Rio2016 dez anos depois: afinal, qual é o legado olímpico?
A primeira (e até agora única) Olimpíada da América do Sul trouxe avanços palpáveis, mas deixou uma lição de casa ainda por ser feita
Na chuvosa noite de 21 de agosto de 2016, durante a cerimônia de encerramento da Olimpíada no Maracanã, o alemão Thomas Bach fez questão de defender a herança que ficaria para “as futuras gerações”.
“É um legado único. Um Rio antes e outro, muito melhor, depois”, garantiu o então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI).
Passados exatos dez anos, é preciso se imbuir do bem-vindo espírito esportivo para encarar vitórias e derrotas, discernindo o que foi integrado à maravilha de cenário do que não alçou o esperado voo.
E o espólio em questão vai muito além das quadras e arenas — envolve economia, mobilidade, turismo e a projeção internacional da cidade, esse último um item de valor inestimável.
Nas contas da prefeitura, os louros se sobrepõem. “O Rio se serviu da Olimpíada e da Paralimpíada para mudar de uma vez por todas”, defendeu Eduardo Cavaliere, o sucessor de Eduardo Paes, alcaide à época, em celebração no Museu do Amanhã, um potente símbolo da sacudida na Zona Portuária.
Citando um estudo da Fundação Getulio Vargas, o atual ocupante do Palácio da Cidade sublinhou um ganho acumulado de quase 100 bilhões de reais desde quando o município venceu o páreo para sediar os Jogos, em 2009, até 2024.
Mas nem tudo foram pódios.
“O feijão com arroz, que abrange itens estruturais, como segurança e saneamento, é essencial. E nisso a gente pecou”, pondera o arquiteto e urbanista Carlos Murdoch, da Universidade Veiga de Almeida, estudioso do legado da Rio2016.
Não há como negar que a cidade se transformou. Destacam-se na paisagem novos pontos já incorporados à identidade carioca, como o Boulevard Olímpico e o Parque Rita Lee.
Junto com o Radical, em Deodoro, a área de lazer instalada no Parque Olímpico figura na lista das mais procuradas no ano passado por visitantes de fora, de acordo com o Observatório do Turismo, braço de inteligência de dados da Secretaria Municipal de Turismo.
Em quarto lugar nas preferências, o Rita Lee somou 244 921 visitas — isso sem contar a presença de moradores da vizinhança.
“Agora temos opção de lazer perto de casa”, diz a diarista Thais de Souza Cunha, moradora de Jacarepaguá, que no último domingo reuniu quarenta convidados para comemorar ali os 5 anos do filho Bernardo, com direito a piquenique.
Mais central, o Boulevard Olímpico foi um dos primeiros a conquistar o público. Somente durante os 45 dias de competições recebeu 4 milhões de pessoas.
“Até hoje é o maior live site, como são chamados os lugares para assistir às disputas, da história das Olimpíadas. Acabou sendo tão frequentado quanto Copacabana”, gaba-se Gaetano Lops, presidente da Gael Comunicação, que concebeu e dirigiu o espaço.
“A área segue viva e ainda tem muito potencial”, acrescenta, relembrando empreendimentos que continuam a brotar no entorno graças ao Reviver Centro, programa de incentivo a moradia e ocupação de imóveis ociosos.
Uma amostra de que os efeitos de um evento de tamanha grandeza às vezes não são instantâneos, mas vão se revelando ao longo do tempo.
Outro gol olímpico está relacionado à mobilidade urbana, marcado principalmente pela implantação dos BRTs e do VLT, e posteriormente do Terminal Gentileza, construído com estruturas metálicas do antigo Centro Internacional de Transmissão (IBC) — além, claro, da expansão do metrô para a Barra.
“Quem pode imaginar o Rio de Janeiro sem os BRTs, por onde circulam 615 000 pessoas? Eles uniram a cidade”, reforça Cavaliere, lembrando também os desdobramentos proporcionados pela chamada arquitetura nômade, em que estruturas são desmontadas, transportadas e postas novamente de pé.
Sede dos jogos de handball, a Arena do Futuro foi desmembrada em quatro Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs), instalados em Bangu, Campo Grande, Rio das Pedras e Santa Cruz, beneficiando 1 700 alunos da rede municipal.
Já o Estádio Aquático Olímpico foi levado para o Parque Oeste, em Inhoaíba.
Desde o ano passado lá está a piscina utilizada nas emocionadas despedidas do americano Michael Phelps e do multicampeão paralímpico brasileiro Clodoaldo Silva.
O equipamento atende hoje 2 000 pessoas por mês, oferecendo atividades gratuitas de natação e hidroginástica para todas as idades. “É isso que a gente chama de legado olímpico”, reforça o prefeito.
Sob o prisma histórico, porém, especialistas enfatizam que o projeto Rio2016 se fincou em uma premissa bem diferente de edições como a de Barcelona, em 1992, e Londres, em 2012, que se firmaram como modelos de herança olímpica profunda e longeva.
A capital inglesa elegeu uma área degradada, palco de crescimento desordenado, como sede da vila olímpica. E Stratford ganhou vida nova: atualmente abriga um dos maiores shoppings da Europa, três hotéis, setenta restaurantes e trezentas lojas.
“Faltou aqui uma visão mais global. As mudanças foram pensadas para Barra, Centro e Zona Sul, mas a maior parte dos cariocas não mora nesse eixo”, observa Murdoch, destacando que o Rio perdeu uma chance de sanear áreas até hoje carentes de serviço básico.
“Poderíamos ter dado um choque de urbanismo e infraestrutura nas zonas Norte e Oeste, que realmente precisam de cuidado”, ele avalia.
O professor diz que o sistema lagunar da Barra e a Baía de Guanabara também não receberam a atenção devida. Só a partir de 2021 a Águas do Rio e a Iguá assumiram a concessão dos serviços de saneamento, uma atribuição estadual. “A cidade tem 60% de água e esgoto tratados, mas precisa chegar a 100%”, reconhece Cavaliere.
Já no que diz respeito à segurança, num momento em que as UPPs foram postas em xeque, a aposta foi na Força Nacional, o que, para o urbanista, acabou por favorecer o crescimento das milícias.
Agora, a prefeitura aposta na elite da Guarda Municipal, armada, já presente em doze diferentes áreas.
A pandemia e o mandato de Marcelo Crivella (Republicanos), entre 2017 e 2020, também pesaram negativamente sobre o planejado lá atrás.
Segundo Cavaliere, houve um “projeto de destruição” que levou ao abandono dos BRTs e do Aeroporto Internacional Tom Jobim nos tempos em que Crivella comandou a prefeitura.
“O processo de consolidação do legado deveria começar nos primeiros quatro anos, mas foi muito mal conduzido”, dispara o atual mandachuva do município.
É preciso mesmo arregaçar as mangas para fazer com que boas ideias ainda deslanchem, a exemplo do Parque dos Atletas.
Instalado em área particular de 150 000 metros quadrados na Avenida Salvador Allende, está tomado por lixo, mato e entulho, enquanto o Campo de Golfe, na área de preservação ambiental de Marapendi, virou alvo de disputa judicial.
A Floresta dos Atletas, que recebeu mudas com sementes depositadas por representantes das 207 delegações, peca pela falta de conservação ou algumas placas de identificação já nem existem mais.
“As árvores seguem os cuidados ambientais previstos e estão sujeitas às condições climáticas, assim como as placas, que passam por manutenção”, informou em nota a Secretaria Municipal de Esportes.
Há também uma herança invisível, porém tangível, resultado do sucesso do evento que felizmente transcorreu na mais perfeita paz. “Isso contribuiu para o imaginário de que o Rio de Janeiro é um lugar especial no mundo”, acredita Eduardo Cavaliere.
Depois da Olimpíada, e não por acaso, vieram reuniões das cúpulas do G20 e do Brics, das quais participaram chefes de Estado das principais economias globais.
Fora o projeto Todo Mundo no Rio, que tem levado cerca de 2 milhões de pessoas às areias de Copacabana para shows de divas pop.
E a concessão de benefícios fiscais e alterações nas regras urbanísticas aumentaram a oferta de vagas de hotéis e apartamentos para aluguel por temporada, atraindo número recorde de turistas estrangeiros em 2025: foram 2,1 milhões.
No rol dos pontos positivos, figuram ainda a recauchutada e posterior mudança da regulamentação do Aeroporto do Galeão e a criação do Centro de Operações Rio (COR).
“Ficou muito mais fácil operar eventos de médio e grande porte”, atesta Gaetano Lops, que a reboque do G20 organizou um festival que concentrou mais de 200 000 pessoas na região do porto.
No campo esportivo, o legado se faz presente no dia a dia de atletas como o canoísta Gabriel Albuquerque, 22 anos. Ele viu sua vida mudar com a inauguração do Parque Radical, a dez minutos de casa, onde fica o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom.
“Sem a Olimpíada, eu nunca conheceria a modalidade. Fiz a matrícula no curso gratuito em 2022 e, no ano seguinte, me tornei o primeiro carioca depois da Rio2016 a completar a pista olímpica, considerada uma das melhores do mundo”, orgulha-se o jovem, incentivado por Ana Sátila, esportista que representou o Brasil em quatro edições dos Jogos, de 2012 a 2024.
Ambos treinam na piscina que, aos sábados e domingos, é aberta ao público. O espaço também serviu de cenário para a gravação da grandiosa cena da enchente da novela Quem Ama Cuida. Bem ao lado fica o Centro Olímpico de Ciclismo BMX, que voltou à ativa no ano passado após uma reforma.
Treze vezes campeão brasileiro e presente em três Olimpíadas, Renato Rezende bate ponto por lá.
“O Rio não tinha pista e agora possui a melhor do país. Não quero que fique abandonada. Temos atletas de alto rendimento, mas precisamos formar a base”, fala ele, que se mudou de Minas embalado por um plano.
“Estou montando um projeto social para ensinar crianças e jovens das comunidades próximas”, conta.
A relação do carioca com o esporte mudou mesmo para melhor. Um fenômeno que uma pesquisa Ibope Repucom mapeou com números: 85% da população conectada à internet demonstra hoje algum nível de interesse pela Olimpíada — uma década atrás eram 76%.
E uma estrutura foi erguida para facilitar a prática de modalidades diversas.
Um estudo da prefeitura em parceria com o Rio Convention & Visitors Bureau mostra que a cidade se tornou apta a receber 73 torneios de prestígio mundial, propiciou uma expansão do calendário esportivo fluminense. O número de competições saltou de cerca de noventa, em 2023, para mais de trezentas, em 2025, um avanço salutar na casa de 230%.
Disputas como o Rio Open e a Maratona do Rio fazem girar a roda da economia, movimentando algo na casa dos 700 milhões de reais ao longo de 2025.
Para o economista Marcelo Neri, da FGV, que desde 2019 acompanha o impacto dos Jogos na saúde financeira do estado, o maior legado foi fazer o Rio olhar para a frente depois de anos penando por ter perdido o status de capital federal.
“Analisando os Censos de 1970 a 2010, é possível perceber uma significativa decadência não só em renda, desigualdade e índices do mercado de trabalho, mas também nas áreas de moradia e mobilidade”, afirma Neri, que ressalta o sacolejo positivo desencadeado pela Olimpíada a partir do anúncio de que teria como palco estas areias, em 2009.
Nesta data redonda, que as vitórias sejam celebradas sem deixar de lado o necessário trabalho que falta para o Rio cravar outros pódios. O jogo continua.
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Efeito olímpico
Números dão a dimensão do impulso que a competição trouxe para a cidade
2,1 milhões de turistas estrangeiros passaram pelo Rio no ano passado
65% da população passou a ser atendida por transporte público de médio porte
230% é o aumento da quantidade de eventos esportivos entre 2023 e 2025
700 milhões de reais foi a movimentação gerada por torneios como o Rio Open e a Maratona do Rio em 2025
66 hotéis abriram as portas na última década, e o número de quartos dobrou
Antes e depois
As principais mudanças na paisagem em dez anos
Campo de Golfe. O equipamento permanece em funcionamento, mas virou alvo de disputa judicial. A CRF Empreendimentos, que administra o espaço, é acusada de ter provocado degradação ambiental ao construir um campo de futebol e promover festas privadas, além de utilizá-lo como pista de pouso e decolagem de helicópteros. A empresa nega irregularidades.
Parque Radical de Deodoro. Estão lá o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom e o Centro Olímpico de Ciclismo BMX. Já a vizinha Arena da Juventude está fechada desde março de 2025, assim como o Centro Nacional de Hipismo, o Centro Olímpico de Tiro e o Centro Olímpico de Hóquei, que pertencem ao Exército.
Parque Olímpico. O complexo ocupa uma área de 1,2 milhão de metros quadrados na chamada Barra Olímpica. Segundo a prefeitura, 179 eventos esportivos foram realizados ali desde 2021, quando o plano de legado foi retomado.
Boulevard Olímpico. Também conhecido como Orla Conde, o calçadão de 3,5 quilômetros de extensão às margens da Baía de Guanabara ocupa a região que antes ficava sob o Elevado da Perimetral. Ali estão o Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu do Amanhã, o AquaRio e o mural Etnias, do grafiteiro Kobra.
Vila Olímpica. Com 31 edifícios e 3.604 apartamentos que hospedaram os atletas, o local foi transformado no empreendimento imobiliário Ilha Pura, composto de sete condomínios independentes.
Marcas Permanentes
Patrimônios vão muito além do esporte
Eventos de projeção global.
O Rio passou a sediar encontros internacionais, como as reuniões de cúpula do G20 (2024), e do Brics (2025). Há também os megashows do projeto Todo Mundo no Rio, com elogiadas apresentações de Madonna (2024), Lady Gaga (2025) e Shakira (2026) na Praia de Copacabana.
Barra virou palco de grandes eventos.
O Parque Olímpico abriu espaços para festivais gigantescos, como o Rock in Rio, e shows internacionais no Qualistage, por exemplo.
Expertise em segurança para multidões.
O passo inicial foi dado com a inauguração do primeiro equipamento público para os Jogos Rio2016, em dezembro de 2010, o Centro de Operações Rio, que conta com um telão de 104 metros quadrados, o maior da América Latina. Cerca de trinta agências, órgãos e concessionárias integradas passaram a operar no local.
Arquitetura nômade veio para ficar.
Equipamentos e espaços públicos passaram a ser pensados para usos múltiplos. Há exemplos como o Terminal Gentileza, no Centro, construído com estruturas metálicas do antigo Centro Internacional de Transmissão (IBC), e a Arena do Futuro, desmembrada em quatro Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs).
Mais opções de transporte público.

A Linha 4 do MetrôRio foi inaugurada às vésperas dos Jogos, finalmente levando o modal ao início da Barra. Hoje, 101 000 passageiros circulam pelas cinco estações diariamente. Já o VLT já transportou 180 milhões de passageiros nas quatro linhas desde junho de 2016, enquanto o BRT tem 615 000 usuários a cada dia, distribuídos por quatro corredores.





