidade (que se traduz na elevação do índice de massa corpórea) está intrinsecamente ligada à Covid-19. Diversos estudos recém-publicados mundo afora demonstram que ela é o principal fator de risco entre pacientes infectados abaixo dos 60 anos. O motivo? “Assim como o coronavírus, a obesidade é uma pandemia em expansão e esta é uma combinação gravíssima”, alerta o clínico-geral e mestre em endocrinologia Fabiano Serfaty.

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De acordo com o médico, o excesso de peso, por si só, já é capaz de provocar um estado de inflamação crônica, o que frequentemente faz com que o sistema imunológico da pessoa entre em desequilíbrio com mais facilidade para responder às situações causadas pela infecção do vírus.

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Em outras palavras, o tecido adiposo fragiliza o sistema imunológico, deixando os pacientes acima do peso mais vulneráveis à ação de vírus e bactérias e, quando infectados, dificulta a resposta das defesas do organismo frente ao vírus. “O sangue do paciente obeso apresenta níveis mais altos de vários marcadores inflamatórios, que são semelhantes àqueles que o nosso organismo gera em resposta à presença do Sars-CoV-2. As evidências científicas apontam que o sistema imunológico desse grupo tende a reagir de forma mais exagerada para combater a infecção e acaba trabalhando mais e se desgastando. Ou seja, não apenas por todas as comorbidades associadas, como hipertensão arterial e diabetes, mas o próprio estado inflamatório agrava o quadro”, explica Serfaty.

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Atualmente, a obesidade atinge um a cada cinco brasileiros. Médicos costumam sinalizar que o excesso de peso sobrecarrega o organismo como um todo, exige mais do coração, força os pulmões, fígado, rins e pâncreas, além das articulações. Tamanho esforço, por vezes hercúleo, afeta a capacidade pulmonar, uma vez que é preciso levar oxigênio para uma área muito maior do que a capacidade original do pulmão.

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Uma pesquisa recente nos Estados Unidos com 4 103 pacientes demonstrou que pacientes com menos de 60 anos portadores da obesidade apresentaram o dobro de chances de serem hospitalizados. Outro estudo chinês analisou um grupo de 112 pacientes com Covid-19 e concluiu que 88,24% dos doentes não sobreviventes ao vírus tinham índice de massa corporal (IMC) > 25 kg/m2.

De acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, 73% dos pacientes gravemente doentes com Covid-19 na Itália, Espanha, Suécia, Suíça e Holanda são obesos. Entre eles (aqueles que apresentam o índice acima de 30), o risco de morte hospitalar relacionada ao coronavírus aumenta de 1,5 a 2 vezes e passa de 2 vezes para aqueles com um IMC de 40 ou mais. “Daí a importância de jamais interromper o tratamento da doença, sobretudo em tempos de pandemia, e colocá-lo como prioridade, a fim de não criar mais cenários favoráveis a este vírus, que ainda temos muito a descobrir”, complementa Serfaty.

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