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Idosos elegem o mar como primeiro reencontro pós-pandemia

Aterro, MAM e centros culturais também estão entre os lugares que a turma acima dos 60 quer rever assim que a quarentena terminar

Por Carolina Rodrigues e Liz Salgado* - Atualizado em 18 jun 2020, 13h12 - Publicado em 17 jun 2020, 10h37

Os idosos compõem cerca de 13% da população carioca, a maior concentração entre as capitais brasileiras. A rica relação com a cidade ajuda a turma acima dos 60 a encarar os apertos da ora. Ela se manifesta tanto na memória afetiva quanto nos reencontros projetados quando as ruas voltarem a sorrir. O mar acalenta a maioria dessas projeções. Quase uma unanimidade na lista de primeiros lugares que os idosos reunidos nesta reportagem desejam rever com o fim da quarentena. A saudade navega da contemplação do pôr do sol no Arpoador à participação em projetos sociais na praia do Leblon.

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Nascida em Niterói e criada na antiga Guanabara, a cantora e compositora Baby do Brasil, de 67 anos, tem na cidade um eterno “quintal de inspirações artísticas”. Nele compôs “99,99% das músicas”. Até não foi o caso de Menino do Rio. Mas foi na voz de Baby que a canção de Caetano, tema da novela Água Viva, estourou Brasil afora nos anos 1980. Na vida de Baby, o Rio faz sucesso como uma usina de experiências. Boa parte delas vivida à beira do mar: “Ali, eu e uma galera fizemos vigílias, batismos na madrugada, luaus com violões e com banquetes”, lembra.

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Gente, no meio desse início, do início, do início, de Apocalipse, onde tudo é muito mais profundo do que parece, eu recebo ese delicioso presente da minha nora Gabriela! Um bolo de cenoura funcional com açúcar de côco, farinha de côco entre outros ingredientes e com uma cauda de chocolate com cacau orgânico, incrível, espetacular! Ao som de um louvorzão Rock and Roll, eu agradeço por esse presente que fechou com chave de ouro o meu domingo abençoado! 🙏💜🙏

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Essas lembranças embalam os dias da cantora na quarentena. Enquanto se integra à onda das lives e se ajusta ao afastamento social, Baby sonha rever, passada a pandemia, a Pedra do Arpoador. Ela diz que o icônico recanto lhe aguça a criatividade.

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Já a astróloga Leiloca Neves, ex-integrante do grupo As Frenéticas, tem saudade literalmente do mar: “Sinto falta do mergulho no mar, que é o quintal da minha casa”. Esse banho é a primeira coisa que fará quando a quarentena terminar. Certamente ela será acompanhada de outros tantos cariocas.

Leiloca também sente falta dos shows que costumava frequentar no clube Manouche, no Jardim Botânico. Enquanto aguarda para matar a saudade do mar e dos shows, ela renova a paixão pela cidade. Uma paixão paradoxal: “sou apaixonada, mas ando cada vez mais triste com o que fizeram com o Rio”.

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Apesar dos problemas crônicos, ora refletidos na pandemia, o Rio segue apaixonante também para quem vem de fora e o transforma num lar. Assim fez a mineira Viceli Donati, de 80 anos. Dona de um “coração carioca”, a aposentada reforça a queda de Baby e Leiloca pelas delícias praianas. Não porque o mar a inspira ou refresca, mas por mantê-la jovem. Viceli quer reencontrar as atividades que fazia na praia do Leblon: recolhimento voluntário de lixo voluntário e jogos de vôlei. “São experiências que me dão juventude. Estou com muitas saudades”, conta a ex-funcionária da Petrobras.

O radialista Roberto Canazio, que se recuperou da Covid-19, também elege a orla carioca como o primeiro reencontro pós-pandemia. Aos 72 anos, já emprestou sua voz para contar inúmeras histórias cariocas em rádios como Nacional, Manchete, Globo e Tupi. A trajetória profissional contribuiu para ele construir uma “relação irrestrita de amor com o Rio”. Quando a quarentena passar, Canazio planeja uma viagem no tempo: caminhar pela Orla Conde, também chamada de Boulevard Olímpico, na região central, às franjas da Baía. “Aquela região me faz uma falta incrível. Adoro passar por ali. É um misto de passado com presente. Os contrastes da cidade são tão importantes quanto as belezas naturais”, pondera.

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Canazio vê a orla como quem se delicia com as marcas da história na paisagem. Um olhar que flana pela memória nas caminhadas às margens da Guanabara. Mais dia, menos dia, o radialista haverá de reencontrá-las. “Sou conhecedor da evolução urbanística do Rio. Meu prazer é comparar determinadas regiões da cidade, olhar para as imagens antigas e ver aquilo que restou. Isso preserva a história e a memória do Rio”, justifica.

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Caminhada também é aquilo de que Sonia Fuchs sente mais falta na quarentena. Diferentemente de Canazio, a organizadora de desfiles de moda prefere o calçadão do Leme. Aos 77 anos, ela passeia nesses dias de isolamento pelas lembranças dos desfiles organizados em clubes como Monte Líbano, Iate e, principalmente, no Clube Militar.

O Aterro não haveria de faltar entre os primeiros reencontros pós-pandemia com a cidade. Nele caminha a contagem regressiva da pedagoga aposentada Maria Regina Angeiras, de 77 anos. Fundadora do Colégio Divertivendo, dedicado a crianças com necessidades especiais, Regina ressalta o espírito inclusivo e “libertador do Rio, onde as pessoas são como são”. Para ela, o Aterro simboliza esse espírito. “É um lugar de encontros e reencontros, onde o caminhar nos aproxima de belezas como o Pão de Açúcar, o Corcovado, o mar. É o lugar de que mais sinto falta, porque me traz paz”, destaca.

A jornalista e professora de etiqueta Manuella Machado, 74 anos, também sente falta de passear no Aterro, acompanhada do cachorro. Ao lado desse cartão-postal, Manuella projeta reencontros com a vida cultural da cidade. Planeja retomar, assim que possível, as visitas ao MAM e aos museus, além do papo com os amigos no Talho Capixaba, no Leblon.

Se Manuella sonha em reencontrar centros culturais e teatros, a aposentada Maria Madalena Milagres, 81 anos, repousa a saudade no paladar. Sente falta da comida nordestina, e “do ambiente divertido”, do Chiquita, em Copacabana. Especialmente quando a refeição é ao lado da melhor amiga. Ela também quer rever os shows no Net Rio. “Eu ia todo fim de semana” conta. Maria Madalena aguarda ansiosa para voltar a curtir Copacabana. “Nessa idade, tenho que aproveitar a vida”, emenda.

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Aos 77 anos, Gilberto Gil faz outro caminho. Não cultiva a ansiedade de retomar uma agenda social. Extrai da reclusão encontros e reencontros guiados por “uma pessoa de coração caseiro”. Para o cantor e compositor, a rotina doméstica representa o contrário de isolamento. Significa liberdade. “Estou livre de ir em restaurantes, aniversários, de tudo isso”, brinca. “Estou feliz recolhido”. De qualquer forma, muitos não veem a hora de abraçar, como já cantava Gil em 1969, novamente a Portela, a torcida e outras lindezas da alma carioca.

Carolina Rodrigues e Liz Salgado*, estudantes de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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