Karine Teles: “Gosto que o meu rosto se mexa”

De volta ao teatro, a atriz comenta o sucesso na TV, critica a lógica das redes e defende o direito de envelhecer sem filtros — e sem concessões

Por Kamille Viola 8 Maio 2026, 09h23 | Atualizado em 8 Maio 2026, 09h44
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Karine Teles “Errar é a coisa mais legal que pode acontecer no teatro. É o que dá espaço para o maravilhoso acontecer” (Dudu Mafra/Divulgação)
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Depois de sete anos de sua última peça, Karine Teles está de volta ao palco em O Deus da Carnificina, da francesa Yasmina Reza, que ganhou nova montagem brasileira, dirigida por Rodrigo Portella. Na trama, em cartaz no Teatro TotalEnergies até 7 de junho, dois casais se encontram para lidar com a briga entre seus filhos.

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O que começa como um encontro cordial vai, pouco a pouco, se transformando em uma discussão sobre o limite entre a civilização e a barbárie. O retorno às origens — ela começou sua trajetória artística no teatro, aos 14 anos — acontece depois de a atriz ter encarado uma maratona de gravações com seu personagem mais comentado na TV: a divertida secretária Aldeíde Candeias, do remake de Vale Tudo.

Aos 47 anos, Karine está às voltas ainda com seu primeiro longa como diretora, provisoriamente chamado de Princesa, que tem Kleber Mendonça Filho — com quem ela trabalhou em Bacurau (2019) — como consultor do roteiro e é uma espécie de suspense com toques de fantasia no qual o machismo é um vírus. Mãe de dois adolescentes gêmeos de 15 anos, ela conversou com VEJA RIO sobre temas como pressão estética, perimenopausa, violência contra a mulher e o cenário político brasileiro atual. 

Como está sendo a volta ao teatro? É igual andar de bicicleta. Eu estava muito nervosa, mas fiz isso durante muito tempo. É um lugar que eu amo. O teatro é o lugar do erro, e errar é a coisa mais legal que pode acontecer ali. É o que dá espaço para o maravilhoso acontecer. 

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Qual o papel do teatro na sociedade de hoje? Estar num lugar onde você está reagindo ao que está acontecendo no palco, mas o que está acontecendo com a pessoa do seu lado também te influencia, é muito poderoso nesse momento que a gente está tão focado no individual. Tanto que tenho visto os teatros bem cheios. 

Como é lidar com o reconhecimento depois de Aldeíde? Eu confesso que levo um susto até hoje, quando estou no supermercado, na farmácia, e sou reconhecida. Mas geralmente as pessoas são muito gentis. Nunca tive o sonho de ficar famosa. Entendo que, para a nossa profissão, ter uma notoriedade é importante, mas entendo como uma consequência do meu trabalho, não como uma meta. 

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Como era o ritmo de trabalho em Vale Tudo? Uma loucura. E olha que a Aldeíde não era nem protagonista. Eu tinha bastante cena, mas a Taís, o Nero, a Bella não tinham vida. Porque não é só o tempo que você passa dentro do estúdio, você tem que decorar o texto, tem que tentar descansar, tentar ficar com sua família, e é seis por um, de segunda a sábado, doze horas por dia. 

Você usa redes sociais? Bem pouco e cada vez menos. Meu sonho é não precisar ter Instagram. Por mais que eu tenha a ilusão de que eu treinei bem o meu algoritmo, eu sinto que a gente é sugado por um vórtex ali. Quando você vê, está há três horas mexendo no negócio, vendo a receita de cuscuz com ovo da tia do seu vizinho. 

Como é educar dois meninos hoje? Educar outra pessoa é muito difícil. O mundo é uma influência muito poderosa. Então, o que dá para fazer é dar exemplo, estar presente, manter o diálogo aberto e torcer para que isso seja suficiente para que seus filhos virem boas pessoas. Eu falo com eles: “Vocês são dois meninos brancos que moram na Zona Sul do Rio, estudam numa escola de classe média alta para classe alta, têm acesso a tudo que precisam para fazerem o que quiserem na vida. Então, vocês têm muita responsabilidade”. Eu jogo muito esse peso para cima deles. 

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Você percebe o aumento de movimentos misóginos nesta geração? Sim, e converso muito sobre isso com eles. Porque são séculos de um comportamento que está incorporado na gente. Eu mesma volta e meia me vejo caindo num machismo. É difícil. 

Seu longa traz a questão do machismo. Como vê esse cenário no Brasil, como a explosão da violência contra a mulher? Eu sinto que é um combo. Acho que é uma reação aos avanços das mulheres, e aos direitos das pessoas trans, homossexuais. Em termos de lei, somos um país muito avançado. Mas a mentalidade de muita gente não acompanha. A pessoa não concorda, reage, é contra, se revolta. É muito assustador e muito perigoso. Temos que manter o posicionamento firme, a investigação e o cuidado. 

Faria procedimentos estéticos? Nunca fiz nada e não pretendo fazer. Gosto que o meu rosto se mexa, gosto das minhas expressões. Eu realmente acho muito mais bonito um rosto com marca de tempo do que um rosto esticado, paralisado, estufado, sei lá. 

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Você está passando pela perimenopausa? Que bom que a gente está passando por isso agora, que a gente tem informação. Eu procurei ajuda assim que os primeiros sintomas começaram e faço reposiçãozinha hormonal, que fez toda a diferença. Comecei a não dormir. Não dormir é um negócio que não dá para mim. E, nossa, melhorou muito. 

Como você se define hoje — inclusive afetivamente? E que lugar o amor ocupa na sua vida? Eu tenho dificuldade em me definir. Acho que sou basicamente hétero, porque já achei que era bi, mas acredito que perdi essa carteirinha. Tenho pensado muito sobre descentralizar o romantismo. Há alguns anos isso deixou de ser o centro da minha vida. Já fiz isso e não faria de novo: abrir mão de algo que me constitui como pessoa para caber num relacionamento. 

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