A laje é sua: restaurantes e bares com área descoberta viram febre no Rio
Associado às favelas desde o início do século XX, o terraço de concreto vira cenário de encontros que traduzem o espírito informal da cidade
No início do século passado, o Bota-Abaixo, conduzido pelo então prefeito Pereira Passos (1836-1913), destruiu cortiços e hospedarias em nome da modernização e do “saneamento” da cidade. A reforma acabou responsável por recriar ambientes de habitação coletiva às margens dos morros – fazendo surgir as favelas. “Essa forma de moradia existe em cidades como Paris e Genebra, mas, por aqui, foi demonizada por abrigar grande parte da população pobre”, observa o antropólogo MMello, professor do laboratório de etnografia metropolitana da Universidade Federal Fluminense (UFF).
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Placa de concreto armado utilizada para cobrir superfícies ou separar andares, a laje é eminentemente ligada ao Rio de Janeiro e às suas mais de oitocentas comunidades. “Antigamente, a maior realização de quem morava no morro era ter uma dessas, já que, com telhado de zinco, ninguém conseguia dormir em dia de chuva, por causa do barulho”, pontua o historiador Milton Teixeira. Outrora relegada, a laje começou a ganhar status em 1996, quando Michael Jackson mostrou o Santa Marta para o mundo no clipe de They Don’t Care About Us. Duas décadas depois, foi a vez de Anitta exaltar a favela nos vídeos de Vai, Malandra (2017), gravado no Vidigal, e Muito Calor (2019), rodado na Tavares Bastos, no Catete.
Corta para 2026. Bares e restaurantes com clima despojado surfam na popularidade da tal estrutura arquitetônica. O Bar da Laje, fundado em 2014, no Vidigal, recebe cerca de 1 000 clientes por fim de semana em busca de feijoada, roda de samba e da vista de tirar o fôlego. “As pessoas perderam o medo de subir o morro e vêm pela experiência e pelo visual”, destaca a sócia Flavia Brandão. “A comida é boa e a atmosfera única”, comenta o empresário paulista Eugenio Ogata San, cliente assíduo.
Já no asfalto, outro point é o Mercadinho São José, reinaugurado em Laranjeiras em setembro, cheio de bossa e com uma laje para chamar de sua. “Promovemos eventos gratuitos como o Cine Mercadinho, com cadeiras de praia e filmes nacionais na programação”, conta Clicia Couto, gerente de operações da Junta Local, responsável pelo empreendimento. “É um ambiente agradável e fresquinho”, atesta a estrategista digital Catalina Arica, que está sempre por lá.
A chef Katia Barbosa abriu, em 2023, na Praça da Bandeira, o Sofia, com o terceiro andar descoberto. “Fui criada no subúrbio de Ramos, e a laje, para mim, é sagrada”. “É a cereja do bolo do restaurante, um cantinho informal, onde dá para circular e interagir com várias pessoas”, destaca o economista Guilherme Studart, que já comemorou aniversário no espaço. Captar o jeito carioca de ser não é tarefa muito difícil, garante o argentino Uriel Arias, à frente do Cazota Bar, instalado num casarão na Lapa com área a céu aberto. É, aliás, o mais disputado dos três pavimentos. “Quem é do Rio gosta beber em pé na calçada e, na laje, acaba sendo mais seguro”, salienta Arias, que serve a autêntica parrilla argentina. “É o quintal da minha casa, ainda rola jazz ao vivo às quartas”, exalta o advogado e freguês Flávio Lauria.
Para fugir dos preços proibitivos dos aluguéis de Ipanema e Leblon, o chef francês Olivier Cozan decidiu abrir um restaurante no terraço da própria casa, no Horto. Sem altas pretensões, criou um dos pontos mais disputados do verão, abrindo apenas uma noite por semana, às sextas ou sábados para, no máximo, trinta comensais, que desfrutam do menu degustação, a 380 reais por pessoa. O cardápio muda semanalmente, mas tem como marca registrada o foie gras.
“Laje é sinônimo de alegria e de refeição em família. Deu tão certo que vou passar a abrir durante a semana, para grupos”, diz o chef. “O charme e o descompromisso têm tudo a ver com o nosso estilo de vida”, resume Patricia Quentel, sócia da CASACOR Rio e habitué do lugar. O antropólogo e professor da UFF Lenin Pires, frisa, no entanto, que o conceito de “laje” reproduz o de “rua”. “O espaço urbano reafirma hierarquias e explicita desigualdades”, conclui. O Rio, com todas as suas incongruências, é um lugar em que as diferenças convivem.
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Cardápios diversificados e clima descontraído
Laje do Olivier. Menu degustação com técnicas francesas impecáveis. Rua Barão de Oliveira Castro, 51, Horto. Sex. ou sáb., 19h. Somente com reservas pelo 99746-2489.
Cazota Bar. A verdadeira parrilla argentina em clima carioca. Avenida Mem de Sá, 126, Lapa. Ter., 17h/0h. Qua. a sex., a partir das 12h. Sáb. a partir das 13h. Reservas pelo 98834-7665.
Mercadinho São José. Bons drinques, comidinhas e até cinema dão o tom no espaço. Rua das Laranjeiras, 90, Laranjeiras. Ter. a dom., 10h/22h.
Bar da Laje. O patrimônio cultural carioca serve ótima feijoada com vista de tirar o fôlego. Rua Armando Almeida Lima, 8, Vidigal. Seg. a sex., 12h/21h. Sáb. e dom., 12h/22h. Reservas pelo 96767-0838.
Sofia. É possível fechar o terceiro andar do restaurante da chef Katia Barbosa para comemorações regadas a petiscos e música ao vivo. Rua Barão de Iguatemi, 257, Praça da Bandeira. Ter., 12h/16h. Qua. a sáb., até 22h. Dom., 9h/17h. Reservas pelo 97723-0381.







