Trilha na Ilha Comprida leva aventureiros ao Arquipélago das Cagarras
A primeira trilha insular do Rio exige desembarque no mar e travessia por costões rochosos, mas recompensa o esforço com vista espetacular da cidade
Não é para amadores!
À primeira vista, o programa parece convidativo: cruzar a primeira trilha aberta à visitação dentro do Arquipélago das Cagarras. Situado na Ilha Comprida, este é o primeiro trecho oceânico da Trilha Transcarioca — circuito de 180 quilômetros que conecta Barra de Guaratiba ao Morro da Urca. O passeio, no entanto, requer preparo físico, além de habilidades na água e entre as rochas.
Não há uma estrutura para o desembarque, e os visitantes precisam se lançar ao mar e nadar até um costão coberto por cracas afiadas, por onde se dá o acesso à ilha. O percurso foi inaugurado em 28 de junho, um domingo de sol, e VEJA RIO integrou a primeira expedição, supervisionada por uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foram necessários treze anos de planejamento, monitoramento e criação de protocolos de segurança para que a iniciativa, enfim, ganhasse aval. “A gente acredita que vai atrair o bom visitante, aquele que vem desfrutar da paisagem, mas faz questão de recolher o próprio lixo e nos comunicar caso note alguma irregularidade”, aponta Tatiana Ribeiro, analista ambiental do ICMBio e gestora do Mona Cagarras.
De lá, é possível avistar a cadeia de montanhas do Gigante Adormecido, que tem a Pedra da Gávea como nariz; o Dois Irmãos e o Corcovado formando o corpo; e o Pão de Açúcar assemelhando-se aos pés. “Ninguém preserva algo que não conhece, e a iniciativa trará mais turistas, movimentando a economia”, opina Jeremias Freitas, coordenador de manejo da Trilha Transcarioca. A cinco quilômetros da orla de Ipanema, o visual impactante compensa o esforço da chegada, e há três opções de trajeto (veja no box). De intensidade moderada a alta, eles começam em declive e possuem placas de orientação com QR Codes para tradução para o inglês — o 5G, aliás, funciona perfeitamente.
Porém, em alguns trechos de subida e descida, o único apoio dos aventureiros são pequenas fissuras nas pedras. Vale outro aviso: não há nenhuma sombra no caminho. Ao olhar para cima, nota-se urubus, fragatas e atobás-marrons, enquanto no solo observa-se a vegetação típica da Mata Atlântica insular, composta por capim, bromélias, clúsias e cactos — há que se ter atenção aos espinhos afiados. Na parte final, uma linha escura na pedra evidencia os minerais que registram um processo geológico iniciado há milhões de anos: num futuro ainda distante, a faixa marcará a separação daquela ponta da ilha.
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Criado em 2010 pelo ICMBio, o Mona Cagarras é uma unidade de conservação que reúne as ilhas Comprida, Palmas, Cagarra e Redonda, além de duas ilhotas, a Filhote da Cagarra e a Filhote da Redonda. O local integra a seleta lista Hope Spots (pontos de esperança, em português), pela alta diversidade de espécies e importância ecológica e econômica. Presente na expedição inaugural, o guia e instrutor de escalada profissional Flávio ‘Bagreí Carneiro lembra que, quando começou a frequentar o arquipélago, no início dos anos 2000, antes da criação do Mona Cagarras e das restrições de desembarque, o cenário era bem diferente, porque não havia monitoramento adequado. “Mutirões retiravam meia tonelada de lixo daqui. Hoje, praticamente não vemos resíduos”, compara. O ICMBio recomenda a contratação de condutores e guias credenciados para realizar a trilha, mas nada é obrigatório, o que acende um alerta. “Basta virar modinha nas redes sociais para que um monte de gente despreparada queira conhecer”, enfatiza Vinicius Viegas, diretor de mercados da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta). Em caso de acidente, a responsabilização jurídica é um ponto crítico. “Quem faz a trilha por conta própria assume os riscos, mas tudo muda de figura quando há uma empresa contratada, porque a responsabilidade passa a ser do operador”, acrescenta Viegas. Avaliar o condicionamento físico antes da jornada é fundamental. O cenário é idílico, mas talvez o programa não seja para todos.
Manual do aventureiro
O que saber antes de rumar para às Cagarras
A trilha fica na Ilha Comprida e pode ser acessada todos os dias, das 7h às 17h. Não é permitido pernoite.
Não é possível desembarcar direto na ilha, então é preciso nadar até lá. O ICMBio recomenda a contratação de condutores credenciados. A lista pode ser consultada no @icmbio_monacagarras.
O nível de dificuldade vai de moderado a alto, e o passeio é indicado para maiores de 12 anos.
Há três percursos: bate e volta (400 metros), na face sul da Ilha Comprida; circuito curto (800 metros), incluindo o lado norte; e completo (1,2 quilômetro), com os principais mirantes
Recomenda-se o uso de sapatilha ou calçado com boa aderência na pedra; roupa com proteção UV; protetor solar; chapéu e muita água.





