“O mundo voltou a olhar para o Brasil”, diz Raphael Montes

Após conquistar o streamings e o mercado editorial, o escritor prepara a estreia de Jantar Secreto nos Estados Unidos e reflete sobre o fascínio pelo horror

Por Renata Magalhães 19 jun 2026, 10h05
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Raphael Montes: “Queremos saber por que alguém é capaz de cometer atos monstruosos”  (Julia Mataruna/Divulgação)
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Quatro amigos do interior do Paraná se mudam para o Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para se manter na faculdade. Atolados em dívidas, decidem arrecadar fundos por meio de eventos macabros para a elite carioca. A trama de Jantar Secreto, lançada por Raphael Montes em 2016 e que alcançou o topo das principais listas de ficção mais vendidas do Brasil no ano passado, está ganhando o mundo.

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O livro sai em agosto nos Estados Unidos e foi destaque no New York Times, indicado como a leitura do verão. Pelas bandas de cá, o autor, que virou referência em suspense, fará uma reedição da obra com um capítulo inédito. Além disso, seu novo título, A Estranha na Cama, chega às livrarias em julho e vai virar filme da Netflix, estrelado por Paolla Oliveira, Bella Campos e Vera Fischer.

Depois do sucesso das três temporadas de Bom Dia, Verônica e do fenômeno Beleza Fatal, novela de estreia do streaming HBO Max, Montes assina em 2026 o roteiro e a produção de Elize — A Sombra de uma Mulher, inspirado no caso de Elize Matsunaga. Em entrevista, ele fala sobre o carimbo no passaporte para a literatura mundial e explica o seu fascínio pelo horror. 

Como uma publicação de 2016 voltou aos mais vendidos no ano passado? É comum que um livro encontre leitores aos poucos e cresça por indicação ao longo do tempo. Houve momentos decisivos, como um vídeo viral de 2024, além da visibilidade que ganhei com meus projetos para o audiovisual. Isso aconteceu num momento em que não só escritores nacionais, como Socorro Acioli, Carla Madeira e Itamar Vieira Junior, estão sendo valorizados, mas toda a nossa arte de uma forma geral, impulsionada pelo sucesso dos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. O mundo voltou o olhar para o Brasil.

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 O que essa internacionalização significa para a sua carreira? Existe uma diferença entre ser um escritor exótico que tem uma obra traduzida e ser lançado como um autor internacional. Os latinos são publicados em outros países com um aspecto quase fetichizante. Através de uma agente literária prestigiada, consegui uma editora disposta a investir na minha carreira. Foi uma oferta boa, com um valor de seis dígitos, alto até mesmo para o padrão lá de fora. 

Os estrangeiros vão se identificar com essa história? Por mais que se passe em Copacabana, Jantar Secreto é sobre jovens tentando sobreviver em um mundo com um índice de desemprego enorme. Falo sobre ambição e os limites éticos e morais que cada um está disposto a cruzar. Usei uma trama extrema para discutir poder, desigualdade e os excessos de uma elite que se considera superior, e por isso come pobres. Olha que isso foi antes da inteligência artificial e do caso Jeffrey Epstein vir à tona.

 O Brasil ganhou três milhões de novos leitores em dois anos. As redes sociais tiveram influência nisso? Paramos de depender apenas da crítica especializada quando pessoas comuns passaram a compartilhar suas opiniões, transformando a leitura em assunto, como acontece com dicas de restaurantes ou conteúdos de look do dia. Isso derruba a ideia de que livro é algo para poucos. As bienais e feiras literárias pelo país também ampliaram o acesso. 

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De onde vem o fascínio pelo perturbador? Queremos saber por que alguém é capaz de cometer atos monstruosos. Tanto que 80% do público que consome true crime é formado por mulheres, que, segundo pesquisas, buscam entender por que sofrem tanta violência. A ficção permite viver o medo na segurança de um livro, e até exercitar o nosso lado mais sombrio. Além disso, vivemos em uma época marcada por crises, guerras, mudanças climáticas e transformações tecnológicas. O horror é uma ferramenta forte para falar desses pavores contemporâneos. 

Recentemente, a trama do filme A Orfã se tornou realidade com a mulher que se passou por criança para ser adotada. A ficção pode inspirar crimes? Até pode, mas a realidade costuma ser ainda mais absurda do que qualquer história inventada. Fora que elas chegam aos leitores de formas totalmente imprevisíveis. Quando escrevo, não penso em como a obra vai impactar cada um, pois já aprendi que é algo impossível de ser calculado. 

Qual é a receita de um bom suspense? Personagens complexos, que não se revelam logo nas primeiras páginas. Assim como acontece na vida real, devemos descobri-los aos poucos. Também gosto de reviravoltas, e é essencial que haja um final surpreendente. No meu caso, sempre procuro escrever algo que faça uma provocação ou desperte uma reflexão. É isso que me motiva a passar anos trabalhando em um livro.

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Como é ver seus personagens tomarem corpo nas adaptações para cinema e streaming? Entendo que aquela é apenas uma das leituras possíveis. De certa forma, a história é aprisionada ao ser colocada na tela — já não é mais fruto da imaginação de quem lê. Quando comecei no audiovisual, não tinha muita voz. Minha chance veio com Bom Dia, Veronica, pois fui contratado para ser o criador e o produtor executivo, acompanhando todo o processo. É legal conseguir ter um olhar costurando tudo e, desde então, não abro mão disso. 

De onde vem a inspiração? O artista precisa ter uma antena para o mundo. Ouvir as pessoas, ver o que está sendo feito, o que anda movendo uma sociedade. Em Uma Família Feliz, parti de conversas com amigas sobre maternidade. Logo descobri a comunidade de mães de bebê reborn e quis colocar na trama, um ano antes de atingir a proporção que tomou. Tenho sempre o ouvido atento, até mesmo na mesa de jantar com aquele tio que fala absurdos com certa naturalidade. 

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