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Raízes: minidocumentário resgata a cultura do Carimbó no Rio

Produção de alunas da PUC-Rio desperta curiosidade para a expressão popular e folclórica, que une música, ritmo, dança, instrumentos peculiares e poesia

Por Brenda Gusmão e Julia Santiago*
Atualizado em 24 jan 2022, 08h21 - Publicado em 18 jan 2022, 19h09

Uma manifestação artística que transmite ancestralidade, valoriza a liberdade, preza pelo cuidado com a natureza e pela conexão consigo e com o outro: o Carimbó do Projeto Aturiá é leveza, acolhimento e sustentabilidade.

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Para além da “graça natural”, a tradição paraense difundida pelo coletivo traz em sua essência o protagonismo feminino, que treme, sensibiliza e encanta o solo carioca. Essa é a cena cultural retratada por Raízes, documentário produzido e dirigido por Fernanda Vidon e Júlia Belloube, estudantes do sétimo período de Jornalismo. 

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O minidocumentário foi idealizado a partir de proposta do professor Luís Nachbin, de Laboratório de Telejornalismo, de trabalhar em produções audiovisuais os subterrâneos culturais do Rio de Janeiro. As alunas deveriam documentar uma cena de menor visibilidade. Elas descobriram o projeto Aturiá e Júlia estabeleceu logo contato com a professora de Carimbó, Andreia de Vasconcelos. A história de vida da professora e o projeto despertaram a curiosidade das duas estudantes. 

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Reconhecido desde 2014 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, o Carimbó é uma expressão popular e folclórica que compreende música, ritmo, dança, instrumentos peculiares e poesia expressa nas letras das canções, que repassam saberes e memórias. Originário do Pará, carrega em si um agrupamento de influências culturais indígenas, negras e ibéricas, e resiste desde o século XVII sob forma de herança e modos de vida. 

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Historicamente, o Carimbó se caracterizou como movimento bastante patriarcal e dominado por homens, que eram encarregados de tocar o curimbó – tambor do qual deriva o nome da arte – banjos, e maracas. Às mulheres, eram reservadas as saias e os gestos corporais que compunham a dança.

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Com a luta pela equidade de gênero, o cenário mudou. Invertendo os papéis e mostrando o quão bela é a força feminina, o projeto se mostra um ambiente acolhedor a todos que chegam ali, desde a dupla de jovens curiosas até as francesas que estavam visitando o Rio de Janeiro e tiveram a oportunidade de ouro de se deparar com uma das aulas. 

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A ancestralidade, tão importante para o projeto, não fica apenas com a professora, que faz questão de inserir as mulheres presentes em sua história de vida e nas origens do carimbó, resgatando a dança como algo muito feminino. “O fato de a Andreia ter abraçado tanto a gente nos fez sentir como se fizéssemos parte daquela história, eu não me senti uma estranha, mas sim como se eu fizesse parte daquele universo”, relata Júlia, que tentou captar toda essa energia feminina incrível através das lentes. 

Nascida no Pará, Andreia de Vasconcelos veio ao Rio de Janeiro para trabalhar na área de neurociência, tendo realizado pesquisas no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, na UFRJ, onde também chegou a lecionar e dedicar grande parte do seu tempo.

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Em 2017, já com uma filha, passou por um divórcio que mudou completamente os rumos de sua vida. Diminuiu as horas no laboratório, começou a frequentar rodas de capoeira, de dança popular e de Carimbó, participando de apresentações que despertaram o interesse de outras mulheres que queriam aprender a arte, o que deu origem ao atual projeto Aturiá.

As aulas são procuradas principalmente por mulheres que procuram conectar-se com elas mesmas e com a Terra, ter um momento “eu comigo mesma”. Júlia conta que a conexão com o interior criada pela professora é muito forte, o que é um dos objetivos do projeto.

Andreia faz questão de conectá-las com a sua história e as lições provenientes, abordando a ancestralidade e enaltecendo o feminino. Fernanda, que promete ainda voltar ao projeto, ressalta também a importância do projeto para as mulheres: “É autoestima, se sentir bem, fazer algo por si mesmo, autocuidado”

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Como uma dança tradicionalmente feita em pares de homens e mulheres, na qual os instrumentos são tocados exclusivamente por homens, o Carimbó assume uma nova face ao encontrar o Projeto Aturiá. Além da dança – que é aberta a todos – Andréia também ensina as alunas a tocar instrumentos tradicionais paraenses, detalhe que infelizmente ficou de fora do documentário Raízes. 

O documentário vai muito além de apenas um trabalho acadêmico. É a junção da arte com uma história de vida inspiradora, abrindo espaço à história de outras mulheres e ao protagonismo feminino.

Veja também os outros documentários da série sobre música underground no Rio:

🎧 Acesse o podcast Underground & Nem Tanto para conferir reportagens em áudio sobre o tema.

*Brenda Gusmão e Julia Santiago, estudantes de jornalismo da PUC-Rio, sob supervisão de professores da universidade e revisão final de Veja Rio. 

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