Guerra aos mosquitos: nem no inverno eles dão sopa

Mudanças climáticas, adaptação das espécies e criadouros nas próprias casas ajudam a explicar a infestação de pernilongos que vem tirando o sono de cariocas

Por Alessandra Carneiro 7 ago 2026, 10h05 | Atualizado em 7 ago 2026, 10h34
Homem barbudo de camiseta preta segura um spray de inseticida na mão esquerda e uma raquete elétrica amarela cobrindo parte do rosto, com expressão surpresa. Na mesa, há um repelente elétrico, velas de citronela e um frasco de loção repelente.
Guerra aos mosquitos: o advogado Rafael Carregal, morador de Botafogo, tem um arsenal para acabar com a perturbação em casa (Dani Dacorso/Veja Rio)
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Se eu deixar as janelas abertas, sou carregada pelos mosquitos à noite. Eles sambam em frente ao ventilador. Tem noites em que mato mais de vinte. Estou virando um zumbi, não consigo mais dormir. Nos últimos meses, queixas como essas se multiplicaram pelas redes sociais quase na mesma velocidade — e quantidade — que os próprios pernilongos. O que mais chama atenção é que os relatos surgem em pleno inverno, justamente quando os pequenos invasores costumavam dar uma trégua. Moradores de diferentes regiões do Rio relatam que os insetos parecem não ter ido embora com a mudança das estações desta vez.  A explicação passa por uma combinação de fatores climáticos e ambientais. A chuva acima da média no início da estação, seguida por dias de calor fora do padrão, favoreceu a reprodução. Soma-se a isso uma cidade cada vez mais adensada, com mais áreas impermeáveis, pontos de acúmulo de água e menos predadores naturais. “Não existe uma única causa, mas a soma de todos os erros que insistimos em perpetuar”, resume o biólogo Mario Moscatelli. Dependendo do comportamento do chamado Super El Niño, ele acredita que o cenário atual pode ser apenas “um aperitivo” do que ainda está por vir.

O zum-zum-zum inconveniente se reflete no aumento de chamados para a Central 1746, da prefeitura. Apesar de o serviço não contar com uma categoria específica para os mosquitos — as reclamações são agrupadas entre solicitações de vistoria em focos de Aedes aegypti e relatos gerais de presença de insetos —, o volume de pedidos salta aos olhos. Em 2025, foram 4 378 solicitações desse tipo; em 2026, até 24 de julho, já eram 4149, quase o mesmo patamar do ano passado, um aumento de 65%. De acordo com a prefeitura, 99,87% dos pedidos que exigiam avaliação de um agente de Vigilância em Saúde haviam sido atendidos até meados do mês de julho. Mas quem está roubando a cena agora — menos mau — não é o Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya. “Não há estudo sobre quais espécies estão se proliferando, mas temos uma percepção do crescimento do gênero Culex, especialmente do Culex quinquefasciatus, popularmente conhecido como pernilongo”, afirma Arlindo Serpa Filho, entomólogo da SOS Vida Silvestre e pesquisador-colaborador da Fundação Oswaldo Cruz. Os números da dengue reforçam essa percepção: no ano passado, a incidência foi de 146 casos por 100 000 habitantes, e a média de 2026, ao menos até agora, é bem mais baixa, de 49.

Uma aranha pequena e marrom pendurada no dedo de uma mão, enquanto um homem com barba e olhos arregalados a observa em segundo plano
O advogado Rafael Carregal passou a criar até aranhas para combater os insetos (Dani Dacorso/Veja Rio)

Para quem está na linha de frente dessa batalha, teorias e números pouco importam quando o zunido começa. Moradora da Tijuca, segundo bairro da cidade com mais reclamações na Central 1746, a designer Juliana Martins, 49 anos, conta que, apesar de viver perto de uma área de mata, nunca tinha se deparado com tantos mosquitos dentro de casa — ainda mais nessa época. “Agora eles aparecem mesmo quando está frio”, indigna-se. Em Botafogo, também entre as cinco regiões com maior número de queixas, o advogado Rafael Carregal, 42 anos, já testou praticamente um arsenal doméstico: raquete elétrica, inseticidas, repelentes de tomada e de iluminação e até incenso de citronela. Mais recentemente, tamanho o desespero, começou a criar pequenas aranhas na tentativa de reforçar a tropa de predadores. “Nada dá jeito. Meus gatos ainda são melhores em exterminar os invasores”, brinca. A também advogada Camila Martins, moradora de Laranjeiras, precisou instalar telas em todos os cômodos. “Mesmo assim, os pernilongos continuam aparecendo”, lamenta. A preocupação aumentou depois do nascimento da filha, Helena, hoje com 2 anos. “Passo repelente nas pernas dela antes de dormir, mas constantemente os pernilongos a acordam e a noite vira um caos”, relata.

Família sorridente posa em frente a uma janela com tela de proteção e folhagem verde ao fundo. A mulher, à esquerda, usa camisa branca e toca a janela. A menina, no centro, veste um vestido preto de bolinhas brancas e está sentada no parapeito. O homem, à direita, veste uma camisa polo azul marinho e abraça a menina
O casal de advogados Camila e Pedro instalou tela para tentar ter sossego (./Divulgação)

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Parte da dificuldade em controlar os pernilongos está no fato de que eles encontram condições para se reproduzir dentro das próprias residências. “O Culex se aproveita de qualquer ambiente úmido com matéria orgânica”, explica Serpa Filho, da Fiocruz. Depois de picar uma pessoa e se alimentar de sangue, indispensável ao desenvolvimento dos ovos, a fêmea procura locais como ralos, caixas de gordura e outros pontos úmidos para fazer a postura. Por isso, segundo o pesquisador, a limpeza frequente desses ambientes é uma das principais formas de reduzir a proliferação. Nesta batalha, soma-se também a capacidade dos mosquitos de se adaptarem às condições que encontram. Pesquisas realizadas em diferentes partes do planeta identificaram populações com maior resistência a inseticidas, o que pode reduzir a eficácia de algumas das ferramentas usadas no controle. No estado do Rio, estudos já encontraram populações de Aedes aegypti altamente resistentes a determinados produtos. Há ainda pesquisas investigando alterações genéticas que podem ampliar a tolerância a temperaturas mais baixas. “Vem acontecendo uma espécie de corrida evolutiva, e indivíduos mais adaptados podem sobreviver e transmitir essas características às gerações seguintes”, explica o pesquisador.

A presença prolongada desses insetos já começa a afetar até a rotina de bares e restaurantes. No Esperança Eco, em Laranjeiras, o repelente ganhou lugar fixo entre os itens oferecidos aos clientes. A pedido do público, o restaurante reforçou o estoque e hoje disponibiliza versões para adultos, crianças e bebês, além de fórmulas não oleosas. “Estamos em um lugar aberto, perto de uma praça, então sempre convivemos com pernilongos. Normal. Mas neste ano piorou demais”, avalia a proprietária, Veronica Moreira. Em Copacabana, o bar Os Imortais também precisou se reorganizar. Segundo o sócio Rômulo Torres, os pernilongos deixaram de ficar restritos às proximidades das árvores e passaram a aparecer por todo o entorno. A casa usa mata-mosquitos em spray e mantém repelentes disponíveis para quem pedir. O que antes seria uma providência excepcional virou parte da operação.

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Duas mulheres sorridentes, uma com cabelo cacheado e blusa escura, a outra com cabelo liso e blusa preta, seguram repelentes em um restaurante. A primeira segura um tubo branco e laranja, a segunda uma embalagem branca com spray. Ambas têm unhas vermelhas e estão sentadas à mesa com toalha verde, ao fundo uma parede de tijolos e outra branca com quadros e luzes
Bares e restaurantes se adaptam à rotina: no Esperança Eco, em Laranjeiras, a dona, Verônica Moreira, passou a disponibilizar repelentes para diversos tipos de pele (Ana Paula Amorim/Veja Rio)

Se existe incômodo, logo surge um mercado disposto a vender a solução. Na loja de utensílios domésticos Casa Rosa, em Copacabana, a gerente Thaiane Paiva aponta para as últimas raquetes elétricas da prateleira: “A venda está muito alta. Inclusive, nosso estoque está zerado”. A procura por proteção também chegou às empresas de telas e ajuda a explicar a expansão de um mercado que antes tinha forte caráter sazonal. Na Prokid, a demanda subiu 45% desde dezembro de 2025, e a maior parte dos interessados mora na Zona Sul. “Gestantes e famílias com bebês estão entre os principais clientes, assim como síndicos interessados em proteger áreas comuns de condomínios. Restaurantes, escolas e outros estabelecimentos comerciais também passaram a procurar o serviço”, conta a sócia Gerlane Pereira. Recentemente, eles fizeram instalações no restaurante Nido, no Leblon, e no Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho. A mudança aparece também nos dados de consumo: segundo a Off, marca da SC Johnson, a penetração do produto nos lares brasileiros passou de 8% em 2021 para 15% atualmente. A tendência é reforçada por pesquisas sobre o mercado de repelentes, que projetam um crescimento de 6,5 bilhões de dólares em 2026 para 9,7 bilhões em 2033, uma taxa de crescimento anual de 6% em todo o mundo.

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Consumo crescendo: presença de produtos de proteção nos lares brasileiros passou de 8% para 15% nos últimos cinco anos (,/Divulgação)

Nas ruas, o controle envolve o poder público. Para Serpa Filho, seria necessária uma rotina mais rigorosa de limpeza de bueiros, com inseticidas contra as formas jovens e fumacê nos períodos de infestação. A Secretaria Municipal de Saúde, porém, afirma que o fumacê é destinado ao controle do Aedes aegypti em situações específicas e que o pernilongo comum não é considerado transmissor de doenças relevantes no cenário epidemiológico. O desafio aparece também no acúmulo de resíduos.

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Funcionária da Comlurb, vestindo uniforme laranja e capa de chuva amarela, lava um contêiner de lixo laranja com uma mangueira de alta pressão em uma calçada de paralelepípedos. Pessoas e um caminhão branco aparecem ao fundo, sob céu azul
Limpeza: apesar da reclamação de moradores, a Comlurb informa que os “laranjões” são removidos e higienizados diariamente, e a prefeitura intensificou a Operação Ralo Limpo (./Divulgação)

“Se está ruim na Zona Sul, imagina nas outras regiões da cidade”, aponta Moscatelli, lembrando que, no Caju, perto da Estação de Tratamento da Alegria, havia uma área de vegetação cercada de lixo, e 450 toneladas de resíduos foram retirados em um ano, graças a um projeto de recuperação de manguezais degradados. A prefeitura afirma que a Secretaria de Conservação, através da Operação Ralo Limpo, já higienizou mais de 51 000 bueiros e poços de visita em 2026. Apesar da reclamação de moradores de várias regiões, a Comlurb, por sua vez, informa que seus novos contêineres de 1 200 litros ó os antigos tinham capacidade para 240 ó são removidos e higienizados diariamente. Para o biólogo, porém, a responsabilidade também é de quem descarta lixo irregularmente. “Enquanto a natureza continuar sendo usada como lixeira, ela vai arrumar um jeito de se ‘vingar”, conclui. O transtorno parece estar longe do fim, mas cada um precisa fazer a sua parte.   

Comparativo de um manguezal: à esquerda, o chão coberto por lixo; à direita, o mesmo local limpo, com brotos verdes crescendo na lama escura
Antes e depois: o biólogo Mario Moscatelli chama atenção para o acúmulo de lixo em áreas de vegetação, como o manguezal do Caju, de onde foram retiradas 450 toneladas de resíduos em um ano (Mario Moscatelli/Divulgação)

 

Os campeões de zumbido

Bairros com mais chamados contra insetos no 1746 em 2026 

1º Campo Grande 

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2º Tijuca 

3º Sepetiba 

4º Realengo 

5º Botafogo

Vista aérea de uma praça com lago verde em formato de coração, cercada por árvores e palmeiras. Ao fundo, edifícios comerciais e residenciais de diferentes alturas e cores, com ruas movimentadas por carros e ônibus. O céu está azul com nuvens esparsas
Tijuca é o 2º bairro com mais reclamações (Luoman/Getty Images/Divulgação)
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4149 reclamações nos primeiros sete meses deste ano 

65% de aumento nas queixas em relação a 2025 

Manual antimosquito 

As respostas da ciência para as principais dúvidas sobre os insetos 

Existe “sangue doce”  (Mentira)

O que faz algumas pessoas parecerem verdadeiros ímãs dos bichinhos é a combinação de fatores explicada acima, além de características individuais que podem alterar a atração dos insetos. Ou seja: simplesmente há indivíduos mais fáceis de localizar. 

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Tomar vitamina B evita picadas (Mentira)

Não há evidência científica consistente de que a ingestão reduza de forma significativa o incômodo. 

Mosquitos ficam restritos aos primeiros pavimentos (Mentira)

Não há respaldo científico nisso. Pesquisas com Aedes aegypti e Aedes albopictus em prédios já encontraram os insetos até o 21º andar, a 60 metros do solo, embora a concentração geralmente seja maior nos pisos mais baixos. Poços de elevadores podem servir de criadouro, então eles podem, sim, subir de elevador, assim como os moradores. 

Ar-Condicionado afasta pernilongos (Depende)

Temperaturas mais baixas podem reduzir a atividade e, em ambientes climatizados, as janelas fechadas também dificultam a entrada. No entanto, o aparelho não mata nem expulsa diretamente os insetos. 

Citronela resolve (Depende)

A planta medicinal pode ajudar a afastá-los, mas seu efeito tende a ser limitado e de duração menor que a dos repelentes com ativos comprovados. 

Pernilongos são atraídos Pela luz (Depende)

Ao contrário do que acontece com vários outros insetos, a luz não é o principal chamariz. Eles conseguem localizar pessoas principalmente pelo dióxido de carbono expirado, além do odor da pele e do calor corporal. 

Ventilador ajuda (Verdade)

Além de dificultar o voo, a corrente de ar pode dispersar o dióxido de carbono e os odores corporais usados para localizar pessoas, tornando-se uma ajuda simples. 

A cor da roupa faz diferença (Verdade)

A visão também entra no radar. Pesquisas mostram que algumas espécies, entre elas o Aedes aegypti, respondem mais a determinados tons e contrastes. Matizes escuros, além de vermelho em determinadas condições, podem ser mais atrativos. 

Do incômodo ao perigo 

Os cinco principais mosquitos encontrados no Rio e os riscos que representam à saúde 

Aedes Aegypti 

É, disparado, o tipo que merece mais atenção, por ser vetor de dengue, zika e chikungunya. Ele tem forte adaptação ao ambiente urbano, vivendo próximo das pessoas e se reproduzindo em recipientes com água parada. 

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Aedes Albopictus

Conhecido como mosquito-tigre, também pode transmitir dengue, zika e chikungunya. A diferença é o seu comportamento: costuma estar mais associado a áreas externas, com vegetação. Por isso, embora seja um vetor importante, seu contato com pessoas tende a acontecer menos. 

Um mosquito Aedes aegypti preto e branco, com abdômen vermelho inchado de sangue, picando a pele humana, com fundo verde desfocado

Haemagogus

São os principais vetores da febre amarela silvestre no Brasil. Vivem principalmente em áreas de mata e participam do ciclo da doença entre insetos e primatas não humanos. 

Um mosquito com abdômen vermelho inchado, cheio de sangue, picando a pele de um braço com pelos finos, em close-up

Sabethes

Também encontrado em ambientes florestais, esse tipo participa da transmissão da febre amarela silvestre. Ganha importância quando há circulação do vírus em ambientes de mata. 

Um mosquito azul metálico com pernas longas e finas, e duas pernas traseiras com tufos de pelos azuis e pretos, pousado sobre a pele humana

Culex Quinquefasciatus

Aparece em grande quantidade, sobretudo em locais com água acumulada e matéria orgânica. Pode participar da transmissão de agentes como a filariose em regiões onde essas doenças ocorrem, mas o risco é baixíssimo no Brasil. Seu impacto é mesmo o incômodo causado por picadas e zumbidos. 

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(./Divulgação)
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