Mães também querem sair para brincar: a volta da vida social pós-filhos
Novas iniciativas criam espaços para mulheres se divertirem e retomarem momentos de lazer, muitas vezes deixados em segundo plano com a chegada dos rebentos
Quando um bebê nasce, parece que a mãe recebe um crachá de acompanhante. Restaurante? Desde que tenha trocador. Carnaval? Melhor esperar. Bar? Nem pensar. Filme? Só em casa. Para desafiar essa lógica, nasceu o CineMaterna, com sessões pensadas para famílias com crianças de até dezoito meses, luz e som mais suaves e trocadores à disposição. O choro e a amamentação fazem parte do pacote, sem olhares de reprovação. Criada em 2008, a iniciativa virou um espelho para uma leva de projetos que hoje tentam responder a uma pergunta simples: quem cuida da mulher enquanto ela se dedica aos filhos?
A empresária Gabriela Pinazo, criadora do Bora, Mamãe!, primeiro aglutinou puérperas em apuros com depoimentos sinceros no Instagram, e depois resolveu tirá-las da frente das telas. O primeiro encontro, em 2022, ofereceu uma raridade no universo materno: algumas horas em que a programação não era exclusivamente infantil. “A gente está sempre em função do filho. Onde fica a mulher quando nasce a mãe?”, questiona ela.
A resposta aparece em formatos variados, do café da manhã com massagem ao samba com cerveja. No Bora, Mamãe!, cuja próxima edição acontece em 3 de outubro, no Parque dos Patins, na Lagoa, as mulheres podem fazer ioga, treino funcional, massagem, maquiagem e participar de rodas de conversa enquanto os pequenos se distraem na recreação. Fabiana Carraro, consultora de estilo e mãe de Angelina, de 6 anos, resume a experiência de um jeito prosaico: por algumas horas, ela não precisa administrar tudo: “É um reencontro comigo.”
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No Ritmo Materno, criado pela atriz e bailarina Paola Dunkler ao vivenciar um baby blues (melancolia pós-parto), mães e bebês dançam juntos e ainda podem tirar dúvidas com nutricionista, terapeuta e fisioterapeuta pélvica. “Quis criar uma comunidade”, explica Paola, que costuma ver mulheres desabafando e acolhendo umas às outras. O segundo encontro acontece neste sábado (26), em Botafogo. Para Aline Passeri, psicóloga e integrante da Comissão de Apoio às Maternidades e Infâncias da Uerj, esses são lugares de pertencimento. “Existe uma solidão e uma sobrecarga imensas. É difícil exercer outras identidades que não a materna”, observa.
É nesse ponto que entram a boêmia, a sambista, a foliona e até aquela que só quer tomar um chopinho. Em Volta Redonda, o bloco Mamãe, Eu Quero Sambar nasceu da vontade de duas amigas, Débora Tavares e Gabriela Faria, de não abrir mão do Carnaval com a chegada dos rebentos. O que começou com a expectativa de reunir uns trinta conhecidos hoje chega a 1 500 pessoas.
No Rio, a jornalista Marina Gonçalves criou o evento Mãe Boêmia depois de ouvir, mais de uma vez, que bar não era lugar de criança. A proposta é justamente ultrapassar essa fronteira: tem samba, cerveja, oficinas infantis, roda de conversa e trocador. “Posso beber dois chopes e continuar cuidando da minha filha”, defende Marina, que vai pilotar uma nova edição em 24 de outubro no Alfa Bar, no Centro. “Lá, a gente consegue ser mãe, cervejeira, ativa e feliz”, descreve a cientista política Luciana Andrade, que deu à luz Rafael há 7 anos. “Há um foco na criança, mas não se fala muito sobre a rede de cuidado e preocupação com a mãe”, aponta a pediatra Anna Tereza Soares de Moura, presidente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro e professora titular da Uerj. Afinal, o zelo com o bem-estar infantil não pode ser sinônimo de confinamento materno.
Bora, bebê!
A pediatra Anna Tereza Soares de Moura dá dicas para curtir com os pequeninos
PREFIRA ESPAÇOS ABERTOS. Ambientes amplos e arejados têm menos exposição a aglomerações. Nos primeiros meses, escolha locais próximos de casa.
FUJA DO SOL. A exposição solar deve ser mínima, principalmente nos primeiros meses. Prefira a sombra, use chapéu com proteção e, a partir dos seis meses, aplique protetor solar.
ATENÇÃO AO CALOR. Ofereça água ou leite materno conforme orientação médica. Observe sinais como vermelhidão, suor excessivo ou mudanças de comportamento.
CUIDADO COM O SOM. Em eventos musicais, mantenha o bebê distante das caixas de som. Pode-se recorrer a protetores auriculares para crianças.
DESCANSO É FUNDAMENTAL. Se o bebê dormir no passeio, é importante que esteja em uma posição segura, com o rosto visível. No carregador, observe sua respiração e sinais de calor excessivo. No carrinho, evite cobri-lo com panos ou mantas.
CALCULE UMA ROTA DE FUGA. Escolha ambientes nos quais seja fácil sair em caso de cansaço, irritação ou desconforto da criança.







