“Recuperamos a intimidade e o prazer”, diz Tony Bellotto sobre os Titãs

Celebrando os 40 anos do disco Cabeça Dinossauro, o músico fala sobre o reencontro com a banda, a vocação literária, o machismo e a luta contra o câncer

Por Kamile Viola 1 Maio 2026, 09h53
Tony Bellotto crédito Silmara Ciuffa.jpg
Tony Bellotto: "Sou a favor de liberar tudo e fazer campanhas de informação. Isso vale para tudo, as drogas, o aborto..." (Silmara Ciuffa/Divulgação)
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Admirador da filosofia zen-budista, que defende que devemos focar no aqui e agora, Tony Bellotto vive um momento presente de celebrações.

Aos 65 anos, ele está em turnê com o show Titãs – Cabeça Dinossauro 40 Anos, que comemora o aniversário do álbum, um divisor de águas na carreira da banda — hoje formada por ele, Branco Mello e Sérgio Britto.

A boa fase chega depois de um baque sofrido pelo guitarrista há dois anos, quando, durante um exame de rotina, descobriu um câncer no pâncreas.

Passado o choque inicial, no entanto, ele procurou levar o tratamento da forma mais realista possível — o fato de ter visto Branco Mello travar algumas batalhas contra a doença desde 2018 e seguir firme ajudou a continuar tocando a vida com o máximo de normalidade viável.

Bellotto operou em abril de 2025 e, quatro meses depois, já estava de volta aos palcos.

Chegou a ficar com uma sequela da quimioterapia — um formigamento na mão direita que dificultava segurar a palheta para tocar a guitarra —, mas depois o sintoma desapareceu.

Em outubro passado, levou seu primeiro Prêmio Jabuti, pelo romance literário Vento em Setembro (2024), seu 11º livro.

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Às vésperas do show no Qualistage, na Barra, no sábado (9), ele conversou com VEJA RIO sobre temas diversos. 

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Como você vê o Brasil de 2026 em comparação ao de 1986, quando Cabeça Dinossauro foi lançado?

A gente estava vivendo a euforia do fm da ditadura, que tinha durado mais de vinte anos. Existia uma esperança muito grande na retomada da democracia. O Cabeça Dinossauro saiu como um grito que estava engasgado na garganta. Hoje, me sinto um pouco mais assustado, porque a democracia está em risco. 

Um pouco antes do disco sair, você e o Arnaldo Antunes foram presos por posse de drogas. Você já disse que as drogas e o álcool deram lugar ao café. Como vê essa questão hoje?

Sou a favor de liberar tudo e fazer campanhas de informação. Isso vale para tudo: as drogas, o aborto. Passados quarenta anos, a lei avançou muito pouco nessa questão: os traficantes continuam ganhando muito dinheiro, fortalecendo o crime organizado. E as pessoas não deixaram de usar drogas. 

A turnê Encontro, entre 2023 e 2024, reuniu a formação clássica dos Titãs quase inteira. Foi bom voltar a conviver com a turma toda?

Quando percebemos que era uma vontade de todos fazer esse encontro, recuperamos a intimidade e o prazer de estar juntos, que foi uma coisa muito legal. Eventuais discordâncias, uma coisa ou outra que tinha ficado na saída da banda, isso sumiu. 

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Como explica o sucesso dessa grande turnê num momento em que o rock já não ocupa o centro da cultura jovem?

A gente pensou: “De repente, um Allianz Park conseguimos encher.” E fizemos isso seis vezes. Foi uma coisa grandiosa, maior até do que a gente esperava. O rock realmente não tem mais aquele apelo de quando nasceu. Acho que esse discurso da rebeldia está muito mais com o rap hoje.

 O Tony escritor sempre caminhou junto com o músico Tony?

A música é um exercício coletivo, barulhento, de muita gente: você toca no show, aquela multidão cantando junto. A literatura, ao contrário, é um ato muito solitário, em que eu tenho que tomar todas as decisões sozinho. Quando eu estou fazendo uma, estou descansando da outra. 

Onde esses dois afazeres se encontram?

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Tanto na literatura quanto na música, a disciplina é muito importante. A criação depende, sim, de uma fagulha de inspiração, mas precisa ter muito trabalho. 

Seu último livro aborda a masculinidade. Como lida com isso?

Acho que a grande revolução do nosso tempo é o feminismo. Já reconheci em mim atitudes machistas. Como disse o Marcelo Freixo, todo homem é um “macho em desconstrução”. O que me preocupa é ver o crescimento de movimentos misóginos entre jovens. Não dá para delegar essa discussão só às mulheres: cabe a nós rever comportamentos. 

Você se imaginava no palco aos 65 anos?

Passei recentemente por um tratamento contra um câncer. Isso te leva a pensar na finitude. Vejo muita gente lutando muito contra essa ideia, tentando afugentar a morte, quase como se ela não existisse. Como se fosse possível preservar fisionomia jovem o tempo todo. Acho que um dos segredos de uma boa vida é você ir sabendo envelhecer. 

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Como foi o processo, entre receber a notícia do câncer e ter que lidar?

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O primeiro momento foi um choque. Eu falei: “Agora está na hora de você aplicar tudo o que estudou de zen-budismo”. Fui aceitando e decidi enfrentar da maneira menos dramática possível. 

Você é uma pessoa de relacionamentos duradouros. Como viabiliza isso?

Com os Titãs, desde o início, a gente teve sempre uma admiração muito grande um pelo outro e uma consciência de que aquilo que a gente estava fazendo junto era melhor do que o que pudéssemos fazer sozinhos. Isso é uma coisa que eu acho até hoje. E eu sou um cara conciliador, não sou de rompante, não gosto muito de embate, de discussão. 

E na vida pessoal?

Aconteceu entre a Malu (Mader, sua esposa há mais de 35 anos) e eu um desses encontros muito especiais. Divergimos em muitas coisas, mas nas essenciais a gente é muito parecido. Nesses últimos tempos da doença, ela me acompanhou, foi supercompanheira. Senti que o nosso amor se aprofundou. 

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Há um novo livro ou disco a caminho?

Estou terminando um outro romance. Você ganha um prêmio e em vez de falar “ufa, ganhei o prêmio”, você diz: “agora eu tenho que fazer um livro que faça jus Silmara Ciuffa a um cara que ganhou o Jabuti no livro anterior”. 

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