Hipódromo da Gávea completa um século e Jockey se reinventa além das pistas

Um dos mais tradicionais endereços da cidade atrai diferentes gerações com eventos, restaurantes, teatro e galeria de arte sem perder a essência do turfe

Por Carolina Ribeiro 3 jul 2026, 08h30
Cartão-postal: Emoldurado pelo Cristo Redentor, Jockey mantém viva a tradição centenária do turfe
Cartão-postal: Emoldurado pelo Cristo Redentor, Jockey mantém viva a tradição centenária do turfe (Yasuyoshi Chiba/AFP/Divulgação)
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Antes de o Cristo Redentor abrir os braços sobre a cidade, o Rio já escondia um pedacinho de Paris às margens da Lagoa. Inaugurado em 11 de julho de 1926, o Hipódromo da Gávea nasceu como uma réplica tropical do Hipódromo de Longchamp, no parque Bois de Boulogne, um dos mais elegantes cenários franceses das corridas de cavalos. Projetado pelos arquitetos Archimedes Memoria e Francisque Couchet, o complexo ocupa um terreno de 643 000 metros quadrados que abrange, além da Lagoa, Gávea, Leblon e Jardim Botânico. A inauguração mobilizou cerca de 30 000 pessoas, que, de cartola, paletó e gravata, lotaram as tribunas, enquanto os jornais da época definiram a cerimônia como “o mais brilhante episódio da vida esportiva do país”. Cem anos depois, a arquitetura neoclássica continua praticamente intacta, dos balcões de apostas de carvalho maciço aos lustres de cristal Baccarat. A vocação do espaço, porém, se ampliou. Além das corridas, o hipódromo passou a abrigar restaurantes, grandes eventos, atividades ao ar livre e uma comunidade que mantém viva a cultura do turfe, consolidando-se como um dos endereços mais plurais do Rio. “Fico impressionada ao ver a topografia da cidade antes de tantas reformas urbanas e da construção de monumentos históricos. E o Jockey já estava lá”, observa Andrea Wanderley, editora do portal Brasiliana Fotográfica, que reúne o acervo de Augusto Malta, o grande fotógrafo, entre 1903 e 1936.

Fachada do Palácio Monroe em preto e branco, com cúpula de vidro na entrada principal e duas torres laterais com bandeiras. Pessoas aglomeradas na frente, incluindo um grupo de crianças à direita, e árvores no primeiro plano. O céu está claro
Tribuna Social: réplica tropical do Hipódromo de Longchamp, no parque Bois de Boulogne, em Paris (JCB/Divulgação)

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Cem anos: classificada com um brilhante episódio da vida esportiva no país, inauguração contou com a presença do presidente do Brasil Artur Bernardes (Wikimedia Commons/Divulgação)

O centenário patrimônio guarda capítulos vividos por gerações diversas de cariocas, que inclusive fixam residência por lá. Dia desses, um bebê de apenas 1 ano galopava sobre um cavalo de balanço na Vila Hípica do Jockey Club, instalada no complexo do hipódromo, que completa um século no sábado (11). A mãe, Victoria Mota, de 27 anos, e a avó, Juliana Dias, 48, trocavam um sorriso de quem conhece de cor essa história em meio ao ambiente rural encravado no coração da Zona Sul. “É bom demais ter contato com bicho no meio da cidade. Tem morador que cria até galinha aqui”, conta Victoria, exibindo uma fotografia de infância sobre um brinquedo semelhante ao da filha. Ex-joqueta com mais de duzentos títulos nas pistas e hoje treinadora, ela divide uma das cocheiras (como são chamadas as casas com sala, cozinha, quartos, varandas e boxes para os animais) com a mãe, apresentadora da TV Turfe, e também com éguas e cavalos puros-sangues e dois cachorros. “Quando digo que moro numa casa na Lagoa, acham que sou rica”, observa Juliana. “A cocheira foi cedida, em contrato de comodato, a meu avô, que era treinador, passou para a família e chegou à minha filha.” Recentemente, Juliana reuniu um grupo de amigas para comprar um cavalo em sistema de cotas. “É uma forma de facilitar o acesso ao turfe. Se ele ganhar um páreo, o rateio é proporcional”, explica.

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Vila Hípica: Juliana Dias, apresentadora da TV Turfe, Victoria Mota, treinadora e a bebê Manoela são a quinta geração da família no ambiente rural (Dani Dacorso/Veja Rio)

A rotina da Vila Hípica gira em torno das corridas, que movimentam jóqueis, treinadores, tratadores e apostadores, e mantêm acesa a tradição que deu origem ao Hipódromo da Gávea. O páreo inaugural juntou oito cavalos e girou 705 000 réis em apostas — o equivalente a cerca de 26 milhões de reais em valores atuais. Um século depois, o Grande Prêmio Brasil, principal prova do calendário nacional, colocou dezesseis cavalos e uma égua — com nomes peculiares como Summer do Iguaçu, MC Arrocha, Que Emoção, Quero Te Mucho e Zucca Baby (o vencedor) — para correr a até 60 quilômetros por hora na pista de 2 200 metros, no mês passado. Com lance mínimo de 2 reais, o páreo somou quase 360 000 reais em apostas, e quem acertou quadruplicou o montante investido. Agora aposentado, o engenheiro Luiz Alberto Rodrigues, 75 anos, fez do turfe seu ganha-pão e assim sustentou os três filhos, que estudaram no Colégio Santo Inácio. Frequentador do Jockey há meio século, Rodrigues entrou para o mundo das apostas quando a firma onde trabalhava fechou as portas. “Sempre fui estudioso. Passei a assistir aos treinos e acompanhar os cavalos. Com o dinheiro da rescisão, comecei a apostar e não voltei mais para a engenharia”, lembra. No início dos anos 1990, ele chegou a ganhar 48 000 dólares em um único páreo. “Hoje é diferente. O esporte perdeu espaço, o cardápio de apostas ficou mais complicado, e o Jockey retém cerca de 30% do valor arrecadado. É preciso ganhar para ter dinheiro e tentar de novo”, diz.

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Estilo neoclássico: a dupla Archimedes Memoria e Francisque Couchet assina o projeto arquitetônico (Acervo Brasiliana Fotográfica/Divulgação)
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Olho no lance: chapéus ornamentais, cartolas e paletós marcaram a moda da época (JCB/Divulgação)

É justamente para preservar essa cultura que o Jockey Club Brasileiro — instituição criada em 1932 e responsável pela administração do Hipódromo da Gávea, inaugurado seis anos antes — vem ampliando sua atuação para além das pistas. As corridas, aos domingos, segundas e terças-feiras, continuam sendo sua célula-máter, com oito páreos e um público de aproximadamente 1 000 pessoas por dia. “É um jogo de xadrez com peças vivas, nossa principal razão de existir”, define o vice- presidente Luiz Augusto Gouvêa de Mello Franco, integrante do conselho diretor, formado por setenta membros. Ao redor delas, porém, consolidou-se uma azeitada engrenagem que ajuda a sustentar financeiramente o espaço: vivem ali cerca de 500 pessoas, distribuídas entre as vilas Hípica, Tattersall e Lagoa, onde há 400 funcionários e 5 000 sócios titulares, além de 1 000 cavalos alojados em 100 cocheiras. O complexo abriga ainda a escola de ensino fundamental Jockey Club Brasileiro, com 300 alunos, a Escola de Profissionais do Turfe (EPT), ambas gratuitas, hospital veterinário, clube, espaço para leilões, oito restaurantes, teatro, duas galerias de arte e, desde 2024, uma unidade do Colégio pH. Eventos como Rio Open, Carandaí 25, Arena Jockey, CasaBloco e Village também se abrigam por lá ao longo do ano. “O aluguel dessas áreas tornou-se uma receita fundamental”, reconhece Mello Franco.

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Grande Prêmio: evento mais disputado do calendário do turfe teve páreo com cerca de 360 000 reais em apostas (Ana Paula Amorim/Veja Rio)
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Se antes os turfistas torciam o nariz para festas com música nas alturas e movimentação capaz de assustar os cavalos, hoje entendem que o agito é parte do jogo. Desde 2014, o Rio Open tornou-se um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa transformação. A cada edição, o maior torneio de tênis da América do Sul, com público superior a 60 000 pessoas, se expande. Para 2027, a novidade-mor será a transferência da quadra central para o coração do hipódromo e a substituição do saibro por um material mais moderno. O projeto prevê ainda ampliar a capacidade do estádio de 6 200 para até 10 000 espectadores. “O Jockey é a casa do Rio Open. Cartões-postais como Cristo, Floresta da Tijuca e Lagoa aparecem na cobertura e ajudam a promover a cidade globalmente”, afirma Alan Adler, CEO da IMM Esporte e Entretenimento. A mesma lógica fez deslanchar o Carandaí 25, festival de moda autoral que, em 2023, passou a se espalhar por uma área de 12 000 metros quadrados no Jockey. “Foi um desafio entender como envelopar o espaço sem perder nossa essência. Deu muito certo e hoje recebemos até 40 000 pessoas por edição”, comemora a idealizadora Tati Accioli. Frequentadora desde a adolescência, quando a Babilônia Feira Hype tomava as tribunas — foi ali, aliás, que nasceu a Farm, em 1997 —, ela resume a vocação local: “O Jockey é um camaleão. Impressiona como cada evento cria uma identidade própria, com um diálogo entre o clássico e o contemporâneo”.

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Look nostálgico: o casal Izabela Botega e Leonardo Ramos costuma estender o almoço no Rubaiyat para assistir às corridas de cavalos (Ana Paula Amorim/Veja Rio)

Outra estratégia para angariar recursos é tentar transformar o turfe em uma atração mais democrática, com feira gastronômica e programação infantil, o “turfinho”. “Não é mais uma atividade elitizada, mas um espetáculo aberto ao público”, propõe o vice-presidente Mello Franco. Os velhos tempos de clãs endinheirados, com proprietários de haras de grife, de fato vem cedendo lugar a cavalariços, treinadores, apostadores, aposentados e entusiastas em geral. “Cavalo é dinheiro. Todo mundo gosta”, define um veterinário e antigo funcionário do Jockey, que prefere o anonimato. Na ala dos curiosos, Izabela Botega e Leonardo Ramos costumam almoçar aos domingos no Rubaiyat. O programa ganhou um aperitivo extra há três meses, quando o casal se tornou frequentador assíduo das corridas. “Virou nosso hobby de domingo. A gente sai do restaurante e caminha pelo Jockey. Na última vez, acertei quatro páreos seguidos. Apostei 50 reais e saí com 700. Comecei a gostar”, relata Izabela. Desenvolvedora de produtos da Granado, a empresária aproveitou o Grande Prêmio para caprichar na escolha do look nostálgico: um vestido preto e branco de bolinhas e chapéu de palha. “O Jockey é o nosso Maracanã”, define Ramos. Está aí um autêntico clássico carioca.    

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Pedra fundamental: placa com o registro do centenário do Hipódromo Brasileiro (André MA/Shutterstock/Divulgação)

Um século grandioso

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A linha do tempo do turfe e do Jockey Club Brasileiro  

1850 Fundação do primeiro clube de corridas de cavalos no Rio, o Prado Fluminense, no bairro de São Francisco Xavier, Zona Norte. Mais tarde, o grupo deu origem ao Jockey Club. 

1884 Inauguração do Derby Club, organizado pelo engenheiro Paulo de Frontin, que adquiriu um terreno onde é hoje o Estádio do Maracanã. O hipódromo recebeu o nome de Prado do Itamaraty. A primeira corrida oficial foi em agosto do ano seguinte. 

1926 Transferência do Prado Fluminense para a Gávea e a inauguração do Hipódromo Brasileiro, fortalecendo o turfe como esporte nacional. 

1932 Fusão do Derby Club com o Jockey Club, que resultou no Jockey Club Brasileiro. 

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1933 Ano em que foi disputado o primeiro Grande Prêmio Brasil, consagrando como vencedores o cavalo Mossoró e o jóquei Juliano Mesquita. 

1960 Década marcada por transformações na sociedade brasileira, e o JCB atravessa sua primeira crise, mas consegue resistir e se reerguer como palco dos grandes prêmios. 

2000 Transformação do GP Brasil em evento multicultural, com abertura para novos públicos. 

2026 Centenário do Hipódromo da Gávea com um calendário anual de corridas, além de uma agenda cultural e esportiva. 

Joias da arquitetura 

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Mais quatro prédios emblemáticos do Rio fazem 100 anos em 2026 

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Quarteirão dos palácios: prédio na Cinelândia onde funciona o centenário Cine Odeon (Acervo Brasiliana Fotográfica/Divulgação)

Cine Odeon. Inaugurado em março de 1926, o espaço é queridinho do circuito dos cinemas de rua cariocas — mesmo com a agenda mais devagar, dedicada apenas a festivais. Projetado pelo arquiteto alemão Ricardo Wriedt, com colaboração do escritório de Adolfo Morales de Los Rios, o edifício com referências neoclássicas e detalhes em art déco foi o quarto prédio do chamado “quarteirão dos palácios de cinema”, na Cinelândia. 

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Fachada Moderna: um dos raros cinemas históricos de rua no Rio é palco de lançamentos e festivais (./Divulgação)

Palácio Tiradentes. Do mesmo ano e da mesma dupla de arquitetos do Jockey Club Brasileiro, Archimedes Memória e Francisque Couchet, foi sede da Câmara dos Deputados, no Centro. Marco da trajetória política e urbanística carioca, a edificação, de concreto armado e aço na estrutura do vitral da cúpula do plenário, abriga hoje a Assembleia Legislativa (Alerj). 

Edifício Touring. À beira da Baía de Guanabara, o antigo Terminal Marítimo de Passageiros do Touring Club do Brasil leva a assinatura do arquiteto francês Joseph Gire (1872-1933), com seus clássicos vitrais com imagens de palmeiras e bromélias do Atelier Formenti e escadarias circulares. Reformado sem abrir mão das características originais, é agora um polo gastronômico com bares e restaurantes. 

Estação Leopoldina. A Estação Barão de Mauá, batizada em homenagem ao banqueiro que implementou as primeiras ferrovias do país, foi projetada pelo arquiteto Robert Prentice (1883- 1960) nos moldes escoceses, com fachada imponente e saguão colossal. Fechada em 2001, a construção é alvo de um imbróglio que pretende transformar o local em complexo de uso misto. 

Próximas largadas 

A concorrida agenda de eventos do Jockey 

Village. Até a final da Copa, no dia 19 de julho, a arena recebe shows grandiosos com direito a telão, roda-gigante e até tirolesa. Vão passar pelo palco nomes como Anitta, BaianaSystem, Ferrugem e João Gomes. 

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Abelha-Rainha: octagenária Maria Bethânia se apresenta ao lado de Paulinho da Viola (Guilherme Nabhan/Divulgação)

Doce Maravilha. Há três edições no Jockey, o festival de música brasileira recebe grandes nomes numa combinação eclética. Entre as atrações deste ano, Caetano Veloso convida Emicida, em 9 de agosto, e Paulinho da Viola divide o palco com Maria Bethânia, em 10 de agosto. 

Carandaí 25. A próxima parada do festival de moda autoral é em São Paulo, mas o evento volta ao Rio entre 5 e 8 de novembro. Para além dos estandes das marcas, a programação conta com talks, oficinas, shows e desfiles. 

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Torneio de Tênis: o Jockey é a “casa” do circuito mundial desde 2014 (André Gemmer/Divulgação)

Rio Open. A 13ª edição do maior torneio da categoria ATP 500 na América do Sul acontece entre os dias 13 e 21 de fevereiro de 2027. Haverá novidades, como quadras mais modernas e uma área VIP ainda maior. 

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