“Recuperamos a intimidade e o prazer”, diz Tony Bellotto sobre os Titãs
Celebrando os 40 anos do disco Cabeça Dinossauro, o músico fala sobre o reencontro com a banda, a vocação literária, o machismo e a luta contra o câncer
Admirador da filosofia zen-budista, que defende que devemos focar no aqui e agora, Tony Bellotto vive um momento presente de celebrações.
Aos 65 anos, ele está em turnê com o show Titãs – Cabeça Dinossauro 40 Anos, que comemora o aniversário do álbum, um divisor de águas na carreira da banda — hoje formada por ele, Branco Mello e Sérgio Britto.
A boa fase chega depois de um baque sofrido pelo guitarrista há dois anos, quando, durante um exame de rotina, descobriu um câncer no pâncreas.
Passado o choque inicial, no entanto, ele procurou levar o tratamento da forma mais realista possível — o fato de ter visto Branco Mello travar algumas batalhas contra a doença desde 2018 e seguir firme ajudou a continuar tocando a vida com o máximo de normalidade viável.
Bellotto operou em abril de 2025 e, quatro meses depois, já estava de volta aos palcos.
Chegou a ficar com uma sequela da quimioterapia — um formigamento na mão direita que dificultava segurar a palheta para tocar a guitarra —, mas depois o sintoma desapareceu.
Em outubro passado, levou seu primeiro Prêmio Jabuti, pelo romance literário Vento em Setembro (2024), seu 11º livro.
Às vésperas do show no Qualistage, na Barra, no sábado (9), ele conversou com VEJA RIO sobre temas diversos.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
Como você vê o Brasil de 2026 em comparação ao de 1986, quando Cabeça Dinossauro foi lançado?
A gente estava vivendo a euforia do fm da ditadura, que tinha durado mais de vinte anos. Existia uma esperança muito grande na retomada da democracia. O Cabeça Dinossauro saiu como um grito que estava engasgado na garganta. Hoje, me sinto um pouco mais assustado, porque a democracia está em risco.
Um pouco antes do disco sair, você e o Arnaldo Antunes foram presos por posse de drogas. Você já disse que as drogas e o álcool deram lugar ao café. Como vê essa questão hoje?
Sou a favor de liberar tudo e fazer campanhas de informação. Isso vale para tudo: as drogas, o aborto. Passados quarenta anos, a lei avançou muito pouco nessa questão: os traficantes continuam ganhando muito dinheiro, fortalecendo o crime organizado. E as pessoas não deixaram de usar drogas.
A turnê Encontro, entre 2023 e 2024, reuniu a formação clássica dos Titãs quase inteira. Foi bom voltar a conviver com a turma toda?
Quando percebemos que era uma vontade de todos fazer esse encontro, recuperamos a intimidade e o prazer de estar juntos, que foi uma coisa muito legal. Eventuais discordâncias, uma coisa ou outra que tinha ficado na saída da banda, isso sumiu.
Como explica o sucesso dessa grande turnê num momento em que o rock já não ocupa o centro da cultura jovem?
A gente pensou: “De repente, um Allianz Park conseguimos encher.” E fizemos isso seis vezes. Foi uma coisa grandiosa, maior até do que a gente esperava. O rock realmente não tem mais aquele apelo de quando nasceu. Acho que esse discurso da rebeldia está muito mais com o rap hoje.
O Tony escritor sempre caminhou junto com o músico Tony?
A música é um exercício coletivo, barulhento, de muita gente: você toca no show, aquela multidão cantando junto. A literatura, ao contrário, é um ato muito solitário, em que eu tenho que tomar todas as decisões sozinho. Quando eu estou fazendo uma, estou descansando da outra.
Onde esses dois afazeres se encontram?
Tanto na literatura quanto na música, a disciplina é muito importante. A criação depende, sim, de uma fagulha de inspiração, mas precisa ter muito trabalho.
Seu último livro aborda a masculinidade. Como lida com isso?
Acho que a grande revolução do nosso tempo é o feminismo. Já reconheci em mim atitudes machistas. Como disse o Marcelo Freixo, todo homem é um “macho em desconstrução”. O que me preocupa é ver o crescimento de movimentos misóginos entre jovens. Não dá para delegar essa discussão só às mulheres: cabe a nós rever comportamentos.
Você se imaginava no palco aos 65 anos?
Passei recentemente por um tratamento contra um câncer. Isso te leva a pensar na finitude. Vejo muita gente lutando muito contra essa ideia, tentando afugentar a morte, quase como se ela não existisse. Como se fosse possível preservar fisionomia jovem o tempo todo. Acho que um dos segredos de uma boa vida é você ir sabendo envelhecer.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
Como foi o processo, entre receber a notícia do câncer e ter que lidar?
O primeiro momento foi um choque. Eu falei: “Agora está na hora de você aplicar tudo o que estudou de zen-budismo”. Fui aceitando e decidi enfrentar da maneira menos dramática possível.
Você é uma pessoa de relacionamentos duradouros. Como viabiliza isso?
Com os Titãs, desde o início, a gente teve sempre uma admiração muito grande um pelo outro e uma consciência de que aquilo que a gente estava fazendo junto era melhor do que o que pudéssemos fazer sozinhos. Isso é uma coisa que eu acho até hoje. E eu sou um cara conciliador, não sou de rompante, não gosto muito de embate, de discussão.
E na vida pessoal?
Aconteceu entre a Malu (Mader, sua esposa há mais de 35 anos) e eu um desses encontros muito especiais. Divergimos em muitas coisas, mas nas essenciais a gente é muito parecido. Nesses últimos tempos da doença, ela me acompanhou, foi supercompanheira. Senti que o nosso amor se aprofundou.
Há um novo livro ou disco a caminho?
Estou terminando um outro romance. Você ganha um prêmio e em vez de falar “ufa, ganhei o prêmio”, você diz: “agora eu tenho que fazer um livro que faça jus Silmara Ciuffa a um cara que ganhou o Jabuti no livro anterior”.







