Número de incêndios em bares e restaurantes cresce 22% no Rio em um ano
Segundo especialistas, falta de manutenção e gambiarras elétricas podem explicar esse salto; fogo que devastou cozinha mantém Lamas, no Flamengo, fechado
Diante das portas semicerradas do Café Lamas num fim de tarde da última semana de agosto, a turista amazonense Rosiane Silva, no Rio a passeio, perguntou: “Vocês vão abrir para o jantar?” Ao ouvir a negativa, não escondeu a frustração. “Toda vez eu e meu marido pedimos o filé à Oswaldo Aranha”, lamentou a advogada. A pérola do Flamengo, com 152 anos de história, está fechada desde o dia 16 de junho, quando um incêndio devorou a cozinha centenária. Segundo os sócios Milton Brito e Cláudia Rocha, uma fritadeira entrou em curto, superaqueceu o óleo e provocou as chamas. Quatro extintores foram usados, sem sucesso. Pelo menos, ninguém se feriu e o fogo não atingiu o salão e a fachada. “É uma dor. Em questão de minutos ficou tudo destruído”, diz Brito, ligado à casa há mais de quatro décadas.
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Fundado em 1874 e considerado o restaurante mais antigo em funcionamento contínuo no Brasil, o Lamas tinha seguro, mas a cobertura não bastou para todos os custos. Uma vaquinha articulada por donos de bares e artistas como Moacyr Luz reuniu 25 estabelecimentos e arrecadou 110 000 reais, o que ajudou a manter o salário dos cerca de 35 funcionários durante os meses sem faturamento. A cozinha será refeita integralmente, com novas instalações, equipamentos, coifa e revestimentos. A previsão é reabrir em meados de setembro, para alegria dos fregueses.
O episódio expõe uma dinâmica que, por trás do charme da mesa posta, pode esconder uma coleção de riscos. Números mostram que casos em bares e restaurantes estão ganhando espaço no mapa das ocorrências no estado. De 1º de janeiro a 20 de agosto de 2026, o Corpo de Bombeiros registrou 401 acionamentos por incêndio nesses estabelecimentos, contra 328 no mesmo período de 2025, uma alta de 22,3%. Segundo o tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros, estima-se que 80% dos incidentes desse tipo no Brasil tenham origem em problemas elétricos.
No Rio, imóveis antigos da Zona Sul e do Centro tornam a equação ainda mais delicada, sobretudo quando a fiação não acompanha a avalanche de aparatos que passaram a integrar o cenário. “Ar-condicionado, fritadeiras, airfryers e outros aparelhos exigem mais corrente e podem sobrecarregar instalações, especialmente quando há adaptadores ou vários equipamentos ligados na mesma tomada”, alerta Contreiras.
Foi justamente uma fritadeira a “culpada” em outros dois casos, registrados em abril: no Posí, em Ipanema, e no Belmonte do Edifício Touring, no Centro. Antonio Rodrigues, sócio do Belmonte e responsável pelo complexo, afirma que, após o ocorrido, trocou os fritadores elétricos por modelos a gás. “Se o termostato não funciona, o aparelho pode explodir”, afirma.
A eletricidade aparece como grande vilã, mas está longe de ser a única ameaça dentro de uma cozinha profissional. A gordura acumulada em coifas e dutos costuma passar despercebida. “É altamente inflamável”, alerta Rodrigo Gonçalves, subsecretário de Defesa Civil do Rio, que encontra com frequência sistemas de exaustão sem limpeza adequada durante as vistorias. “Já acompanhei incêndios que começaram em coifas, e as chamas avançaram por estruturas de difícil acesso”, relata Contreiras, porta-voz dos Bombeiros.
Há ainda outras causas possíveis. No Quintal Barra, atingido em 20 de agosto, a perícia da Polícia Civil concluiu que o cenário era compatível com uma ocorrência acidental, após testemunhas relatarem um possível curto num aparelho de som. Já o Exquina Gastrobar, no Recreio, foi consumido pelo fogo no início de julho, e ação criminosa é uma das suspeitas da investigação. O que causou o fogo na pizzaria Ferro e Farinha, em Botafogo, não foi revelado, mas a assessoria de imprensa da rede informa que a casa deve reabrir na primeira quinzena de setembro. São histórias diferentes, mas com uma conclusão parecida: em lugares nos quais fogo, gordura, gás e eletricidade convivem, a prevenção não pode ser um item secundário do cardápio.
Prevenção à mesa
Medidas para evitar as chamas
Extintor não é decoração.
Equipamentos de combate precisam estar dentro da validade, acessíveis e adequados ao tipo de risco do estabelecimento. Dependendo do imóvel, podem ser exigidos sprinklers, alarmes, detectores, mangueiras e iluminação de emergência.
Instalação elétrica em dia. Faça revisões periódicas da fiação e do quadro de disjuntores, especialmente em imóveis antigos. A instalação precisa acompanhar a quantidade e a potência dos equipamentos.
Sem improviso. Evite benjamins, adaptadores e vários equipamentos ligados na mesma tomada. Fritadeiras, fornos e outros aparelhos afins devem ter conexões dedicadas e compatíveis com a amperagem.
Vigilância nunca é demais. Máquinas elétricas precisam ser desligadas corretamente e ter o termostato e o disjuntor verificados e desligados todos os dias. Assim, cria-se uma espécie de dupla proteção.
Coifa limpa é segurança. Filtros, coifas e dutos devem ser higienizados regularmente. A gordura acumulada é altamente inflamável e pode fazer as chamas se espalharem rapidamente.
Ar-condicionado também entra na lista. Esses aparelhos precisam de manutenção de acordo com as orientações do fabricante. Falhas e superaquecimento podem provocar princípio de incêndio.
Gás exige manutenção. Tubulações e instalações de GLP devem ser vistoriadas a cada cinco anos e mantidas em boas condições. Qualquer alteração deve ser feita seguindo as normas estabelecidas.







