Por que as novelinhas verticais vêm fazendo tanto sucesso?
Histórias curtas, ritmo frenético e linguagem direta fazem das novelinhas verticais um fenômeno global — e movimentam uma nova cena audiovisual no Rio
Numa cidade do interior, uma jovem batalhadora mora com a tia gananciosa e a prima consumista. A chegada do herdeiro de um grande investidor mobiliza mãe e filha, que armam um plano para fisgar o ricaço. No entanto, o destino costura os caminhos do partidão com a gata borralheira da família. Em apenas 150 segundos, Nosso Horizonte, produzida para o aplicativo Pop! Pop! Pop!, entrega todo o tom da trama.
Esse padrão é uma exigência das novelas verticais, consumidas exclusivamente pela tela do celular. Repletos de traições e reviravoltas, os capítulos dificilmente ultrapassam três minutos. Com arquétipos definidos, ritmo intenso e imagem comprida, os enredos conquistam um público ávido por entretenimento.
Alavancado em 2022 no Brasil pela plataforma chinesa Kwai, o formato acumula mais de 100 bilhões de visualizações só nesse aplicativo. O sucesso, somado aos custos reduzidos de produção, chamou a atenção das principais companhias de comunicação do país, que decidiram apostar nas novelinhas para fidelizar novos telespectadores ó caso da Editora Abril.
“A ideia é atrair um público novo, que não necessariamente nos acompanha. Já produzimos três microdramas e a meta é disponibilizar outros nove até o fim de 2026”, explica Erik Carvalho, diretor de monetização, logística e clientes da empresa.
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Só em 2025, esse mercado global faturou 11 bilhões de dólares. Com a popularização do formato no Brasil, gigantes como Globo e TikTok entraram na onda.
A plataforma Globoplay disponibiliza desde originais, a exemplo de Tudo Por Uma Segunda Chance, estrelada por Debora Ozório e Jade Picon, a spin-offs com cenas extraídas de folhetins, caso de Kelmiro, um resumo da trajetória do casal Kelvin (Diego Martins) e Ramiro (Amaury Lorenzo), de Terra e Paixão.
Aproveitando o sucesso do casal Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), da trama das 9 Três Graças, Loquinha aprofunda o enredo romântico com tomadas inéditas.
“Era nítido o quanto o público queria conhecer mais dessa dupla. Então, poder trazer uma história dedicada só às duas, como um presente para as fãs, foi extremamente satisfatório”, celebra a atriz Alanis Guillen.
O segmento também se desenha como opção para artistas independentes. Não é incomum uma única pessoa ocupar múltiplas funções, aos moldes de Charlie Chaplin (1889-1977).
“A internet é mais democrática, então consigo conquistar outros públicos”, afirma o carioca Alessandro Cerqueira, ator, diretor, produtor e roteirista que encontrou nos microdramas uma maneira de burlar um meio saturado. Ele abriu uma produtora de novelas verticais e acumula mais de 300 000 seguidores no Instagram.
O triunfo das narrativas simples e ‘a jato’ é um reflexo da sociedade pós-moderna. “Essas histórias são calcadas em temas universais, como amor e traição. Isso explica também porque as novelas turcas e coreanas têm tanto apelo”, reflete Pedro Curi, coordenador do curso de cinema e audiovisual da ESPM.
Sem muito espaço para experimentar linguagens, o desenvolvimento das tramas exige ganchos e diálogos expositivos. “A principal diferença de estrutura é o tempo. Na vertical, precisamos seguir regrinhas para captar a atenção do público. Eu gosto de trazer um estímulo diferente a cada três segundos”, diz Alessandro Cerqueira.
A menor complexidade narrativa não se reflete, no entanto, nos sets de filmagens. “É necessário muito planejamento e organização para que dê certo”, analisa Ciro Sales, galã de Nosso Horizonte.
Quem é do ramo garante que o modelo vertical não vai substituir os folhetins tradicionais ó mas, no ritmo acelerado do consumo atual, as novelinhas parecem feitas sob medida.
Na tela do celular
Plataformas para maratonar os microdramas
POP! POP! POP! O app da Abril investe em títulos próprios, como Nosso Horizonte, Reconquista do Amor e Sabor de Família, além de séries internacionais dubladas.
GLOBOPLAY. O streaming da Vênus Platinada tem uma aba dedicada ao formato. Despontam os originais Loquinha e Tudo Por Uma Segunda Chance.
DRAMABOX. A plataforma chinesa é focada em romances intensos, dramas familiares e subcategorias como “amor proibido” e “triângulo amoroso”. No catálogo se destacam Fugir com o Bebê do Chefe e Beijando o Irmão Errado.
REELSHORT. Também da China, a empresa é especializada em títulos de impacto emocional envolvendo dinheiro e vingança, com Na tela do celular Plataformas para maratonar os microdramas temas ao estilo “relacionamento tabu”. Entre os sucessos estão Volte Para Mim, Meu Amor de Infância.
SHORTMAX. O app de origem asiática é focado em minitramas imersivas e dispõe de sucessos a exemplo de Encontro do Destino e A Cirurgiã da Última Chance.
PINEDRAMA. A marca do TikTok é especializada em histórias curtas, com acesso totalmente gratuito e integração com a dinâmica de consumo rápido das redes sociais. Amor às Avessas e O Último Acordo são alguns destaques.







